22 de dezembro de 2009

A Intimidade e o Sinal Amarelo - Parte 1

Conversando com uma amiga do Ceará que morou em outro estado por algum tempo, ela me contou que o jeito cearense de ser amigo lhe causou certos problemas por lá. “Cearense perde o amigo mas não perde a piada”, dizemos por aqui, e em alguns casos pode se tornar mais que um simples provérbio ilustrativo do nosso humor irreverente.


Não só aqui, mas, eu creio, em muitas partes do país, temos a mania de tratar as pessoas próximas "muito mal". Isso acontece em casa, na igreja, no trabalho e na roda de amigos. Certos adjetivos, invocações, expressões, brincadeiras e comportamentos que temos com pessoas íntimas não são recomendáveis para com todas as pessoas, e podem levar a mal-entendidos e causar sérios problemas.

Intimidades trazem certas “licenças”, licença para criticar, ofender e falar verdades de forma não utilizáveis com os de fora do grupo. E o hábito de tratar as pessoas assim, diariamente, amortece nossa sensibilidade quanto ao impacto de nosso comportamento. É aí que mora o perigo.

É comum vermos pessoas no âmbito familiar adocicando seu cotidiano com mimos como "Sai do meio, seu abestado! Não está vendo que eu quero passar, não?". Ou então um "Essa lesada aí fechou a porta do carro no dedo e ficou chorando! Hahahaha!"... Ou "Ei, palhaço, vem aqui ligeiro!"

Normalmente tais brincadeiras entre amigos, além de não constituírem ofensas ou mágoas, principalmente quando ditas e percebidas em tom de brincadeira, ainda são retribuídas carinhosamente, às vezes com risadas de cumplicidade.

Pois bem, aquela amiga de que falei disse a alguém por quem ela nutria muita consideração “Deixa de ser besta!” Resultado: ela foi mal-interpretada, a interlocutora ficou magoada e ela quedou muito triste com a situação (porque a pessoa não entendeu que ela não queria ofendê-la).

No trabalho, um colega que costumava trocar vocativos atípicos comigo (era costume do local) me chamou de “safado” na frente de uma funcionária novata, e ela se espantou (a gente se tratava por “safado”). Ela reagiu bruscamente, afastando-se com a mão no peito e cara de choque, como se pensasse que ali começaria uma briga entre nós. Quando ela viu que percebemos a reação dela, e que era brincadeira nossa, todos caímos na gargalhada. Nem sempre você tem licença de ser amigo demais na frente dos outros – por mais que seja – e foi até bom que isso acontecesse para aprendermos uma lição e termos mais cuidado com os tratamentos.

Entre amigos também existem as gírias do grupo, que eu tento combater no meu linguajar e confesso ser difícil demais. Alguns amigos e amigas meus, por exemplo, se tratam por “Ei, macaco!” – isso me chocava. Hoje não me choca mais porque eu já sou um “macaco”. Mas não soa estranho para quem nunca ouviu?

Antes me diziam que eu era “formal demais”, mas com o tempo eu acho que exagerei pro outro lado, passando a chamar todo mundo de “bicho”. Só percebi isso quando orei um dia, revoltado, e desabafei com Deus usando essa terna e respeitosa fórmula de tratamento para ele. Enfim, isto é uma vergonha!

Ok, ok. Intimidade demais e mal-costume reiterado trazem consigo a necessidade de estarmos alertas a como estamos tratando as pessoas, e como estamos tratando Deus. Talvez a gente nem pense nisso muito, mas deveria.

Excessos de “intimidade” nos relacionamentos podem levar a sérias e chocantes consequências para quem está à nossa volta, que observa o nosso comportamento e espera de nós um procedimento, no mínimo, decente. E o que isso tem a ver com cristianismo? Tudo.

18 de dezembro de 2009

Cantorino - Parte 2 + Mensagem de Natal

Para entender o texto, você terá que ler a primeira parte de "Cantorino", publicada dias atrás.  : )


...


O pastor estava arrasado: preocupado porque os membros ameaçaram passar o Natal em outra igreja ou viajar – houve quem inventasse até “retiro de Natal” para faltar no dia da cantata de Cantorino. Foi um desespero pastoral, um salve-se quem puder eclesiástico.


Mas a gente é de Deus, né? A gente não vai deixar o irmão sozinho só porque ele canta "terrivelmente horrível"! É nessas horas que a gente se analisa: eu canto mal e não tenho a coragem dele. Ele tem coragem, e, por arriscar, ele está coberto de razão, porque vai com a maior pureza de intenções louvar ao Senhor...


Chegando o dia, a congregação quedava aflita, paralisada. Para tentar salvar a noite, quer dizer, os ouvidos da congregação, levantou-se um dos diáconos:


"Irmãos, eu gostaria de agradecer a Deus por muitas coisas que aconteceram este ano dando um breve testemunho". E logo após a congregação começou a fazer o mesmo, pois, um por um, os irmãos se sucediam indo ao microfone partilhar as bênçãos. O que antes começou como uma maneira de não ser fulminados pela cantata desafinada - motivo pouco nobre - levou os irmãos a uma mudança de atitude e um sincero louvor.


Cantorino se emocionou com o ocorrido, pois nada lhe deixava mais contente que ver o nome de Deus engrandecido. Em lágrimas, agradeceu pela vida dos irmãos, que também se comoveram com a espontaneidade daquele que antes era visto como uma piada pronta, apenas porque cantava mal. Tocado e com voz trêmula, ele não pôde mais cantar, e desistiu da cantata. Mas não havia problema para ele, o objetivo de estar lá havia sido alcançado, a glória de Deus. ...Também a meia-noite se aproximava e algumas tripas já estavam roncando demais, esperando a Ceia.


Por fim, os irmãos não quiseram estragar o Natal de Cantorino, ele não merecia. E, depois de algum burburinho nos bancos de trás, decidiram dar-lhe um presente: investir num dos dons do irmão, pagando para ele um curso de canto e música. E assim, todos terminaram felizes.


Nossos irmãos hipotéticos aprenderam como agir bem diante de coisas boas mas que nos deixam desconfortáveis, como ser cristãos, como ser humildes e como reconhecer grandes coisas que não estão tão óbvias na simplicidade.



"O anjo, porém, lhes disse: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor." - Lucas 2.10-11


O Natal está chegando. E muitas pessoas, contentes com seus modernos presentes comprados em doze módicas prestações na Insinuante ou nas Casas Bahia, ou, mais chique ainda, na Submarino ou nas Americanas.com, nem vão lembrar de como Deus, sendo tão majestoso, lhes enviou o seu presente mais sublime na embalagem mais simples e austera.



Deus nos amou. Ele nos deu seu Filho, o qual, tendo nascido como um frágil bebê numa estrebaria, foi encontrado por pobres pastores de ovelhas deitado no mesmo local onde se punha comida para os cavalos comerem e os bois babarem; envolto em panos, esperado e amado por um pobre casal de judeus e por tantos que ansiavam a esperança de Israel.


