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28 de outubro de 2016

Burocratizando a Vida Cristã


"Eu lhes afirmo que está chegando a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e aqueles que a ouvirem, viverão." João 5.25

Data de protocolo, formulário a ser preenchido com letra de forma e sem rasuras, entregar em três vias, anexar foto 3x4, assinar três vezes e apor a impressão digital do polegar direito... Todo mundo já está bem familiarizado com repartições públicas, concursos, editais, inscrições ou qualquer outra coisa que demanda burocracia. Alguns são tão viciados nesse tipo de coisa que têm até a sua própria forma burocrática de ver o cristianismo e a vida cristã.

Quando você se converteu? Quando você se batizou? Quem são seus pais na fé? Você é membro de uma igreja que batiza por aspersão ou por imersão? Quem assinou seu certificado de batismo? ... Espere aí, isso é uma entrevista para emprego? Para um visto de permanência em país estrangeiro?

Já ouvi muita gente que consegue fazer um histórico detalhado de sua própria vida cristã. E talvez porque muitos consigam lembrar detalhes dessas coisas e os mencionam sempre que falam de si, eu cheguei a pensar que eu precisava mesmo detalhar toda a minha história, registrar todas as datas para que eu pudesse gozar da certeza de ser convertido. Às vezes o convívio com pessoas mais aparentemente seguras cria em nós esta mentalidade meticulosa. E nossos pecados sucessivos pioram as nossas dúvidas. Se realmente me converti, por que não lembro a data especificamente? Isso me afligiu por um tempo.

Eu já passei por crises de identidade assim. Eu não sei em que dia eu me converti de verdade porque para mim isto foi um longo processo. Não me converti num sistema de reação instantânea em cadeia do tipo: “pecador-inconsciente-sai-de-casa-um-dia; culto-com-louvorzão; pregação-emocional; apelo-pelo-amor-de-Deus-alguém-aqui-aceita-Jesus!; levanta-a-mão-visitante!; olha-ele-igreja!; palmas-glória-a-Deus!; oração-perdoa-ele!; ele-está-salvo!; pecador-remido-em-casa”.

Pelo contrário. Eu levei anos observando, questionando e refletindo. Mas lembro que, na minha inocência, eu achava que levantar a mão e ir à frente numa igreja para dizer que "aceitei Jesus" era a segunda parte da burocracia necessária para a salvação que eu achava que havia em Romanos 10.9-10:

"Se você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo. Pois com o coração se crê para justiça, e com a boca se confessa para salvação."

Tanto que cheguei até a combinar com amigos crentes para ir aceitar Jesus na igreja deles, muito embora até hoje eu não saiba se a primeira parte (crer) ocorreu antes ou após o evento (mas meu palpite é que tenha sido bem antes, né?). De uma coisa eu sou bem certo, apesar das minhas mancadas e pecados, eu sou cristão.

Alguns pensam que a conversão precisa ser feita num templo só porque aparentemente a maioria das conversões se dá em cultos públicos. Mas não podemos conhecer corações de pessoas só porque elas vão à frente, dão testemunho, se batizam ou atendem a um apelo evangelístico. E isto justamente porque a conversão é um ato invisível: é uma ação vivificadora do Espírito Santo na vida de uma pessoa que estava morta em delitos e pecados, e que estava em franca rebelião contra Deus e sob a ira d'Ele*

"Mas quando se manifestaram a bondade e o amor pelos homens da parte de Deus, nosso Salvador, não por causa de atos de justiça por nós praticados, mas devido à sua misericórdia, ele nos salvou pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós generosamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador." Tito 3.4-6

É difícil para algumas pessoas se lembrarem de quando e como isso aconteceu porque muitas vezes a conversão, como no meu caso, é um processo difícil de pontuar no tempo. Uma progressiva mudança de mente, uma crescente atração por Deus, um desapego de tudo por algo maior e inexplicável. Como podemos sondar o Espírito de Deus e medir seus misteriosos caminhos em nós?

O fato é que estávamos mortos, e Deus nos fez acordar para a vida. Simples. De repente começamos a produzir frutos divinos, mas não sabemos quando eles nasceram ou amadureceram pela primeira vez. Assim, não importa quando nascemos de novo, pois, sendo a salvação eterna, sua data se perderá no tempo. Que bom que muitas pessoas conseguem se lembrar do dia em que ouviram a voz do Mestre pela primeira vez! Eu não. O que sei, com toda certeza, é que eu estava morto, e Sua voz me trouxe vida; e que eu já não consigo mais imaginar a vida sem essa voz tão doce.

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* Outros detalhes sobre isso podem ser encontrados na Epístola aos Efésios, capítulo 2.

12 de novembro de 2013

Adeus, baleia!

"O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende." - Isaías 1.3

Recentemente o ENEM (como sempre!) foi foco das notícias na internet. Esse exame nacional que objetiva avaliar o nível do estudante de ensino médio no Brasil, pode ser aproveitado como complemento ou substituto do vestibular para ingresso nas universidades brasileiras. Por isso, muitos correm a prestá-lo, na esperança de realizar seu sonho de atingir o diploma de nível superior de um bom curso universitário.

Este ano, muitas pessoas deram a prova de sua incapacidade e imaturidade no ENEM, infringindo normas simples previstas no edital, de maneira extremamente digna de pena, como, por exemplo, por postar fotos da prova durante a realização delas nas redes sociais, portar e utilizar equipamentos eletrônicos não permitidos e, até mesmo, deixar o local de prova antes do horário permitido: demonstrações da falta de mera leitura e do conhecimento mínimo das regras da avaliação.

Na minha adolescência, quando me converti, muitas pessoas que se chatearam com esse fato tentaram me convencer do meu "erro" de me tornar "crente". Até mesmo alguns "ex-crentes" me vieram tentar convencer de que sua igreja atual era "a certa", apresentando-me vários argumentos tortos. Na época, eu simplesmente ouvia os argumentos, não discutia. Minha conversão era a Cristo, não a uma igreja ou religião, como muitos pensavam.

Como eu podia discutir com pessoas que supostamente entendiam a Bíblia mais do que eu se eu não a conhecia por inteiro? O mais prudente nesses casos é calar, ao invés de dizer besteiras. Calado, você até se passa por sábio, mas, abrindo a boca para falar do que não sabe... Mas uma testemunha de Jesus não pode viver calada, porque até a sua vida fala.

Bom, eu precisava mesmo, como crente, ler a Bíblia. Já que digo que minha fé e minha vida devem se basear nela, como posso ignorar seu fundamento? Ser crente e não conhecer a palavra de Deus é como construir e morar numa casa sem alicerce, ignorar que um prédio não pode ser construído de cima para baixo ou sobre um vácuo. Isso explica o fato de existirem vários ex-membros de igrejas evangélicas, que vez por outra encontramos, dando testemunhos que apenas demonstram que tudo em sua vida foi fruto de má-compreensão, insegurança, erro, engano, emocionalismo e falta de compromisso com Deus.

