19 de agosto de 2009

Nos lábios e no coração. Ou não.

É muito engraçado andar pela rua ou conversar com amigos e perceber que alguém está citando a Bíblia com palavras pouco convencionais ou inventando inocentemente coisas que não existem lá.

Certa feita, eu andava pela praça onde pegamos ônibus para a cidade vizinha, e vi dois homens conversando. O jeito de falar e de vestir de ambos não deslumbrava, muito pelo contrário, seriam os típicos matutos que a gente vê todo dia. “Triste do caba que confia nôto” – disse um deles. E eu logo me lembrei de Jeremias 17.9 e sorri para mim mesmo, enquanto fingia prestar atenção no livro que trazia comigo.

Outra vez, estávamos imaginando como seria Gênesis na voz de um surfista... (Isso depois de vermos "The Cockney Bible", ou, em português, "A Bíblia Cockney" - Histórias da Bíblia traduzidas numa antiga gíria britânica que consisitia em juntar duas palavras com algo em comum mas o significado seria uma palavra que rima com a segunda delas. Exemplo em português: “Eu gosto de comer pé e mão com então e pois” – eu gosto de comer feijão com arroz.) ...

“Começou só morgação... tinha nada. Deus falou ‘Aê luz, chega junto!’ e a luz chegou. [...] E Deus fez o cara e a mina e disse ‘Ficou massa.’ E Deus achou tudo muito legal.”

Falando sobre a transformação dos que estiverem vivos para o encontro com o Senhor nos ares, já vi gente dizer que ia “subir pro céu com tripa e tudo” para dizer que teremos os corpos transformados.

Mas engraçados são aqueles versículos que não existem em lugar algum, que crente velho insiste em achar que tem: um amigo de um amigo detestava desperdício de comida, e para justificar seu estranho hábito de gula (após o almoço comia tudo o que foi deixado na mesa), ele dizia que estava escrito na Bíblia: “E Deus amou a limpeza”. Além de não existir esse verso, a “limpeza” dele era “comer até não sobrar nada”. Parece que na bíblia dele esse verso substitui os que condenam a gula.

Também sempre tem o político que sobe no palanque e adora dizer que “Como disse Deus, ‘Esforça-te que eu te ajudarei’” – essa arranca muitas gargalhadas, mas apesar de não estar na Bíblia assim, tem inúmeras referências onde Deus manda o povo se esforçar e promete seu auxílio.

Enfim, eu me divirto ouvindo versículos que espontaneamente brotam do nosso jeito de falar, com nossos regionalismos e gírias.

O pessoal diz que eu sou “espontâneo demais”, mas uma vez quase soltei a pérola de traduzir, a pedido de uma missionária, a história da multiplicação dos pães, que ela contava em inglês para uma turma do clube de inglês, da seguinte forma: “E os discípulos perguntaram: que é que tá pegando, hein?”

A Bíblia certamente ganha um colorido especial quando é posta no dia-a-dia da gente na voz e no jeito das pessoas para a qual ela foi escrita. Mas o que me deixa realmente triste é o elitismo lingüístico e o preconceito que temos (alguns de forma inconsciente) contra traduções em linguagem mais simples. Várias pessoas condenam ou espalham boatos que tal Bíblia diz isso ou aquilo sem jamais haver lido ou conferido o assunto. É triste.

Minha maior decepção quanto ao assunto de linguagem e Bíblia foi ler a minha na casa de uma mulher pobre, sem educação, sem conhecimento prévio de Bíblia, amiga minha, num trecho do evangelho em que Jesus cura um doente: senti-me num pedestal. Comecei a traduzir toda a história para ela com palavras simples, pois percebi que ela não entendia algumas palavras eruditas do texto de minha Bíblia de cabeceira. (Desde então, tenho preferido e recomendado a NVI e a NTLH para evangelismo.)

(Para vocês terem uma ideia, em duas das minhas leituras completas da Bíblia eu fiz listas de palavras difícieis de entender para pessoas de média e de pouca cultura. E até na "Nova Tradução na Linguagem de Hoje" eu encontrei várias vezes a palavra "patrícios". Onde é que na "linguagem [do Brasil] de hoje" as pessoas costumeiramente usam a palavra "patrícios"? Só se for na linguagem de hoje do Império Romano! (Ah, e as listas ficaram grandes! ... E eu confesso com vexame: nunca olhei todas elas no dicionário. Para diminuir meu vexame, defendo-me: algumas eu não precisei.)

Se a Bíblia só fala a língua “dos dotô”, como a gente pode se surpreender de as pessoas não a conhecerem? Perguntem em suas igrejas o que significa chuva serôdia, primípara, beneplácito, imarcescível, coscorões, séquito, eira, arrazoar, unção, rapaces, propiciatório e o famigerado patrício! Nem sempre pelo contexto dá para deduzir alguns significados claramente. Felizmente algumas Bíblias vêm com vocabulários.

Não quero dizer que as traduções não devam ser respeitosas e bonitas, mas que os tradutores e pregadores devem fazer o possível para que a Bíblia seja simples, clara e inteligível a todos, ao invés de apenas culparem o governo pela deficiência de educação e tornarem a Palavra uma erudição primorosa e inatingível ao coração.