O Grande Rei nasceu num berço de palha, mas traz em suas mãos o preço mais alto já pago, e o melhor dos presentes de Deus: a vida eterna... a nossa volta à casa do Pai, como filhos amados, em seus braços.


[Muito] Feliz Natal [mesmo]!

14 de dezembro de 2009

Cantorino

Estava escrevendo uma pauta para descontrair, e saiu um conto de Natal. O protagonista é ficcional e, com certeza, lembra alguém ou coisas que você já viu. Talvez vire uma série de contos com outros personagens. Talvez não. Peço que enviem sugestões e críticas.


Cantorino era um crente muito alegre, ele adorava louvar. Todo culto era um número especial, um momento inesquecível, irrepetível, tanto para os de sempre quanto para os visitantes.


"Louvor era ação. Ensaio era procrastinação." Instrumento às vezes atrapalhava. O homem era pura atitude. Ele não sabia o que era tom, melodia e ritmo, só o que era louvor. "E música é exaltação, é glória." Nota, para ele, era só Promissória ou de dinheiro. Desafinava, mas não desistia jamais.


O irmão adorava cantar no chuveiro, e no quarto, com a janela aberta para o muro alto (ele cantava na parte de cima do sobrado), no lajão e até na rua. Graças à sua voz potente e falta de musicalidade, dois gatos foram mais cedo, alvos mais que a neve, caminhar nas nuvens: atingidos de cheio por sua voz impactante e imbatível – eles caíram do muro e partiram para a glória felina. Os cachorros, com medo, já não passavam mais na rua: eles achavam que aquilo sempre acontecia quando eles passavam perto do lixo de Cantorino.


Os irmãos sempre usavam a desculpa de que não o ouviriam para que o ego do irmão não aumentasse. Mas não tinha jeito, culto é culto, e não poderiam sair do templo enquanto cantorino entregava seu louvor.


Nos primeiros versos entoados, viam-se semblantes de angústia, mãos trêmulas segurando os bancos, gente olhando para a porta como quem contemplava o fulgor dos portões do paraíso. O mero anúncio de que Cantorino se apresentaria a seguir levava muitas mãos aos rostos, cabeças a abaixarem-se e testas a se franzirem... E algumas vozes se alçavam em efeito dominó: “Volta, Senhor Jesus! Corre, Jesus, volta!” – e Cantorino ficava grato a Deus, porque a sua pessoa inspirava nos irmãos o desejo ansioso de todos pela vinda do Senhor (Para ele, humilde que era, isso era quase um avivamento em miniatura: mais um motivo para um servo cantar de alegria!).


Cantorino era ingênuo e doce, sempre pensava o melhor das pessoas. Mas os seus ouvintes não podiam mandar nos próprios sentimentos: a consciência pesava, dava vontade de rir e dava vontade de chorar a cada canção do entusiasmado cantador.


Quase esqueci de dizer que ele também tocava gaita – mal pacas! – diga-se de passagem. Uma vez ele foi tocar “Oh, tão cego eu andei e perdido vaguei longe, longe do meu Salvador”. O debate sobre a a música durou umas três semanas: os jovens argumentavam que era “Brilhando, brilhando, quero brilhar como a luz”, os demais ficaram divididos entre Castelo Forte e algum remix acelerado de “Manso e suave Jesus convidando”. Enfim, como ninguém conseguiu chegar a um consenso, inclusive as crianças começaram a defender que era “Pecado, pecadinho, pecadão”, optaram por deixar o assunto para o Tribunal de Cristo, pois nem Cantorino lembrava mais que cântico era para resolver, tamanho era o seu repertório instrumental.


O mais engraçado era que os hinos que ele tocava de gaita, principalmente os de cinco estrofes melodicamente iguais, careciam ser tocados por inteiro, e não dava pra saber em que estrofe ele estava porque a gente se perdia na contagem (não podíamos tapar discretamente os ouvidos e segurar o Cantor Cristão ao mesmo tempo pra contar).


Até que um dia, extasiado, cintilando, ele decide que apresentará uma cantata de Natal: uma cantata de um homem só... com uma hora de duração! O anúncio desabou meteoricamente num culto de domingo à noite, com igreja em peso, e ninguém ousaria contestar Cantorino em sua inocência.

E se você quiser saber como este conto termina, fique atento ao blog. A segunda e última parte virá em breve! ; )

11 de dezembro de 2009

$uper $anta Ceia Feliz


Cada dia que passa eu fico mais aterrorizado com as tendências da “gospelização” do evangelho. Tá, eu sei que “gospel” é evangelho em inglês e poderia ser redundante, mas não é em português. Estou usando esse termo para explorar a acepção comercial que ele ganhou ao substituir a palavra “sacra” no mercado fonográfico (música “sacra”; música gospel. Convenhamos: o “gospel” não é muito “sacro” hoje em dia); e também porque este termo ganhou uma penetração e popularização vertiginosa devido ao crescimento da população evangélica e do mercado voltado a esse segmento. “Gospel” sempre aparece nas embalagens de cacarecos evangélicos para vender. “Gospel” é “fashion”, vende, é “cool”, é “forward-looking” (termos em inglês, por alguma razão, sempre apelam mais para a simpatia dos consumidores, como os R$, 0,99 centavos no final dos preços). “Gospel” é diferente de "evangelho", que é cafona, quadrado, “coisa de crente” - por isso uso aquele termo no sentido pejorativo de “fé-comércio”.


O movimento “gospel” é repleto de novidades para não ficar obsoleto, e sempre apela com aquele quê de “você precisa disso”, usando Jesus como seu garoto-propaganda (Não o Jesus Luz, da Madonna), mas sem nenhum respeito ou reverência que lhe são devidos, a fim de conquistar os corações mais fervorosos e lucrar.


Sempre achei que desde que a discussão sobre a fermentação ou não do pão da Santa Ceia (que foi uma das razões para o Grande Cisma – a separação da Igreja em Católica e Ortodoxa, séculos atrás), esta ordenança teria ficado imune a grandes inovações teológicas e controvérsias. Entretanto, fiquei sabendo hoje que já existem pessoas pregando que a Ceia do Senhor seja abolida, e, lógico, baseando isto na própria Bíblia que nos manda celebrá-la!


Isso me lembrou de que, há algum tempo, ouvi falar de um pastor que acrescentou outros elementos simbólicos à Santa Ceia (que “antigamente” era celebrada com pão e vinho). “Felizmente”, alguns deles não chegaram a ser Fandangos sabor presunto ou Mentos e Coca-Cola. Mas, com que direito se modifica uma celebração que o próprio Jesus instituiu, em que o pão simboliza seu corpo e o vinho seu sangue, e que deveria lembrar-nos de sua morte voluntária para pagar a pena de nossos pecados, ao mesmo tempo que testemunhamos a fé na sua volta até que ela ocorra?