Podem reparar que a maior parte deles sublinha em seus testemunhos, mesmo que implicitamente, que mudaram de igreja, que encontraram a igreja certa, a religião certa etc. Nunca Deus ou Jesus Cristo é o centro do testemunho, mas uma trivialidade qualquer que glorifica não a Deus, mas ao homem ou às instituições deste.

Bom, a vida não é um ENEM, mas é cheia de questionamentos. E, voltando ao início, mesmo depois de algum tempo de convertido, eu percebia que minha necessidade de conhecer as Escrituras era real. Mas sempre dava uma desculpa para não ler a Bíblia toda (e na época, tudo que eu tinha era um Novo Testamento daqueles distribuídos nas escolas pelos Gideões)... Até que um dia algo engraçado fez dedicar-me à leitura...

Estava na sala de estar do dentista, esperando minha vez de ser atendido, e vi uma menininha alegre brincando com seu pai. Ouvi quando mencionaram a história de Jonas e a "baleia" e pensei: "que vergonha, até essa menininha sabe quem são Jonas e a baleia... e eu nem sei quem são! Preciso criar vergonha na cara e começar a ler a Bíblia de vez".

Chegando em casa, comecei. Levei três dias para ler Gênesis, na bibliazona católica que temos em casa. Em pouco mais de cinco meses, li a Bíblia inteira (nesse ínterim, consegui comprar minha primeira Bíblia, e terminei a leitura nela!).

O fato é que todos nós somos desafiados pelos "ENEMs" da vida diariamente. Temos de nos posicionar e de opinar, defendendo a palavra de Deus diante de uma cultura cada vez mais distante e contrária ao cristianismo. Temos de responder aos questionamentos de outras religiões e filosofias, que buscam substituir a necessidade da fé exclusivamente em Jesus Cristo para chegar-se a Deus por qualquer outra coisa que diminua ou exclua a soberania e singularidade dele nesse assunto. A falta desse conhecimento é a grande causa da fraqueza da igreja atual, fazendo com que muitos se enganem quanto à fé ou se desviem dela. 

Tenho visto que muitos dos "ex-crentes" que conversaram comigo sobre a razão de estarem "desviados" ou de terem deixado a fé não entenderam o evangelho com clareza, mesmo tendo ocupado postos de ensino nas igrejas ou agremiações onde estiveram. Outros simplesmente decidiram ceder a seus impulsos e vontades e deram as costas para o discipulado de Cristo conscientemente. O assunto é sério. Não basta apenas ler a Bíblia, lógico. Deve-se estudá-la e praticá-la - coisas que muitos não estão dispostos a fazer.

Depois de ler a Bíblia e estudá-la, tendo segurança para falar, vi que muitos argumentos que outras pessoas puseram diante de mim contra ser "crente" não passavam de tolices e preconceitos vindos de pessoas que se banharam de religião: palavreado, práticas, emoções e sentimentalismo, mas que não nasceram de novo. Viviam em volta de Cristo, mas Cristo não vivia nelas. E isso ficou bem mais claro para mim.

Hoje, sei que a "baleia" não era mesmo uma baleia... Mas Jesus é o mesmo, ontem, hoje e sempre. E sua palavra é eterna, um convite aberto ao amor de Deus, que fica mais brilhante a cada dia. Saia da baleia e leia a Bíblia você também!


"...as ovelhas ouvem a sua voz [o pastor, simbolizando Jesus]. Ele chama as suas ovelhas pelo nome e as leva para fora. Depois de conduzir para fora todas as suas ovelhas, vai adiante delas, e estas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas nunca seguirão um estranho; na verdade, fugirão dele, porque não reconhecem a voz de estranhos" - João 10:3-5

3 de novembro de 2012

Pedras falando e pedras rolando


"Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome. Nesse tempo muitos serão escandalizados, e trair-se-ão uns aos outros, e uns aos outros se odiarão. E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos. E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará." 
Mateus 24:9-12
"Tenho-vos dito estas coisas para que vos não escandalizeis. Expulsar-vos-ão das sinagogas; vem mesmo a hora em que qualquer que vos matar cuidará fazer um serviço a Deus. E isto vos farão, porque não conheceram ao Pai nem a mim. Mas tenho-vos dito isto, a fim de que, quando chegar aquela hora, vos lembreis de que já vo-lo tinha dito. E eu não vos disse isto desde o princípio, porque estava convosco."  
João 16:1-4
"E disseram-lhe [a Jesus] de entre a multidão alguns dos fariseus: Mestre, repreende os teus discípulos. E, respondendo ele, disse-lhes: Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão."
Lucas 19:39-40 


Os brasileiros estão cultivando o evangelho que merecem. Por isso não vemos conversões legítimas e impactantes proporcionais à taxa de crescimento dos evangélicos. Quando os ateus nos criticam dizendo que se tivermos um governo evangélico teremos uma ditadura sem liberdades, eu devo concordar. Nosso problema é tão sério que até as pedras estão clamando; porque, quando os de dentro falam, logo o povo gado evangélico os trata da mesma forma que o povo de Israel, distante de Deus, tratava seus profetas: pedradas, ofensas, ameaças e [só falta isto:] morte. E isto não me surpreende nem um pouco, pois quem segue a Cristo deve saber que estar aqui por Jesus é estar aqui para isso.

26 de setembro de 2012

Já não se fazem mais profetas como antigamente


“Sim, estou contra os que profetizam sonhos falsos", declara o Senhor. "Eles os relatam e com as suas mentiras irresponsáveis desviam o meu povo. Eu não os enviei nem lhes autorizei; e eles não trazem benefício algum a este povo", declara o Senhor.” – Jeremias 23:32

Dia desses conversamos na escola dominical sobre os problemas que os “profetas” atuais causam no meio cristão, considerando que o uso desse termo, todo revestido de autoridade, encontra-se bastante desgastado entre os evangélicos, levando a equívocos e desvios doutrinários.

Profeta Jeremias, de Michelângelo
Para começar, precisamos conceituar o que seria um “profeta”. Basicamente existem dois tipos: aqueles a quem a vontade de Deus era revelada, que foram guiados a serem suas testemunhas junto ao povo de Israel, transmitindo-lhes revelações, que incluíam alertas, condenações, encorajamento e previsões de acontecimentos futuros, que foram registrados na Bíblia. Também existem os profetas encarregados de falar em nome de Deus, como meras testemunhas, proclamadores da palavra que já foi revelada antes, sem nenhuma previsão futurista. Nesta acepção, todo crente nascido de novo é um “profeta”, pois deve testemunhar de Jesus, fazendo discípulos e transmitindo-lhes seus ensinos.