E pelo amor de Deus, nunca deixem de dizer para as pessoas que "dom" é um "presente" e que "graça" é um "favor que nós não merecemos".

5 comentários:

Alice disse...

OLá !!

adorei teu Blog !! muito bom, inteligente e admirável !!...enfim, não resiste e tornei-me sua mais nova seguidora e add vc aos meus liks favoritos !!.... bem, o unico incoveniente é que certamente virei aqui com muita frequencia !!


um super abraço pra vc

www.verdadesnuas.blogspot.com

www.alicenopaisdopensamento.blogspot.com

Avelar Jr. disse...

Olá, Alice!

Obrigado pela visita e pelo elogio.

De vez em quando eu tento escrever uma coisinha, mas nem sempre o tempo dá.

Fico contente que tenha gostado e seguido.

Abração! :)

Pedro, Débora e Patrick disse...

Avelar,
Mais um texto excelente seu! Parabéns!
Eu concordo com vc, mas também discordo.
Concordo quando vc diz que a bíblia deve estar mais acessível. Acho que, para evangelizar e discipular, a bíblia deve sim ter uma linguagem mais acessível, devemos explicar os termos difíceis e facilitar o entendimento de pessoas com grau de instrução menor, ou então de pessoas de outras culturas.

Mas ainda acho que, mesmo sendo difícil demais de entender (até para nós que contamos com a iluminação do Espírito Santo), a Bíblia deve continuar como está para aqueles crentes que já estão amadurecendo na caminhada cristã, já são salvos e discipulados e que começam a ter uma curiosidade maior pelas coisas de Deus.
Para estes que querem mergulhar no conhecimento da Palavra, a Bíblia deve permanecer com suas palavras eruditas.

A BÍBLIA NÃO DEVE ADAPTAR-SE AO HOMEM, MAS O HOMEM É QUE DEVE ADAPTAR-SE À BÍBLIA.
Se começarmos querendo moldar a linguagem bíblica para o entendimento dos surfistas, dos cientistas, dos empresários, dos mulçumanos, dos gays, das prostitutas, enfim, então vamos correr sérios riscos de acabar adaptando também os ensinamentos bíblicos àquilo que eles acreditam. É bom ter cuidado com isso.

O povo judeu é o povo de Deus, Deus o escolheu e escolheu a sua cultura, sua língua, para que através dele o conhecimento divino nos fosse repassado. Então devemos nos dedicar em estudar esse povo e sua língua, sua cultura para que possamos entender mais sobre Deus. Há vários testemunhos de pessoas que aprenderam a ler estudando a Bíblia.

Já li o livreto Versões Modernas da Bíblia (David W. Cloud) e, embora não concorde mais com muitas das coisas escritas ali, achei interessante um argumento do tradutor:
"O tradutor ouviu pessoalmente um professor de conceituado seminário e ex-missionário para os índios orgulhosamente defender aberrações tais como, por exemplo, que a "tradução-dinâmica" do Evangelho segundo João, para a língua de uma tribo que tinha na mandioca seu principal alimento, deveria fazer Jesus dizer "Eu sou a mandioca da vida", ao invés de "Eu sou o pão da vida." O Tradutor não pode deixar de pensar como poderia vir a ser uma "Bíblia para os viciados em maconha"..."

Obrigada pelo espaço, irmão!
Em Cristo,
Débora Silva Costa
http://ferazao-bang.blogspot.com/

Avelar Jr. disse...

Débora,

Fico muito feliz que tenha gostado do texto. Obrigado.

Eu acho que que as Bíblias em linguagem simples e eruditas devem coexistir. É uma questão de estilo. Mas eu não concordo em que a Bíblia deva ser de linguagem flexível demais como você parece ter entendido.

Não sou a favor de gírias e regionalismos nas traduções. Tampouco de traduzir "pão da vida" como "tapioca da vida". (Mas o tradutor pode pôr uma nota explicativa no final da Bíblia ou no rodapé do texto explicando o que é um pão para quem não sabe o que é.)

É como eu havia dito no texto:

"Não quero dizer que as traduções não devam ser respeitosas e bonitas, mas que os tradutores e pregadores devem fazer o possível para que a Bíblia seja simples, clara e inteligível a todos, ao invés de apenas culparem o governo pela deficiência de educação e tornarem a Palavra uma erudição primorosa e inatingível ao coração.

Eu prefiro bíblias de linguagem simples para evangelizar, mas para uso congregacional e pessoal não dispenso a Almeida Atualizada - e as outras de vez em quando.

Fique à vontade pra comentar, debater... O blog é nosso. :)

Pedro, Débora e Patrick disse...

Avelar,
Muito obrigada pelo esclarecimento. Realmente acho que estava te interpretando mal. Desculpe!
Mas pode contar comigo com certeza para debater e comentar. Mas visite e comente em meu blog também, viu?
"Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós..." Mateus 7:12

Em Cristo,
Débora Silva Costa
http://ferazao-bang.blogspot.com/

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...