Ainda bem que não tem uma rede de "fast-food" gospel (Pelo menos eu não conheço nenhuma, mas, se houver, não me avisem!). Se não, com certeza, já teríamos notícias de uma “Santa Ceia Drive-Thru” ou de um telefone de encomendas para entrega em domicílio de um “Kit Melq(uesedeque) Super Santa Ceia Feliz”!


Mas é claro, lógico e evidente que um “Kit Melq Super Santa Ceia Feliz” somente teria valor memorial, e “unção”, se fosse ingerido com a família diante de um culto veiculado por uma TV a cabo “gospel”.


Com tantas ideias mirabolantes do meio evangélico, vindas de vários lugares, cada uma mais bizarra que a outra, e na velocidade da luz, a única coisa que me surpreende é que, até agora, não inventaram um concurso de “doutrinas” e “moveres” com premiação, reconhecendo o talento e a criatividade de indivíduos cujo engenho em aproximar a fé e o comércio, seguindo os moveres capitalistas dos “ungidos” desses Brasilzão (e dos States), os quais mexem uns milionésimos de porcento no nosso PIB e deixam, pelo menos, os seus consumidores e o Fisco muito contentes (isso quando não ocorre junto coisas como lavagem de dinheiro, sonegação de impostos e evasão de divisas...).


Mas eu vou parando por aqui, que eu não quero dar mais ideias (e preciso registrar com a máxima urgência a patente destas antes que alguém o faça).

[Sugiro que leiam esse texto no Bereianos!]

5 de dezembro de 2009

Deus de plástico

Você lembra o comercial de TV do menino incrível que fazia escândalo no supermercado para que a mãe comprasse vegetais? Na vida real vemos coisas igualmente surpreendentes, só que muitas vezes não nos damos conta delas.

Conheci alguém que vivia uma vida com um certo “pecado de estimação”. Mas afinal, quem não vive? Conveniência leva a muitas loucuras e coisas sem sentido, mas aos poucos, sorrateiramente. E nada melhor para atiçar o desconforto do que, estando nessa situação, se aproximar de um Deus que exige santidade – ou deixar que ele se aproxime de você.

Os dentes amarelados ficam ainda mais amarelados diante da "escala de brancura" daquela pasta de dente... Diante da santidade de Deus, os ânimos se perturbam, as excusas se multiplicam e os pecados são ressaltados, mesmo se vistos e acalentados como coisas de somenos, banalidades, e, sobretudo, quando “não prejudicam ninguém”.

Adão, após haver desobedecido a ordem divina, ao ouvir a voz de Deus, respondeu: “ouvi a tua voz no jardim, e, porque estava nu, tive medo, e me escondi”. Caim, depois de ter assassinado barbaramente seu irmão, respondeu a Deus, que havia perguntado onde estava Abel: “Não sei [onde ele está]; acaso, sou eu tutor de meu irmão?”

A cara de pau de Caim foi tão grande que ele não se arrependeu do seu ato, por mais torpe que seja matar alguém por sentir inveja. Ele se lamentou do tamanho de sua punição, não do tamanho de seu pecado.

Adão foi mais enxerido e tentou arrumar em quem pôr a culpa. Detrás da moita, sabia que a mulher devia estar em outro arbusto por ali, toda encabulada e dando risadinhas nervosas, fazendo uma mini-saia de folhas e contando os dedos dos pés repetidamente sem saber mais o que fazer: “Deus, er... é que tinha uma morena aí, e ela...”

E a mulher também, com vergonha de ter servido de pedra de tropeço, já contando os dedos dos pés de trás para a frente, olha para Deus duma brecha da moita, sem saber o que dizer, pensa no “Passa ou Repassa”, não sabe o que responder e... “Eita! Agora é minha vez...” – pensa. E responde: “REPASSA!”. No fim das contas, de Adão até hoje a gente “paga” por isso de várias formas. Correr, esconder-se e inventar simplesmente não colam.

Mas saindo do Passa ou Repassa do Éden e voltando à pessoa do início, não me lembro de ter falado nada a respeito da condenação de Deus com ela. E nem precisava! Pois sempre desabafava sobre a discriminação exagerada que sofrera por frequentar uma igreja dita cristã (fato que lhe trouxe profunda mágoa contra a cristandade: tanto que passou boa parte dos anos seguintes tentando apenas justificar seus erros contra a igreja, e não corrigi-los). Seu pecado foi uma reação a outro pecado de que foi vítima. Mas se prolongou e se repetiu tanto que perdeu a importância. Enfim, não era crime. Então, quem liga? Deus? Ã-rã!

Daí só restam duas opções: encarar ou correr. Só tem um problema: como o homem pode correr de um Deus que está em todo lugar e em todo o tempo, inclusive em sua mente, já que “nele nos movemos e existimos” e em suas mãos repousa todo o universo?

Mas para quê, afinal, querer se conformar ao Deus exigente da Bíblia, ou a Jesus Cristo, se você pode criar o seu próprio deus, viver da maneira que deseja e ainda ser aprovado por ele? (Essa é uma das formas – inúteis – de correr. E é sem futuro, não é? Verdade, mas normalmente só se percebe essa ação quando é dito de forma clara.)

“Avelar, eu não acredito nesse seu Deus cruel, que pune o fato de eu querer viver assim. O meu deus é amor, é bom, perdoa e está feliz com eu estar vivendo nisso que chamam de “adultério”. Ele não vai me punir. Ele entende que o que faço – e a igreja condena – é de boa fé, é movido por amor sincero. Eles não ligam mais para o casamento! Vivem separados. Então meu romance com um deles não pode ser visto como pecado porque eu a amo e ele não a ama. Não estamos fazendo nada secreto. Você quer dizer que Deus condena isso? Seu Deus não existe!”

O “eles” não ligarem mais para o casamento ou o adultério tem alguma coisa a ver com Deus não ligar mais para o casamento, o adultério ou os votos professados diante dele de “até que a morte os separe”? Deus é bem claro sobre o que pensa sobre casamento e fidelidade. E nossa concordância é irrelevante quanto a este fato.

“Você não está vendo que você acabou de dizer que crê num deus que está tentando criar?” – respondi. “Cada uma das mais de seis bilhões de pessoas que habitam esse planeta poderiam criar um deus à sua própria imagem, um deus do jeito que querem. Crer num deus assim, do qual você define as características e a essência, seria de algum préstimo?

“Pense nisso: se você perguntasse a cada pessoa desse mundo, elas seriam quase unânimes em dizer que, apesar das diferenças de nomes, todas serviriam ao mesmo Deus, apesar de que crêem que “seu” deus pensa de formas diferentes! Dá para perceber a falta de lógica disso? Crer num deus à minha imagem é crer em algo que eu inventei e que, de fato, não existe.

“Você acha o Deus que mandou seu próprio Filho para nos salvar dos nossos pecados e suas consequências cruel? O Deus que deseja verdade, justiça, misericórdia, e amor, que abençoa o matrimônio, a família e a sociedade e condena o egoísmo? O Deus que não tem prazer na morte do perverso e que deseja que ele se arrependa e viva?