Hoje em dia, é comum demais falar-se em “profecias”, ainda que não haja nelas nada de relevante e verdadeiro a se comunicar. E, olhando de perto, várias delas falham em se ajustar aos padrões descritos nas Escrituras, em matéria de veracidade, doutrina e testemunho.

Na Bíblia, percebemos que os profetas nunca foram conhecidos ou julgados pelos bens materiais que possuíam. E, em geral, ao contrário dos muitos intitulados “profetas” de nossa época, que ostentam patrimônios bem superiores aos de seus correligionários, eram pessoas pobres, simples, trabalhadoras, que não detinham cargos elevados, eram submissos a lideranças, participavam ativamente dos eventos importantes do seu povo, não negociavam seus serviços, viviam em comunidades, alguns eram celibatários, não detinham legiões de admiradores e não se omitiam em condenar os erros cometidos por seus governantes – mesmo que isso pudesse lhes custar os bens, a reputação ou a vida, como fez Natã, Samuel e João Batista. Contrariamente, a geração “profética” de hoje usa seus talentos e oportunidades junto às autoridades do país, com as quais flertam, imiscuindo-se na política e no poder estatal, bajulando detentores de cargos públicos e pessoas famosas de seu interesse, com o intuito de ganhar reconhecimentos, honrarias ou algum lucro, como fez Geazi (2 Reis 5).

A coragem dos profetas de antigamente era tal que chegavam a encarar sua missão mesmo sabendo que ela não traria conversões em massa, como no caso de Jeremias, que foi testemunha em franca oposição ao povo ímpio de seu tempo, sendo alertado por Deus que este não iria se converter (Jeremias 7.27). Sendo assim, não podemos esperar que alguém fosse profeta por vontade própria ou, ainda, que fosse auferir lucros com sua atividade, quando esta era uma atividade que trazia antipatia da sociedade ao redor. O profeta exercia um ministério legítimo, decorrente da autoridade de Deus, da obediência à sua palavra, com o dever de proclamar a verdade desprezada pelas massas, tomando posição e sabendo que nem sempre trará números vistosos de pessoas aos apriscos celestiais.

Houve tempos em que Deus não levantou profetas, como antes do início do ministério de Samuel, onde a profecia era rara (1 Sm 3.1); e no período intertestamentário, conhecido como o período do “silêncio profético”, que se estendeu até a vinda de João Batista. Estes porta-vozes dos oráculos divinos sempre traziam consigo uma mensagem importante da parte de Deus para todo o povo, uma revelação da vontade divina.

Nem todos os profetas operavam milagres; João Batista, por exemplo, não realizou nenhum, mas foi considerado o maior dentre os nascidos de mulher, nas palavras de Jesus Cristo (Lucas 7.28). Daí percebemos que tampouco os milagres são fator determinante da importância de seu ofício.

Ninguém precisa vasculhar muito os vídeos postados na internet para comprovar que muitos “ministros” se utilizam de alegadas “revelações” dadas em causa própria, a fim de se defender de críticas fundadas aos seus “ministérios”—principalmente após condutas suas que escandalizam setores do povo de Deus que realmente se preocupam com o bom testemunho dos de fora, e com a imagem do evangelho (e que geralmente são tachados discriminatoriamente de “religiosos”, como se ser religioso fosse uma coisa desabonadora ou vexatória). Não contemplo, no entanto, os profetas de Deus nas Escrituras lamuriando-se como crianças mimadas ou utilizando-se de revelações com fim lucrativo direto ou indireto. Parece-me claro que as revelações eram dadas no interesse de Deus ou de Seu povo, não no interesse exclusivo do próprio profeta.

Se era tão difícil se levantar um profeta entre o povo de Deus que recebesse um oráculo divino na época do Velho Testamento, levando em conta a necessidade (porque a Bíblia não estava pronta e não tinha o formato atual, portanto, a palavra de Deus não era tão acessível ao povo como hoje) – e, mesmo no Novo Testamento, não se vê muito falar em profetas como pessoas tão extraordinárias... Por que hoje, com o pleno acesso que temos às Escrituras, que contêm toda a revelação necessária para o conhecimento do evangelho, da vontade de Deus e de como viver uma vida piedosa, Deus estaria levantando profetas para fazer o que vemos hoje?

E a que me refiro quando digo “o que vemos hoje”? Creio que nunca antes o ego humano conseguiu parir um enxame dessa magnitude, com tantas pessoas que se acham importantíssimas e “profetas” (algumas talvez se achem até essenciais ou messiânicas); que alegam ser detentoras de “revelações”; muitas das quais, quando não são coisas reveladas há séculos nas Escrituras, tratam-se de coisas óbvias, desimportantes, patéticas e descabidas.

Engraçado que, ao contrário do que acontece hoje, os profetas das Escrituras, parece-me, não viviam profetizando e recebendo oráculos vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana, despejando verborragias divinas. É o caso, por exemplo, de Jeremias, Ezequiel, Isaías e Daniel, os quais até registravam a data de algumas revelações ou visões recebidas, tipo: “nos dias do rei fulano de tal”, “no sétimo mês do ano tal”, “no décimo-terceiro ano do reinado de beltrano”...

Há pretensos ministros hoje que se gabam de ter revelações enquanto tomam banho, lavam o cachorro, jogam o lixo fora, enquanto, sei lá, fazem as necessidades... dizem que o “Espírito Santo” vive cochichando no ouvido... quase de cinco em cinco minutos! É tanta revelação se atropelando e caindo por cima uma das outras, que é quase como se tais profetas chegassem ao cúmulo de se ter de organizar os momentos “revelacionais” por ordem de chegada: “Dona Visão, aguarde aí só um minutinho na linha 2, é que estou ocupado recebendo a Senhora Revelação agora. Por gentileza, peço que aguarde, pois seu contato é muito importante para todos nós; e, em seguida, queira, por favor, avaliar a qualidade do nosso atendimento...”. Eu imagino a abundante maturidade de alguém que depende de revelações a cada minuto para poder viver a vida... E para guiar outras vidas?

E o pior é que os conteúdos são tão superficiais e sem substância para a vida prática da igreja cristã, do país... que eu não consigo associar tais coisas com pessoas sérias (imagine eu acreditar que vêm de Deus!). Essas “pérolas” oscilam entre coisas como “com que bota eu vou”, “que demônio vamos expulsar”, “onde a gente unge a calçada”, coisas incompletas... Não raramente, além do ridículo, vêm as heresias e os escândalos causados, que dividem opiniões dentro da igreja desnecessariamente... E quem lucra com coisa assim?