“Desculpe-me... seu deus “conveniente”, que não considera e pune o pecado porque lhe convém viver na prática dele, você acabou de inventar. Além de inventado, é injusto, e não inspira nem um pouco a vontade de se tornar uma pessoa melhor, comprometida com ideais de perfeição e santidade. É o deus ideal para que, servindo-o, você se torne cada dia uma pessoa mais sem caráter, sem princípios, sem rumos, e, no fim da vida, talvez, terminar como um monstro que escarnece das virtudes e sobeja o próprio ego por ter apenas alimentado-se de pecado, erros e conveniências a cada dia. Seu novo deus recém-criado, resumindo, é de ‘plástico’.”

Interessante. Eu estava falando dia desses com um amigo sobre a idéia de querermos um Deus justo para punir os pastores ladrões, os políticos corruptos, os adúlteros que destróem famílias – “os grandes pecadores” – mas não queremos um Deus que condene nossos “pecadinhos”... um Deus que não quer que eu baixe MP3 sem pagar pelo trabalho alheio, que não gosta de mentirinhas e fofoquinhas, que não quer que eu gaste meu tempo excessivamente com diversão negligenciando coisas importantes, que não quer que eu imprima textos alheios dizendo que são meus para servir de trabalhos escolares, que quer que eu dê ofertas, esmolas e lute por interesses alheios, coletivos; que não quer que eu enrole as pessoas para fazerem o que eu quero, que quer que eu seja santo por fora e por dentro, que quer que eu seja decente e leal, que quer que eu saiba escutar críticas fundadas contra meus comportamento, que quer que eu prefira os outros em honra e que eu saiba me conformar com o que é certo - mesmo com prejuízo meu.

Nossa idéia de Deus é que ele é bom - é a idéia de todos - mas que ele seja conivente quando sou eu quem faço algo mau. Um deus conveniente para mim, mas implacável para com os outros.

Esse Deus existe? Tem gente que jura que sim.

25 de novembro de 2009

Evangelismo Automotivo Selvagem

Alguns religiosos sempre têm uma maneira rápida, impactante e simpática de apresentar sua mensagem para tentar salvar os outros.

Se você não é lá um desses felizardos mas sente uma vontade imensa de compartilhar o que crê com o mundo, driblando a timidez e a falta de carisma, experimente utilizar estes adesivos no seu carro:





[Quem é o seu Papi?]

 



[DEUS acredita na Pena de Morte... E Você?]

Mas se você quer salvar as pessoas sem muito lero-lero, indo diretamente ao assunto, você pode experimentar o adesivo impactante abaixo. Garanto que ninguém vai esquecer de você e da sua mensagem!



[Você ACREDITA em Deus? Se Não... VAI PRO INFERNO] 

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19 de novembro de 2009

Um amigo de verdade ou um amigo de um real?

Dia desses eu estava tomando café da manhã com um colega de trabalho (quase um "café da tarde" porque não comemos cedo) e estava passando o programa de Ana Maria Braga na televisão. Ela estava exibindo uma reportagem curiosa: um serviço de "amigos de aluguel".

A reportagem mostrava um grupo de rapazes e uma moça muito simpáticos que cobravam para sair com pessoas que não tinham companhia para ir às compras, ao médico, ao restaurante, ao salão de beleza, enfim... Pelo que entendi você pode pagar para eles irem para a igreja com você também, mas pode sair mais caro se alguém tentar exorcizá-los ou começar a gritar nos ouvidos deles.

É muito ruim ser sozinho, e, pior ainda, possuir amizades compradas. Michael Jackson, a grande estrela do pop de todos os tempos (especialmente se esses tempos estiverem dentro da década de 80) achava difícil ter amigos em quem confiar, amigos verdadeiros. Vi num noticiário uma declaração dele de que vivia perturbado com a ideia de que a maior parte das pessoas que se aproximavam dele era exclusivamente por interesse, não por amizade sincera.

Diante disso, eu pensei no relacionamento que temos com nossos amigos, na espontaneidade e naturalidade que ele tem. Acredito que você nunca pagou para sair com um amigo: não estou me referindo a pagar um almoço, um lanche ou um ingresso, mas remunerar alguém por sua companhia. Creio que você nunca deve ter iniciado uma amizade procurando pessoas que se ofereciam na lista telefônica... Tampouco imagino que você alguma vez tenha dado uma fetsa para comemorar um evento importante na sua vida e pagado a pessoas para lotarem o recinto e fingirem que o conhecem há muito tempo.

Amizade não é isso. Ninguém paga ou é pago para ser amigo. Amizade é algo que nasce espontaneamente entre duas pessoas, é um relacionamento construído, cultivado, e que traz consigo reciprocidade, prazer, problemas e compromisso. Amizade é algo que não tem preço mas tem muito valor e importância.

Você definitivamente não lembra de todos os momentos em que riu com seus amigos. Mas deve lembrar dos amigos com quem você compartilhou tristezas, problemas sérios, prantos, medos, desabafos... com quem brigou e com quem se reconciliou. Essa é uma das coisas que torna uma amizade muito mais especial: ela cresce, se evidencia e se fortalece nos momentos mais difíceis de nossas vidas.

E, com certeza, você tem amigos que se tornaram muito ligados, mas que antes disso nenhum dos dois se suportava ou ia com a cara do outro; e engraçado é que, quando temos amigos assim, um dia abrimos o coração, falamos o que pensávamos deles e escutamos o que pensavam de nós antes de sermos amigos, dando boas risadas - a amizade às vezes nasce de uma aversão como uma flor aparece no estrume.

A estranheza de se pagar por amizade é tão evidente que, certa vez, estavam vendendo "amizade verdadeira" por "R$ 1,00" no Mercado Livre: uma piada que rendeu bastante nos blogs de humor. Se uma amizade comprada não vale nada, imagine uma amizade comprada por uma ninharia, sem garantia, sem assistência técnica e com frete a combinar!

E a amizade de Jesus?

Interessante observar que Jesus já não nos chama "servos", mas "amigos"; porque Ele divide o que tem e promete estar sempre conosco. Ele disse que não há amigo maior que aquele que dá a própria vida por seus amigos, e ele próprio morreu em nosso lugar, para nos salvar, para ter-nos para sempre consigo. E não foi uma compra de amizade, mas um gesto de amor, um grande exemplo de alguém que é fiel e que cumpre suas promessas.

A Bíblia diz que Jesus Cristo é nosso advogado e conselheiro se alguém peca. Mas ele não nos defende com mentiras, negando diante de Deus que pecamos, mas mostrando suas chagas mortais, a eterna recordação diante do Pai de que ele foi ferido pelas nossas transgressões, pagando o preço pelos nossos pecados, a pena que merecíamos - uma amizade que nasceu do amor de Deus diante de nossa inimizade para com Ele.