Penso, ainda, que alguns ministros evangélicos que alardeiam suas composições como “reveladas por Deus” pretendem, muitas vezes, criar certa aura de incontestabilidade, de inquestionabilidade, louvor que não é fruto de mérito, para evitar que suas canções, apresentações, letras, melodias ou ensinos, por vezes medíocres, sejam alvos de avaliações desfavoráveis por parte de quem encontre nelas algum desvio doutrinário, ou mesmo de quem não considere sua obra algo recomendável. Nesse caso, a alegada “inspiração divina” não passa de meio ardiloso para encobrir falhas e incompetência. Pois quem ousaria questionar uma coisa "vinda de Deus”? Na certa, a razão de quem segue estilo de vida assim se encontre no amor próprio, não na espiritualidade cristã; pois esta busca a sabedoria e a correção, a fim de alcançar a maturidade plena e a glória de Deus, encontrando no temor do Senhor o princípio da sabedoria.

Convém ressaltar, inclusive, que alguns defendem a autoridade de supostos profetas apenas pelo fato de que falam em nome de Deus. Mas este não é um critério suficiente. Deus, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, é claro em afirmar que as profecias devem ser provadas, oferecendo-nos alguns critérios; Jesus adverte que muitos virão em seu nome; Paulo diz que lobos vorazes sairiam do nosso meio (do meio da igreja). Logicamente um desses critérios de avaliação é o de que Deus não pode se contradizer. É um critério lógico. Ou Deus negaria a Si mesmo. Logo, é responsabilidade de todos nós conhecermos as Escrituras, que testemunham de Jesus e trazem as ferramentas necessárias para que sejamos obreiros perfeitos, aprovados por Deus, para que possamos julgar as profecias, obedecendo a Ele. (Também vale a pena ver alguns critérios para conferir a verdade de um profeta ou profecia em Deuteronômio caps. 18 e 13).

Algo que também precisa ser dito é que alguns crentes baseiam sua fé no princípio errôneo de que os fins justificam os meios. Ou seja: deu certo ou parece certo o que disse alguém, tal pessoa é, de fato, de Deus. Para exemplificar, lembro-me de que uma vez discutindo com um irmãozinho raivoso em uma comunidade no Orkut, ele me disse que apenas pessoas de Deus poderiam profetizar em nome dele. Mas ele nada disse depois que lhe mostrei que Balaão (que alude a um sinal do nascimento de Jesus, em Números 24.17) e Caifás (que profetizou a morte de Jesus pela nação dos judeus em João 11.49-51), os quais não eram pessoas que andavam segundo a vontade de Deus, profetizaram a respeito de planos d’Ele.

Algo que me assusta na avalanche de “profecias” que tenho visto é o excessivo otimismo que elas trazem e a ingenuidade com que contam para vingar. Sem contar a desconsideração pelos princípios mais basilares do evangelho, e a falta de resultados úteis e palpáveis também, como: 
  • as “profetadas” de várias celebridades gospel do fim do Carnaval (que, infelizmente, segue “bombando”); 
  • a veiculação de novelas gospel na TV (para entreter crentes empolgadinhos que pensam que as pessoas assistem a novelas para serem “evangelizadas”? Para massagear o ego dos crentes/denominações evangélicas, que podem se promover, vender sua marca institucional e lucrar com isso? Na maior parte do tempo a programação evangélica na TV tem sido vexatória, não mostrando de nada mais do que a mera exploração financeira de incautos.); 
  • oferecimento de mechas de cabelo como sacrifício pelos pecados, como se o sacrifício de Jesus na cruz não tivesse valido nada (e, não bastasse a bizarrice, de pecados de pessoas vivas e falecidas); 
  • a investida massiva da mídia pelos evangélicos (isso nem é profecia, é uma obviedade: se o número de evangélicos aumenta, a audiência segue, logo, seu tempo na TV acompanha o seu crescimento para poder atendê-los. E já faz tempo que existem horários comprados por igrejas na TV, que dão audiência. E alguém já contou quantas rádios evangélicas existem?); 
  • números exorbitantes de conversão a igrejas evangélicas por meio de... evangelização? Não, de “atos proféticos”! (“atos proféticos”, para quem não conhece o termo, é uma espécie de “simpatia”, “macumba gospel” – ver nota com algumas definições extraídas de um dicionário no final do texto – que, por mais que queiram definir com termos bíblicos e bonitinhos, não deixam de ser tentativas de influenciar Deus a mudar a realidade através de rituais simbólicos. Para acreditar nisso, você deve supor que Deus não acha suficiente que a gente ore e trabalhe para alcançar algo, que as pessoas se convertem pelo simples desempenho humano, que Deus é caprichoso, volúvel e influenciado a executar a própria vontade quando se praticam “atos proféticos”... Não vejo lógica alguma nisso hoje, pois torna o Deus soberano uma ferramenta eclesiástica. Já me mostraram supostos "exemplos bíblicos de atos proféticos", mas, ou eles são meras ocasiões em que alguém simplesmente obedece a uma ordem dada por Deus a fim de testemunhar simbolicamente algo que já está determinado para acontecer, ou outra coisa. Já disseram que a Santa Ceia é um exemplo de "ato profético", mas, na verdade, é uma "ordenança", um ritual; ela não transforma a realidade. Só seria "profética" no sentido de testemunhar a morte de Cristo; mas se fosse "profética" por ser assim, cultos, ordenanças, cantos, tudo viraria exemplo de "ato profético", difícil seria ter algo que não fosse um...); 
  • crentes urinando em postes e lugares estratégicos, como fazem os cachorros, ou ungindo-os, a fim de “demarcar território para Deus”; 
  • mudança dos elementos da ceia (que foram instituídos pelo próprio Cristo, e constam na Bíblia);
  • expulsão de entidades do candomblé de existência duvidosa (digo isto porque acredito que nem os próprios adeptos desta ou de outras religiões assemelhadas devam crer na existência de “entidades” que os crentes inventam e lhes atribuem, para poder anunciar que vão exorcizá-las)...

Certamente haverá leitores ao ler esse texto e vão pensar “nossa, os crentes hoje estão assim?!” Não, caro leitor, claro que não! Acontece coisa assim no meio dos evangélicos, sim; porém, são eventos bastante isolados, que ganham repercussão na mídia por serem polêmicos e sensacionalistas. Nada dessas esquisitices tem a ver com o evangelho. Mesmo que usem termos e roupagem evangélica; mesmo que venham de pessoas que se digam evangélicas; mesmo que aconteça em templos e eventos que se digam evangélicos. Evangélico de verdade é quem vive o que Jesus ensinou, não todo aquele que sai dizendo que é; pois, quem tem boca diz o que quer. Estão aí os falsos profetas que não me deixam mentir. E os verdadeiros também.