Em Jesus temos um amigo perfeito. Completo. Padrão. E, considerando que fomos feitos filhos de Deus pela fé e pela graça concedida por ele em Cristo; que o propósito de Deus é que todos sejamos perfeitos como Jesus foi; e que Deus mesmo nos aperfeiçoará e completará a obra que começou em nós, podemos ter a certeza de que, no céu, seremos todos amigos perfeitos. E se Jesus diz que o Reino de Deus é chegado e que ele está dentro de nós, por que não nos dedicarmos a sermos bons amigos como Cristo é desde já?

Pense nisso.

14 de novembro de 2009

Milhões de portas de geladeira cobertas de razão

“O Senhor é o meu pastor; nada me faltará.” - Salmo 23.1

Este talvez seja o versículo mais conhecido de toda a Bíblia. Certamente você já deve tê-lo pregado na porta de sua geladeira, na capa de seu caderno, no vidro ou no painel de seu carro. Mas, será que ele faz algum sentido real pra você?



O salmista, nesse belo poema de louvor que inspira milhões de vidas há séculos, demonstra um conhecimento maravilhoso e profundo da pessoa de Deus. E expressa a vivência, como ninguém, do amor, da direção e do cuidado de um Pai que está sempre presente na vida de seu filho – não digo “povo”, mas “filho”: pessoa, não multidão.


É esse conhecimento, tão estreito e mútuo, essa ligação de amor paterno, divino, simbolizado pelo cuidado de um pastor por seu pequeno e indefeso cordeiro, figura bem presente na vida do ex-pastor de ovelhas e ora rei de Israel, que faz com que esse salmo seja tão querido e presente na vida das pessoas que amam e são amadas por Deus.


O Senhor é o MEU pastor. E ele se revelou de muitas formas, sendo a maior e mais perfeita delas em Jesus de Nazaré, o simples carpinteiro que revelou ser o “bom” pastor de suas ovelhas, o Eu Sou, o Deus de Israel.



Ter Jesus como pastor e amigo é algo que sobrepassa a religião. Não é uma filosofia ou uma doutrina, não é uma ideia ou conceito, é um relacionamento, uma vida. Você já pensou nisto? Como pastor, Jesus conhece e ama cada uma de suas “ovelhas”, ele conhece seu nome, seu passado e seus amores, seus sonhos, seus temores e os mais profundos segredos de seu coração. Ele não lhe vê como gado, multidão, massa, produto, cifra, número ou referência de estoque. Ele tem você, e você o tem. E um está sempre no outro: você em Jesus e Jesus em você. Eternamente. Inseparavelmente. Nada pode nos separar do amor dele ou nos tirar de suas mãos. Fantástico, não é?



Isso para quem tem ideia do que é pertencer a Jesus, o qual se compadece das nossas fraquezas e nos dá forças, que está conosco nos nossos problemas e tragédias mesmo quando não o enxergamos, que se entristece com nossos fracassos e dissabores. Ele é o meu Pastor. Estou certo disso. E mesmo que os meus sentimentos não digam isso e que a melancolia me inunde, mesmo que a dor seja forte, que tudo dê errado, que não veja luz no fim do túnel, que a esperança pareça falhar, mesmo que eu ache que eu estraguei tudo e que não tenha um tostão furado no bolso... Eu posso ter a certeza de que ele está comigo e de que seu amor e cuidado por mim não falham.



Fiquei muito triste ao ver uma cena de um vídeo feito durante a Marcha para Jesus que foi veiculado na internet. Nele várias pessoas “evangélicas” se mostraram extremamente ofendidas pela manifestação de alguns irmãos, que protestavam contra a falta de ética de algumas igrejas que promovem a Teologia da Prosperidade, deixando de lado o evangelho e visando obter lucros, abusando da fé dos adeptos. Os irmãos condenavam a ideologia, a situação, não uma entidade ou grupo específico, e, por isso, não citaram nomes.



Não havia como negar a verdade da contestação desses poucos manifestantes divergentes, porém pacíficos, contra a extorsão religiosa da espúria “Teologia”. Entretanto, em defesa do indefensável, alguns “evangélicos” esqueceram que são “evangélicos” e reagiram com ataques físicos (jogando objetos) e dirigindo impropérios e vaias contra a discordância respeitosa e salutar dos irmãos.



O que isso tem a ver com o início do texto? Simples: alguns manifestantes, diante da confrontação pacífica à sua Teologia da Prosperidade, tentando defender a torpe doutrina de Mammom, demonstraram sua fidelidade, compromisso e apego incondicional a denominações e líderes, em detrimento da palavra de Deus. Alguns destes líderes, por sua vez, são pessoas que apostataram da fé, comprometeram-se com lucros e falsas promessas de bênçãos financeiras, deixando de lado a pregação da mensagem do novo nascimento pelo arrependimento, fé e mudança de vida trazidos por Jesus Cristo. Ambos só têm deixado bem claro que seu pastor não é Jesus, mas o dinheiro, a instituição, líderes pecadores que nem sabem que eles existem. Que senhorio infeliz e medíocre!



Mas onde está Jesus, o bom pastor, nessa história? No coração dos manifestantes e de muitas pessoas que estavam ali. Jesus estava com eles. Não posso afirmar que o vi na reação indignada das pessoas que defendem criminosos que já foram penalizados por crimes que envolvem dinheiro e mentiras, e que, fazendo-se de vítimas, demonstram não haver-se arrependido dos seus pecados, principalmente quando estão ocupando um posto onde o exemplo de santidade, verdade e modéstia deveria ser o cartão de visita. Não posso dizer que vi Jesus na reação de pessoas que, diante da escolha entre a verdade e a passageira fábula institucional, preferem agir como escravos desta, deixando de lado todos os princípios cristãos por uma aparência de cristianismo que é puramente o fanatismo típico de torcida organizada de time de futebol, uma fé desperdiçada que com o tempo pagará seu falido investimento.



Como disse alguém, “o dinheiro é um servo rico, mas um senhor miserável”. Por isso reafirmo, juntamente com os cristãos, os protestantes e as portas de geladeiras de todo o Brasil: “O Senhor é o MEU pastor”.

10 de novembro de 2009

A Beleza da Mansidão

Por Nancy Leigh DeMoss
Traduzido por Ana Paula Eusébio 

Podemos nos dar ao luxo de ser mansos em nossos dias? De acordo com Nancy Leigh DeMoss, a mansidão nem sempre é compreendida hoje em dia, é uma das qualidades bíblicas sobre as quais há menos compreensão. A única forma de podermos demonstrar mansidão é tendo Cristo em nós. Se não existisse Deus, aprender a ser manso não faria sentido algum. Entretanto, há um Deus que nos dá poder para aprender essa importante qualidade.

Não estamos falando de moralismo ou de ser correto em si mesmo. Estamos falando do Cristo que vive em nós, que pagou o preço pelo nosso pecado. Pelo poder de seu Espírito Santo, Ele derrama sua graça em nossa vida para nos tornar em algo que nunca poderíamos ser sem Ele.