Sim, retornando à pergunta que fiz anteriormente: “por que hoje, com o pleno acesso que temos às Escrituras, que contêm toda a revelação necessária para o conhecimento do evangelho, da vontade de Deus e de como viver uma vida piedosa, Deus estaria levantando profetas para fazer o que vemos hoje?” Deixo-lhes com duas passagens bíblicas:


“Em primeiro lugar, ouço que, quando vocês se reúnem como igreja, há divisões entre vocês, e até certo ponto eu o creio. Pois é necessário que haja divergências entre vocês, para que sejam conhecidos quais dentre vocês são aprovados.” – 1 Coríntios 11:18-19 NVI

“Se aparecer entre vocês um profeta ou alguém que faz predições por meio de sonhos e lhes anunciar um sinal miraculoso ou um prodígio, e se o sinal ou prodígio de que ele falou acontecer, e ele disser: "Vamos seguir outros deuses que vocês não conhecem e vamos adorá-los", não dêem ouvidos às palavras daquele profeta ou sonhador. O Senhor, o seu Deus, está pondo vocês à prova para ver se o amam de todo o coração e de toda a alma.” – Deuteronômio 13:1-3 NVI
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Extraídos do dicionário Míni HOUAISS:

Simpatia - B. prática supersticiosa us. como proteção ou para conseguir algo.

Magia - arte, ciência ou prática de produzir, por meios ocultos, fenômenos inexplicáveis ou que pareçam inexplicáveis; 2. p. ext. o efeito dessa arte ou prática;

Trabalho - 6. REL. em cultos afro-brasileiros, prática ritual que visa obter auxílio, proteção ou conquista de algum desejo.

27 de outubro de 2011

Sorriso amarelo


"Tendo, pois, tal esperança, usamos de muita ousadia no falar." - 2 Coríntios 3:12

Às vezes falamos do céu e de Jesus para nossos amigos, familiares ou estranhos como se fossem algo excelente. De fato são, claro. Mas se somos questionados sobre se toparíamos partir desta vida e estar lá agora mesmo, titubeamos e até dizemos - depois de um sorriso amarelo por não termos sido categóricos - que sim. Alguns de nós ainda somos capazes de argumentar sobre por que ainda temos de permanecer por aqui mais um pouquinho, para justificar nossa hesitação.

Com tamanha convicção para falar com os outros sobre nossa esperança, não admira que muitos por aí nem queiram mesmo pensar no céu como algo que se deva desejar urgentemente, nem com um relacionamento eterno com Deus como algo que se deva buscar agora. Será que não imprimimos nos outros a sensação de que isso é assunto para leito de morte ou pessoas muito idosas?

No fundo, muitas vezes julgamos nossa vida e as coisas que temos neste mundo como mais importantes que nossa pátria celestial e que a vontade de nosso Senhor, mesmo que não queiramos assumir. Somos craques em mentir para nós mesmos, para que não nos convençamos que não somos tão espirituais quanto deveríamos ser. Então não devemos nos espantar de que as pessoas ao nosso redor pensem da mesma forma que vivemos diante delas: que falar do céu é como falar do nosso caixão... provavelmente quem vai escolhê-lo são os outros, porque já teremos "batido as botas"; ou... não devemos dar tanta atenção a isto, já que vai acontecer daqui há um "zilhão" de anos, e nós ainda não estamos velhos.

Os melhores vendedores que conheço apesentam muito bem seus produtos e a si mesmos, acreditam na sua empresa e nos produtos que recomendam, os quais, obviamente, utilizam, e zelam pela própria credibilidade e pelo seu encargo. Ou fingem descaradamente. Como esta última não é uma opção para cristãos, creio que fazemos todo o bem em anunciar as boas novas com entusiasmo, convicção, sinceridade, preparo e zelo, da mesma forma como devemos vivenciá-lo em nosso dia a dia.

Como conseguiremos conquistar as pessoas para Cristo e levá-las a reconhecer que, de fato, temos algo tão bom para oferecer-lhes, se não parecemos ter nossa vida alicerçada na esperança do evangelho como se ele fosse o nosso próprio alimento ou o coração que impulsiona os nossos corpos? 


"Vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória." - Colossenses 3:1-4

20 de outubro de 2011

Jacob Riis, uma luz na fotografia


"Vocês são a luz do mundo... Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, 
para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, 
que está nos céus". Mateus 5:14a, 16

Neste semestre da faculdade, estudando vários fotojornalistas famosos, deparei-me com um, em especial, que me chamou a atenção: chama-se Jacob Riis (1849 – 1914), um fotógrafo cristão que deixou sua fé influenciar positivamente seu trabalho. Ele ficou marcado na história como um dos fundadores do fotojornalismo e de toda uma escola de profissionais empenhados em usar a fotografia para intervir sobre a realidade social. Além disso, é conhecido por ser o pioneiro no uso do flash na fotografia.

Riis e o Jornalismo

“...pois o fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade.” Efésios 5:9b

Nascido na Dinamarca, numa família grande e pobre, Jacob Riis desde cedo foi influenciado por seu pai a ler e aprender inglês, esperando que tivesse uma carreira literária. Mas ele queria, na verdade, ser um carpinteiro e emigrou para a América em 1870, aos 21 anos, com esse objetivo. Contudo, para a maioria dos imigrantes, as coisas não eram tão fáceis, e Riis sentiu na própria pele a pobreza e o preconceito. Somente em 1873 conseguiu um emprego razoável, numa agência de notícias, a New York News Association. Depois disso ainda trabalhou brevemente como editor em dois pequenos jornais da cidade, e, quatro anos depois, tornou-se repórter policial do New York Tribune.

Durante esse tempo como repórter policial, Riis trabalhou nas favelas mais violentas e pobres da cidade e pôde escrever relatos de primeira mão das indignidades e injustiças na vida dos imigrantes. Através de suas próprias experiências, ele decidiu fazer a diferença. Com seu estilo de escrita melodramático, ele tornou-se um dos primeiros jornalistas reformistas, que não apenas registravam os acontecimentos, mas usavam seu trabalho como ferramenta de mudança social.

Riis e a Fotografia

“Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, 
porque são feitas em Deus.” João 3:21

“Uma imagem vale mais do que mil palavras.” Este ditado popular começou a fazer sentido na vida de Jacob Riis. Há algum tempo ele vinha procurando um meio de mostrar a miséria mais vividamente, principalmente depois de ter sido acusado de exagerar na sua descrição. Foi quando recorreu à fotografia, uma arma de persuasão que superava o poder das palavras.

Autodidata, Riis documentou, durante cerca de dez anos, favelas, guetos de imigrantes miseráveis em condições de semi-escravidão e sem o mínimo de condições sanitárias. Suas fotos, chocantes para a época, ajudaram a mobilizar a opinião pública em favor de leis relativas à educação, trabalho e moradia. Em 1884, por exemplo, conseguiu que fosse formada uma comissão para tratar dos problemas de habitação, a Tenement House Commission.

Riis e o flash fotográfico

“Mas, tudo o que é exposto pela luz torna-se visível, 
pois a luz torna visíveis todas as coisas.” Efésios 5:13

Como os equipamentos eram caros, pesados e frágeis, nenhum fotógrafo se aventurava pelas regiões mais pobres da cidade, e durante algum tempo a fotografia permaneceu como um brinquedo das classes abastadas. Além disso, naquela época a fotografia era inútil para registrar algo que estivesse acontecendo à noite ou num lugar escuro. Jacob Riis achou que estava na hora de mudar isto. Ele foi o primeiro fotógrafo a usar o flash, e, assim, pôde registrar a realidade dos bairros pobres de Nova York, sempre envoltos em trevas e sombras.

Durante o início de 1887, no entanto, Jacob Riis ficou surpreso ao ler sobre uma invenção dos alemães Adolf Miethe e Johannes Gaedicke: uma mistura de magnésio com clorato de potássio e sulfeto de antimônio, formando um pó que, disparado por um dispositivo, a “panela de flash”, iluminava suficientemente a cena. Mas o equipamento do flash era perigoso e tinha que ser manuseado com cuidado. São numerosas as histórias de horror sobre o pó de magnésio, que poderia causar de problemas respiratórios a queimaduras graves. Além disso, o flash era ofuscante e produzia uma torrente de fumaça, incomodando a todos no ambiente.

Riis, uma luz no mundo

“Eu fiz de você luz para os gentios, para que você leve a salvação até aos confins da terra.” 
Atos 13:47b

Jacob Riis foi um homem enérgico, que combinava em sua pessoa o caráter de diácono da igreja de Long Island e de repórter policial em Nova York. Como professor da escola dominical, ele incentivava seus alunos a se envolverem em atividades comunitárias que auxiliassem na redução dos problemas enfrentados pelos trabalhadores pobres e imigrantes de Nova York. Foi dessa forma que ele acabou usando a fotografia para documentar as condições de vida nos bairros mais pobres da cidade.

Riis acumulou muitas fotografias, mas não conseguiu vendê-las para revistas ilustradas. Por isso ele começou a divulgar seu trabalho nas igrejas, inclusive na sua própria. Dessa forma, aumentou consideravelmente o número de pessoas que tiveram contato com suas idéias, e também pôde conhecer outras que tinham o poder de mudar aquela situação. Uma dessas pessoas foi o ex-presidente Theodore Roosevelt, que ficou tão profundamente afetado pelo senso de justiça de Jacob depois de ler sobre as suas exposições, que procurou conhecê-lo, nascendo aí uma amizade para o resto da vida. Mais tarde, comentando sobre Riis, Roosevelt disse: “eu sou tentado a chamá-lo de ‘o melhor americano que eu já conheci’, embora ele já fosse um jovem quando ele veio da Dinamarca para cá”.

Embora suas imagens tenham sido publicadas como gravuras, elas foram capazes de causar um forte impacto sobre a opinião pública. Seu primeiro livro,How the Other Half Lives (Como a outra metade vive), foi publicado em 1890, sendo até hoje um documento comovente do sofrimento humano. Como a pobreza nunca acabou, também o trabalho de Riis nunca teve pausa. Ele seguiu fotografando e escrevendo sempre sobre o mesmo assunto, até morrer aos 65 anos vítima de um ataque cardíaco. Deixou mais de uma dúzia de livros publicados e o seu nome na história da fotografia.

Riis e a Luz do mundo

"Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, nunca andará em trevas, 
mas terá a luz da vida". João 8:12

Jacob Riis foi um exemplo de ser humano, de profissional e de cristão. Ele mostrou na prática que a fé não é só coisa de igreja, mas que podemos (e devemos) aplicá-la ao nosso estilo de vida, fazendo tudo para a glória de Deus (1 Co 10:31). Também mostrou que a fé sem obras é morta (Tiago 2:17) e que o amor ao próximo é a marca do crente (1 João 4:8).

Sua vida foi como o flash que inaugurou: uma pequena luz frágil e defeituosa, mas que, sendo manuseada pelo Supremo Fotógrafo (Deus), foi capaz de iluminar o coração de muitos homens, refletindo um pouco da Sua grandeza, bondade e amor. Que o exemplo desse servo de Deus nos incentive a viver como verdadeiras luzes nesse mundo.

“Porque outrora vocês eram trevas,
mas agora são luz no Senhor.
Vivam como filhos da luz.” - Efésios 5:8

Por: Débora Silva Costa
Publicado no Fé & Razão

13 de setembro de 2011

Como Evangelizar Evangélicos

Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!  - Mateus 7.22-23

O meio evangélico é um dos campos missionários mais vastos do nosso país. Alguém duvida? Então fique atento ao modo de pensar e viver dos milhões de “crentes” que andam por aí e ficará surpreso. A maior parte dessa gente não demonstra nenhuma transformação de caráter, nenhuma alteração em seus valores, nenhum compromisso com a santificação e nenhum grau de discernimento espiritual. Parece que a estratégia principal do diabo para destruir a obra de Deus nas últimas décadas deixou de ser debilitar igrejas verdadeiras com os atrativos da apostasia. Agora, ele cria igrejas falsas compostas por cadáveres espirituais apodrecidos com o objetivo de emporcalhar o santo nome de cristão diante do mundo.

Esse método tem dado certo. Com efeito, não é difícil encontrar “crentes” de todos os tipos. Há evangélicos que formam blocos de carnaval e mulheres “cristãs” que falam e se comportam como prostitutas desavergonhadas. Há ainda “pastores” gays casados entre si e missionários e evangelistas hábeis na “arte” do estelionato, além de uma massa enorme de gente de péssima qualidade moral que, às vezes, sai em passeata pela rua gritando o nome de Jesus com a mesma boca com que fala palavrões.

Isso mostra que, de fato, o meio evangélico é um vasto campo missionário. Crentes de verdade, pessoas que conheceram o real poder do evangelho de Cristo, devem testemunhar a esse povo acerca da graça salvadora de Deus, evitando acreditar na piada de que eles são irmãos na fé que precisam apenas de algumas correções. Não. O problema básico da maioria dos neo-evangélicos não é falta de doutrina, mas sim falta de novo nascimento, sendo dever do cristão genuíno apresentar-lhes o evangelho da cruz.

Como isso pode ser feito de forma inteligente, sem deixar que a discussão se perca em meio a opiniões religiosas sem importância? Bom, não acredito em métodos infalíveis do tipo “Doze passos para ganhar um evangélico para Cristo”. Como pastor reformado, penso que só o convencimento do Espírito Santo pode conduzir alguém aos pés da cruz. Creio, contudo, que no trato com crentes falsos, o mensageiro do Senhor pode evitar perder tempo com tolices se agir da forma descrita a seguir.