Penso que mansidão é o que nos permite descansar nos braços de um Deus que se faz presente, que é bom, que sabe o que está fazendo.

Mansidão é dizer: “Sim, Senhor”. É se submeter à Palavra de Deus, mas também é se submeter à providência de Deus, às escolhas de Deus, às circunstâncias que ele coloca em nossa vida e em qualquer período. É dizer: “Sim, Senhor. Recebo isto como vindo de tua mão, quaisquer que sejam as circunstâncias”, e não resistir, não ficar ressentido, não fugir, mas abraçar a cruz. É receber determinada situação e perceber que o seu cônjuge, o seu filho ou as circunstâncias não são inimigos, são apenas instrumentos nas mãos de Deus. Deus tem um propósito nisso, tem um propósito em sua vida.

A mansidão ou a ausência de mansidão é demonstrada em nosso coração antes de ser exposta de qualquer outra forma. Muitas vezes acontece em pensamentos sobre os quais ninguém mais sabe, ou em formas de avaliar as coisas, ou de ter os sentimentos feridos tão facilmente. A falta de mansidão pode ser demonstrada em vários tipos de comunicação, até em emails, em ligações, em pequenas coisas como quando atropelamos as pessoas com palavras, sem gentileza, rudes, sem consideração, sem zelo a respeito sobre como a outra pessoa está recebendo aquilo tudo.

A mansidão importa para Deus. O livro de Sofonias 2, verso 3 nos diz para buscar a mansidão. Colossenses 3.12 diz para nos revestirmos de mansidão. 1 Timóteo 6.11 nos diz para seguir a mansidão.

Antes de tudo, precisamos reconhecer que a mansidão não é algo que vem naturalmente. Não é uma questão de ter uma personalidade naturalmente mansa. Algumas pessoas são naturalmente mais quietas ou mais reservadas, mas isso não significa necessariamente que elas são mansas. Ninguém tem espírito naturalmente manso. A mansidão é sobrenatural, é uma expressão do caráter de Cristo, é um fruto do espírito. É uma graça trazida pelo Espírito de Deus e que sem Ele não é produzida. A mansidão acontece quando Deus toma sob seu controle nossas reações e instintos de forma a torná-los mansos como Cristo é manso.

Embora altamente valorizada por Deus, a mansidão não é valorizada pelo nosso mundo. Não está na moda, não é politicamente correta, vai contra a cultura, nada contra a correnteza. O mundo estima justamente o oposto da mansidão — ser autoconfiante, defender seus direitos, ser exigente, dizer o que pensa, fazer as coisas do seu jeito. O mundo olha para as pessoas mansas e diz que elas são fracas, Deus olha para as pessoas mansas e diz: “elas me lembram Jesus”. O mundo detesta e despreza a mansidão, mas estima e valoriza o que Deus detesta.

Temos de decidir se estamos dispostos a nadar contra a correnteza a fim de buscar a mansidão.

[Atualizado em 13 de novembro de 2009 para correção do nome do autor]

7 de novembro de 2009

O Cadáver que a Chuva Molha

Por Jorge Fernandes
Publicado originalmente no Kálamos


Muitos se perguntam se o Inferno existe. E dou-lhes certeza, existe! Por que a Bíblia diz. Não vou nem me ater a relacionar versículos. Eles estão em tão grande profusão por toda a Escritura que é desnecessário. Se alguém lhe falar que isso é “lenda”, “mentira”, “coação psicológica” ou “radicalismo teológico”, afaste-se dele, pois o objetivo é unicamente o de destruí-lo definitivamente, assim como ele mesmo se acha devastado.


Nos piores momentos de impiedade da minha vida, quando estava escravizado pelo pecado, eu acreditava tanto num tipo equivocado de amor divino, um amor engodado e subjugado, que não O considerava capaz de me condenar. Em minha loucura, achava que o Deus bondoso não poderia criar um lugar tão terrível como o descrito na Escritura, onde os pecadores fossem lançados e atormentados eternamente, "para o fogo que nunca se apaga, onde o seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga" [Mc 9.43-44]. O meu coração estava tão corrompido pela autocompaixão, que o Seu amor era uma espécie de escudo protetor a me desobrigar de cumprir a Sua palavra, garantindo-me descumpri-la, e manter-me enredado no caminho pervertido. O objetivo era de que a minha iniqüidade prevalecesse sobre o amor de Deus; era como o calço que equilibraria a mesa defeituosa e manca; uma muleta capaz de fazer o coxo se arrastar sem que seja curado do seu mal. Era preciso que eu anulasse a Sua justiça e, por conseguinte, o sacrifício de Cristo na cruz do Calvário, com a idéia perversa de um amor contemplativo e inútil, suficiente para me manter num coma irreversível.


É interessante como tudo se processa:


1) O conhecimento de Deus e de Sua Lei Moral, inatos em minha alma, revelavam-me os pecados, ainda que não os assumissem como tal.


2) Para justificá-los, apelava para o amor complacente, tolerante e conveniente, o qual julgava divino, quando não passava de uma tentativa desesperada de ser aprovado por Ele, sem a necessidade de arredar o pé da antiga vida de pecados.


3) Então suprimia o Inferno e qualquer tipo de condenação; acreditando que mesmo o diabo seria absolvido em nome desse suposto amor divino. No fundo, não passava de uma tentativa frustrada de demovê-lO da sua convicção, de considerá-lO volúvel e maleável, facilmente moldado por todo o meu coração perverso e estúpido.


4) Por fim, como a Escritura é categórica em relação ao julgamento de Satanás [e também do réprobo], optei pela sua não existência; e as citações escriturísticas não passavam de apelos morais à minha consciência, no sentido de o mal ser condenado e combatido na sociedade, sem que o pecador o seja. Desta forma, as criaturas tornavam-se mais importantes do que o Criador, e o projeto de santidade de Deus era uma mera obsessão ortodoxa, um delírio teológico legalista [1].


5) A expiação do Senhor, o tema central e corrente de toda a Escritura, passou a ter também um apelo meramente moral, no sentido de se buscar, seja na bondade, no serviço, na consciência, na integração social, o bem que há em nós e que sempre vencerá o mal. Somente desse modo a humanidade evoluirá por seus próprios meios, à sua maneira, até finalmente alcançar a perfeição [2].




Assim, progressivamente, vai-se afastando da revelação especial, em detrimento de uma “revelação pessoal”, na qual o ímpio conforta-se com a idéia de que tudo será perdoado, ainda que não seja necessário arrependimento, ainda que seja preservada a sua velha natureza, e a dissolução servisse de prêmio à desobediência, à leviandade, ao ignóbil pensamento de que se é possível “passar a perna em Deus”.


O novo-nascimento operado pelo Espírito Santo, primeiramente, nos revela a nossa condição imoral e iníqua. Sem a constatação do que somos, o reconhecimento de que estamos verdadeiramente perdidos e mortos para Deus, não há arrependimento nem salvação. Duvido do crente que diz que sempre foi crente. Por menor que seja o processo de regeneração, por mais tênue que seja a diferença entre a sua vida pregressa e a nova vida, há de se arrepender. Mesmo crentes nascidos em berços cristãos, cujos pais, avós e bisavós eram crentes, terão de se deparar mais cedo ou mais tarde com os seus pecados, sendo confrontados pela Palavra e o mover do Espírito em suas vidas. Ainda que se tenha lido a Bíblia muitas vezes, ouvido dezenas de pregações, e até se concluiu o seminário, o Evangelho não passará de construções gramaticais aos seus olhos e ouvidos, nada além de palavras e frases sucedendo-se sem sentido, ou quando muito, confundindo-o.


Porém, quando Deus o confronta com o texto bíblico e o Espírito Santo lhe revela a sua condição de rebelde, mostrando o seu estado miserável diante da santidade e glória divinas, não há como resistir: somos inapelavelmente abatidos em nossa soberba, nossos olhos são abertos, nossa mente é conformada à mente de Cristo, os joelhos se dobram, a cerviz se curva, e a escravidão do pecado é-nos arrancada, reconhecemos Cristo como Senhor, e somos eternamente salvos pelo Seu perfeito amor.


Então, qualquer tentativa de se minimizar o novo-nascimento como a transposição radical do reino das trevas para o Reino da luz, deve ser combatida. Nada é mais diabólico do que rejeitar o novo-nascimento, porque sem ele, o homem apenas será mantido no estado de impiedade, sustentando a inimizade contra Deus, a sua condição de caído em Adão, e a perpetuar a sua natureza carnal, conservando-se morto.


Sem a regeneração, não há salvação. Não adianta saber todos os versículos de cor, nem ter uma vida de aparente piedade, nem estar a serviço da igreja, nem dizimar e ofertar, nem participar da ceia, nem mesmo pregar a palavra. Deus pode usá-lo de várias maneiras [e o usará quer você queira ou não] e você pode até mesmo estar convencido de sua salvação, mas a sua fé não é por Cristo, mas em seus méritos próprios. E ninguém será justificado por obras de justiça própria; porque a sua fé não está nEle, mas em si mesmo, em seu esforço, e no grande cristão que você aparenta ser; nada disso surtirá algum efeito, a não ser condená-lo; ainda que se considere bom o suficiente para receber a misericórdia divina, quando, se não for lavado no sangue do Cordeiro, não poderá chegar diante do Seu trono alegando qualquer outra justificativa. A única que satisfaz o Todo-Poderoso é ser expiado por Cristo, e ser absolvido dos pecados pelo Seu sacrifício remidor.


Você não passa de um tolo! Não é salvo. Nunca foi. E continua sob a ira de Deus.


Se não houver aquele dia, em que numa ínfima fração de tempo você se viu como realmente é, e foi movido irresistivelmente pelo Espírito Santo a ser como Cristo, você ainda está morto em seus delitos e pecados. De nada adiantará espernear, alegar inocência, porque a obra de salvação é completamente de Deus, e o homem não pode auxiliá-lO em nada. Tudo é dEle para o eleito, o qual foi destinado para a vida eterna apenas pela Sua vontade. “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” [Rm 6.6].


O réprobo somente faz produzir provas contra si, infringindo a Lei Moral tantas vezes quanto a sua mente caída é capaz de se deleitar na malignalidade.


Por isso, muitos se recusam a crer no Inferno e na condenação; por que não foram regenerados, e se não foram, como acomodar os seus pecados à Palavra? Não tem jeito. É impossível. Então usarão de artifícios para desqualificá-la, distorcê-la ou recriá-la. Ao idealizarem o paraíso, contentam-se em permanecer atolados no pântano como se fosse possível fazer dele um jardim sem remover toda a lama. Querem que brote flores no terreno estéril. Querem exalar o doce perfume de Cristo, quando estão apodrecendo. Querem-se vivos, quando estão mortos. Querem respirar, quando estão asfixiados. É como o cérebro sem oxigênio.


Assim é o ímpio.


O cadáver que a chuva molha.


___

Nota: [1] Interessante que os liberais nos acusam de todo o tipo de distorção. Dizem que traçamos absolutos quando eles não existem. Dizem que levamos a Bíblia a uma literalidade doentia. Dizem que o propósito de Deus não é o de condenar ninguém. Dizem que a revelação especial foi construída por homens, e, portanto, está sujeita a falhas. Dizem que Deus deu apenas uma idéia geral do Seu plano, e que os homens acrescentaram e distorceram essa mensagem inicial. Dizem que a Bíblia não é divina, mas humana; e tem apenas bons exemplos morais, mas nada que leve a criatura à salvação ou condenação.




Eles proclamam uma cartilha de motivos para a sua impiedade, para manterem-se em conluio com o pecado, sem que haja qualquer prova concreta do que afirmam; nada além da mais simplória e débil especulação. Contrariamente, podemos afirmar que eles não passam de incrédulos, de crentes em uma fé distorcida e talhada à imagem dos seus deuses: eles mesmos e o diabo. E isso não é mera especulação. É o próprio Deus falando através da Bíblia, a revelação especial.



[2] A qual nada mais é do que a integração de todos os povos, raças e credos numa simbiose capaz de fazer com que a humanidade se unisse no projeto de construção do homem ideal. Isso significaria a união da luz com as trevas, do bem com o mal, do absoluto com o relativo, do fundamental com o dispensável, de Cristo com Belial, do santo com o profano, do incorruptível com o corrompido. Seria o mesmo que fundir água e óleo; e sabemos que eles não se confundem.

1 de novembro de 2009

Óculos-de-Sol-Eu-Amo-Jesus-João-Três-e-Dezesseis-Azul-Celestial


A Marcha para Jesus está chegando e você ainda não sabe o que usar para sair na vanguarda da batalha espiritual e deixar seus "brothers and sisters in Jesus" babando com o numero de almas que você vai salvar?


Respire fundo e grite glória porque seus problemas acabaram!


Com os novos Óculos-de-Sol-Eu-Amo-Jesus-João-Três-e-Dezesseis-Azul-Celestial, você vai estar na visão!


Com a sua cobertura espiritual ectoplásmica sombreada UVA e UVB superexclusiva, que só eles sozinhos podem lhe dar, o sol não lhe molestará de dia nem a lua de noite! Você poderá enxergar com facilidade sarças flamejantes à distância, no tempo e no espaço!


Com um alcance visual tão onipresente, você enxergará todos os reinos da terra, não tropeçará em pedra alguma, não cairá no laço do passarinheiro e poderá sair correndo da peste que assola ao meio-dia antes que ela lhe pegue.