Primeiro, pergunte se o “irmão” é crente. Não se assuste. A reação dele vai ser mais ou menos assim: “É claro que sou! Eu já não lhe falei que faço parte da Comunidade Evangélica Fogo da Sarça – Sede Mundial?” É nesse ponto que você vai fazer a pergunta fatal. Diga-lhe mais ou menos o seguinte: “Ah, é verdade! Você havia dito... E como foi sua conversão?” Pronto. É aqui que tudo desaba. O neo-evangélico não sabe o que é conversão. Ele vai ficar confuso, vai perguntar o que você quis dizer com essa pergunta, vai contar como foi batizado, como Jesus curou a dor que ele tinha no braço, como o pastor profetizou que ele ia achar emprego, enfim, vai dizer uma tonelada de sandices.

Então você deverá responder: “Amigo, eu tenho certeza de que todos esses episódios foram importantes para você, mas eu perguntei outra coisa. Eu perguntei quando foi que você, após ouvir ou ler a Palavra de Deus, descobriu apavorado que era um pecador perdido, separado da glória de Deus e caminhando para a perdição eterna; quando foi que, ouvindo o Evangelho, você aprendeu que Cristo veio a este mundo como substituto perfeito, a fim de sofrer a punição pelo nosso pecado; quando você entendeu o sentido de sua morte e ressurreição e quando, enfim, com essas informações em mente, você se lançou humilhado aos pés da cruz, dizendo: “Senhor, concede-me os benefícios da tua obra redentora. Lava-me, purifica-me, perdoa-me, salva-me. Eu te recebo, pela fé, como Deus e Salvador.’ Quando foi que isso aconteceu em sua vida?”

Não estranhe. O “irmão” vai olhar para você como se estivesse diante de um ET falando mandarim. Tenha, então, compaixão dele e, pacientemente, passe a explicar-lhe todas as coisas que disse.

Bom, espero que essas “dicas” ajudem. Ainda mais considerando que temos evangélicos incrédulos por toda parte, “revelando” que há muito trabalho a fazer. Realmente temos de aceitar esse fato: o nosso quintal também está branco para a ceifa.

Soli Deo gloria!

Por: Pr. Marcos Granconato

4 de junho de 2011

Dos sonsos, brincalhões, mais-que-perfeitos, esquecidos e do tubinho de corretivo


"Não me arrependo de nada." -- respondeu certa celebridade, em entrevista a um programa de TV sensacionalista, ao ser perguntada se acaso se arrependia de algo em sua vida. Talvez eu não tivesse me importado tanto se a entrevistada não apregoasse ser "evangélica" e não tivesse uma vida artística indecente e cercada por polêmicas desde antes de sua "conversão". A inquietação que surgiu na hora me trouxe várias perguntas: 
  • Que mensagem alguém assim estaria transmitindo? 
  • Que imagem do evangelho um indivíduo não evangélico teria ao ver esta entrevista? 
  • O que levaria uma pessoa que se diz "evangélica" a afirmar que não se arrepende de nada em sua vida? 
  • Será que tal pessoa realmente entendeu as boas-novas (que devemos nos arrepender de nossos pecados e crer em Jesus Cristo para sermos perdoados por Deus - Atos 3.19; 4.12) e teve um encontro real com Jesus? 
  • Saberia ela o que é ser amada, perdoada e recebida de braços abertos por um Deus justo, santo e perfeito? 
  • Conheceria o significado da palavra graça (favor de Deus)?

Na certa, ninguém afirmaria "eu sou perfeito" ou "eu nunca erro"... seria absurdo. Mas se dizemos que não pecamos e que não temos de que nos arrepender, fazemos de nós mesmos mentirosos e incoerentes (1 João 1.6-8), pois é como se disséssemos que estamos em pé de igualdade com Deus em sua perfeição e santidade e que nada devemos a Ele.

Ao falarmos de conduta cristã, não devemos tomar como padrão a opinião pública ou o politicamente correto, mas a palavra de Deus. E esta nos diz que todos falhamos e fomos reprovados aos olhos de Deus, e que somos desesperadamente carentes da redenção e do perdão divinos, que se encontram somente por meio de Jesus Cristo (Romanos 3.10,12,23-24).

Creio que seria fácil condenarmos imediatamente alguém que segue um estilo de vida indecente, pecaminoso e cheio de vicios, pois facilmente nos veríamos como pessoas não tão ruins apenas por não comungarmos especificamente dos mesmos erros. Mas Jesus não pensa da mesma forma: o resumo de sua mensagem a todos é: "O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos, e crede no evangelho" (Marcos 1.15; veja também Lucas 13.1-3). Porque todos pecamos, e apenas um pecado é suficiente para condenar-nos diante de Deus (Romanos 3.10, Tiago 2.10).

Assim, para chegarmos a Ele e obtermos seu perdão, devemos deixar nossos pecados. E, se deixamos nossos pecados um dia, crendo que eles foram pagos por Jesus, e que, agora, libertos deste peso, somos livres para vivermos para Deus, por que diríamos depois que não nos arrependemos de nada? Bizarro!

Nosso orgulho muitas vezes faz com que, mesmo tendo sido regenerados, em alguns momentos de nossa existência, façamos pouco caso de nossos pecados, como se eles não tivessem importância. Mas foi precisamente por causa deles que Jesus derramou sua vida na cruz, tornando-se o sacrifício perfeito que pagou a pena que merecíamos por cometê-los (Romanos 5.6-8).

O pecado habitual nos torna insensíveis e leva a uma certa "amnésia" em relação ao primeiro amor entre nós e Deus. Precisamos estar atentos para isso, a fim de evitarmos que Ele tenha que chamar nossa atenção de forma mais enérgica. Porque Deus castiga aos filhos que ama, e tudo fará a fim de que possamos andar em comunhão e santificação junto de Si (Apocalipse 2.5).

Jesus ordena urgentemente que nos arrependamos. E não podemos nos valer de pretextos e nem nos deixar iludir por quem transmite um evangelho diferente, seja com suas palavras ou com seu exemplo (Gálatas 1.8-9). Como podemos menosprezar o arrependimento, nós que passamos por ele quando conhecemos o amor do Mestre outrora? Como podemos negar nossa fé assim? Não importa o que digam por aí, a Bíblia é muito clara em afirmar que sem santidade ninguém verá a Deus, e santidade não pode haver onde o pecado se torna constante e subestimado (Hebreus 12:14).

Uma vez brinquei com uma colega de trabalho, a qual me perguntou se eu tinha um tubinho de corretivo para emprestá-la, porque ela tinha errado escrevendo de caneta. Eu lhe respondi: "Não, não tenho. Corretivo é para quem erra." -- Brinquei, claro. E nós rimos muito. Mas tem gente por aí que fala isso sério!

12 de março de 2011

Mediocridade, uma conveniência evangélica

Estava pensando hoje ao acordar como os evangélicos pensam pequeno. Acredito que o pensamento medíocre seja um dom altamente desenvolvido em nosso meio, inconscientemente, mas não um dom vindo da parte de Deus, visto que deixa de lado a sabedoria e, muitas vezes, o temor d’Ele.

Lembrava-me de como não temos visão para movimentarmos mundos e fundos para erguer um orçamento de mais de um milhão de reais porque “Mr. Sicrano Máximus”, grande pastor conferencista de televisão, queria fazer uma apresentação de dois dias num megapalco, em uma grande cidade brasileira, a pretexto de pregar o evangelho. Penso o que esta mesma quantia poderia fazer a curto, médio e longo prazo se distribuída entre vários missionários que estão passando dificuldade na África e em outros países da América do Sul, enviados por igrejas realmente interessadas em missões, principalmente levando-se em conta que, em muitos desses lugares, o câmbio faria o dinheiro render ainda mais.

Às vezes concentramos todo o esforço num megashow de dois dias, interessados em que muitas mãos sejam levantadas e contadas, e que a cifra dessas “conversões” seja alta o bastante para nos fornecer um atestado de espiritualidade e serviço cristão para que os críticos possam ver, uma estatística interessante para que os fãs possam se gloriar e para que os colaboradores não se desanimem.

Não nos ocorre que aquelas pessoas depois de levantar as mãos, impelidas por emoção, depois de uma apresentação onde se fez de tudo para que elas chorassem e deixassem a razão de lado para “aceitar Jesus”, vão voltar a pensar uma segunda vez, parar de chorar e, possivelmente, não ter impacto algum. Não nos importa que elas não pensem no que vão ter que renunciar ou sofrer para seguir o mestre, nem que calculem o preço de deixar tudo para não ter que desistir no meio do caminho (Lucas 14-26-33); tampoco queremos saber quem irá lhes ensinar a ser um discípulo, depois da queda dos confetes, transmitindo-lhes tudo o que ele havia ensinado.

Em se tratando de coisas assim, quanto menos se pensa, melhor para quem lucra.

O show terminou. Já temos a estatística. Já temos um laurel. Por que achar que fazer missões é fazer discípulos (ensinando-os, batizando-os, ajudando-os a descobrir e desenvolver seus dons, oferecendo-lhes apoio em suas necessidades materiais e espirituais...), se eu posso [convenientemente] pensar que basta transmitir o “Plano de Salvação” e manda-lo embora com um sorriso no rosto e lágrimas nos olhos, abandonando o prospecto discípulo ao Deus dará?

Há alguns anos, vi uma cantora evangélica que, tendo em vista o anúncio de um iminente contrato dela com a Som Livre, atacou dizendo que os evangélicos invadiriam a mídia secular, que haveria novelas evangélicas (juro que quando vi o vídeo explodi em gargalhadas, imaginando a breguice que seria; porque evangélicos sempre gostam de fazer um "genérico santificado" para si das coisas que invejam do “mundo”, atestando contra si que este consegue fazer quase tudo com uma qualidade melhor, só que  irremediavelmente “mundano”, para que justifique fazer-se uma cópia barata gospel para os crentes). Obviamente os fãs colheram esta “pérola” como uma profecia de “cousas ocultas... mistérios...” vinda do Espírito Santo...

Entretanto, na época anterior à da “profetada”, Aline Barros já tinha contrato com a Som Livre e já tinha passado em vários programas de TV (inclusive na “Rede Esfera”); pastores e igrejas já tinham jornais, rádios, canais de televisão e horários adquiridos da grade de canais não-religiosos (nos quais alguns religiosos gospel já passavam mais tempo que gado no Canal do Boi ou propaganda da TekPix - virando o relógio, mas não o disco, quando o assunto é pedir mais e mais dinheiro). Se os católicos de sucesso vez por outra sempre passaram na mídia secular sem fazer alarde de pobre besta quando fica rico, lógico que os evangélicos já estavam a caminho inevitável disso, como o próprio cenário demonstrava em simples observação, pois se a população evangélica cresce... 

Profetas do óbvio são dispensáveis e não são profetas, mormente quando fingem ser. Não precisamos desses exemplares, mas, urgentemente, de babás.

O que me deixa triste é por que os evangélicos invejam tanto a fama e a oportunidade da mídia secular quando temos potencial para fazer muito melhor sem ela. O alcance que a mídia televisiva tem de público não é tanto quanto podemos atingir se apenas fizermos nosso papel, vivendo como servos de Cristo em nossa família, nosso local de trabalho, nossa vizinhança, no relacionamento com pessoas desconhecidas e nos campos missionários...

A televisão não tem o poder de fazer um amigo, de conhecê-lo profundamente e por anos, de compartilhar momentos bons, ruins e uma boa palavra, de cuidar ou de amar. A televisão não pode interagir, escutar seus problemas, trazer um bom conselho na hora em que você precisa, ajudar-lhe com suas necessidades prementes, nem mostrar-lhe, na prática, um pouco de Deus.

Eu questiono seriamente esse querer demais o que o mundo pode dar, quando Jesus recusou as tentações de autossuficiência, fama, poder, riqueza e glória deste mundo que Satanás lhe fez. Para quê eventos públicos caríssimos, de questionáveis resultados espirituais, e o desespero por utilizar-se a ferro e fogo da mídia secular, que com ela traz todo um pacote contratual que limitaria nossa liberdade cristã de pregar o evangelho como ele de fato é, exigente  e exclusivista?

De acordo com Mateus 28.19-20, temos a missão de fazer “discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que eu [Jesus] vos tenho mandado.”

Mas parece que estamos apenas torcendo para que meia-dúzia de ídolos gospel, a quem delegamos nosso papel de louvar, engrandecer a Deus e fazer discípulos, o façam na caixinha boba de elétrons em nosso lugar, para que o mundo veja seus brilhos, polichinelos, mortais de costas, bordões toscos, quedas, gritarias, gemidos, urros, imitações de animais e holofotes seculares alugados, e, quiçá, no futuro, também, suas cafonas novelas farisaicas que mostrariam a vida “gospel” limitada a coisas imitadas do “mundo” - para mais desgraça e vergonha nossas.

É bem conveniente mesmo para nós, evangélicos, abdicar do nosso mister de discípulos e estabelecer e financiar “representantes” que o sejam em nosso lugar, mesmo que eles tenham modos excêntricos e questionáveis – basta que sejam a única casta do nosso meio que goze de “intocabilidade ungidástica”, do mesmo jeito que os deputados gozam de imunidade parlamentar, só que... “gospel”. 

Outro problema é que nossos “representantes” não fariam, como não fazem a contento, nosso papel de pregar a verdade como ela é: pois a verdade desagradaria uma parcela do mercado consumidor dos produtos deles, e eles deixariam de lucrar mais. Mas, não  precisaríamos nos apoquentar, nós (re)compensaríamos isto – como já o fazemos – enriquecendo-os pela compra de seus CDs, DVDs, livros, bonecos, chaveiros, cadernos, garrafinhas de água, relógios de pulso, camisetas, bonés...

Por Avelar Jr.

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