E não é só isso: só os Óculos-de-Sol-Eu-Amo-Jesus-João-Três-e-Dezesseis-Azul-Celestial vem com o Sistema Hipocritex-Protection, que impede que as pessoas chatas e os críticos de internet, que não fazem nada, possam ver e tirar os ciscos de estimação da menina dos seus olhos!


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E se você ligar agora, nós lhe enviaremos absolutamente grátis, não apenas um, mas dois frascos do "Colírio Apocalíptico Eu sou Demais", importado diretamente de Laodicéia-Paraguai, e um pote da "Loção Facial Humectante de Peroba", trazida diretamente de Brasília.


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[Fonte da imagem - que não tem nada a ver com a brincadeira]

30 de outubro de 2009

"Unção do Chulé"


Esse vídeo foi objeto de discussão numa comunidade do Orkut há algum tempo, a "Não Aguento Mais mantra Gospel".

Após assisti-lo, alguns irmãos comentaram:

"Essa atitude foi de inteira zombaria às pessoas presentes ... muitos q estão ali merecem isso (...)"

"Se eles [DT] quisessem realmente demonstrar algo honesto, a APV lavaria os pés de alguém da platéia."

"Isso é nojento. Do ponto de vista teológico, quanto do ponto de vista higiênico."

Pensei o mesmo quando vi. Quanta imundícia travestida de espiritualidade cristã! Ainda mais utilizando a imagem de um evento tão belo da Bíblia como aquele em que Jesus, o Senhor de todas as coisas, lava os pés de seus imaturos discípulos! Com essa atitude, ele ensinou, na prática, que devemos ser servos de todos, como ele o foi, imitando o exemplo dos escravos que lavavam os pés dos visitantes de uma casa da época.

Mas os integrantes da banda é que têm os pés lavados nessa encenação de "ato profético", o contrário do que Jesus ensinou. No fim das contas, o vídeo merece mais alguns comentários:

1. os feridos pela religião são eles mesmos, que querem ser uma geração apostólica que não podem ser, ao invés de se contentarem em ser simplesmente cristãos, até porque os apóstolos já morreram há muito tempo e deixaram o firme fundamento no qual eles não parecem se firmar;

2. eles falam sobre feridas causadas pelas críticas e juízos mas são os primeiros a não as ouvirem, para ver se elas têm ou não razão de ser, exigindo-lhes mudanças, a tal cura seria só um "Ai, eu estou triste porque me criticam, mas eu não estou nem aí, vou continuar fazendo o que faço, só não quero ficar chateado com isso" (Que cura conveniente, hein?);

3. o "profeta" não entende nada de Bíblia e mistura várias passagens de Gênesis a Apocalipse dando-lhes sentidos questionáveis;

4. o congresso chamado "de Louvor e Adoração" parece ser de louvor e adoração a eles próprios, uma vez que eles se colocam como representantes do povo que se sente ferido pela crítica quando nem todo mundo é tão sucetível a qualquer crítica como eles, que só podem ser elogiados;

5. a profecia não se cumpriu, porque, se eles dizem que aquilo é obra de Deus e por causa daquele ato profético não haveria mais tropeço para a obra de Deus, daí para cá só o que houve foi tropeço e escândalo, incluindo o ato em si, a questão é que sempre haverá escândalos, mas nada vai parar a igreja, contra quem as portas do inferno não podem prevalecer;

6. aquelas águas são "apostólicas" de onde? Da torneira da casa do apóstolo Paulo? Da bacia de lavar roupa da casa de João? Do pote pra fazer a faxina da "casinha" atrás da casa de Pedro? E qual seria mesmo a utilidade prática de uma "água apostólica"?

7. eles não têm poder de firmar pé de ninguém em rocha nenhuma porque nem eles próprios demonstram estar em rocha alguma, pelo contrário, são levados por todo vento de doutrina e nem parecem saber para onde vão, vivendo de visões contraditórias, moveres que não batem com as Escrituras, atos proféticos malucos e coisas do tipo, e até a algumas passagens que eles citam corretamente dão um tom que faz até parecer que é coisa nova (mas podem mesmo ser coisa nova para eles, não é?);

8. a igreja desde o princípio prevaleceu contra as portas do inferno, se não Cristo teria mentido, não vai ser dali que vai começar;

9. eles não podem conceder "rio de Deus" a geração alguma porque o rio de Deus estará na Nova Jerusalém, saindo do trono de Deus e do Cordeiro, e o Espírito Santo (que é figurado por "rios de águas vivas") é concedido pelo Filho, não por "profetas" que misturam passagens bíblicas (Jo 4.10; 7.38; Ap 7.17; 21.6; 22.1);

10. E por fim, mas não menos triste, veja que quando a água suja que lavou os pés dos artistas está sendo lançada contra a platéia que assiste essa marmota toda com a baba escorrendo nos beiços, o "profeta" grita "Receba o Rio de Deus!" E eu, então, pergunto: Por acaso o "Rio de Deus" é a água com o grude dos pés dos artistas desse show? Até como simbolismo é decadente e repugnante! É por isso que eles fazem todo esse frenesi e chororô sem lágrimas? Se é tão boa e santa essa água, por que eles mesmos não a beberam ou tomaram banho com ela, mas a lançaram na cara do povo depois de sujá-la com os pés?

Dá para entender agora por que eu me recuso a apoiar ou participar de certas coisas evangélicas? Muitas delas, além de não expressarem a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos, são mais nocivas que proveitosas para os cristãos, conduzindo-os a enganos e desvios. Mas, mesmo assim, creio que podem ser usadas por Deus, além de serem bastante aproveitadas pelo diabo, que adora misturar a verdade da palavra de Deus com mentiras e distorções, como ele fez no Éden.

Congresso de quê?! Não, Obrigado! Prefiro ter comunhão com a igreja e ler a Bíblia mesmo.

- Editado para correções em 15/12/2012.

27 de outubro de 2009

Religiões. Comédia Stand Up.



Vídeo dedicado à minha Leitora Fantasma favorita, conforme prometido.


Se Deus quiser, um dia você vai deixar seu rastro de fogo, supersonicamente falando, nas estradas ladeadas da caatinga verdejante, com seu fusquinha conversível de bolinha envenenado, sentindo o vento nos cabelos e ouvindo Britney... digo, Maria Rita. Apenas não desista de sonhar, você chega lá!


Obrigado pela audiência ectoplasmática da sua pessoa.


Atenciosamente.


Vídeo copiado de VeshameGospel

25 de outubro de 2009

A Estranha



Pouco depois que eu nasci, meu pai encontrou uma estranha, recém-chegada a nossa cidadezinha no Texas. Desde o início, ele ficou fascinado com essa encantadora novata, e logo convidou-a a morar com nossa família. A estranha foi rapidamente aceita e sempre estava conosco desde então.


Enquanto crescia, eu nunca questionei o lugar dela na minha família. Na minha mente jovem, ela tinha um nicho especial. Meus pais eram instrutores complementares: minha mãe ensinou-me o certo e errado, e meu pai a obedecer. Mas a estranha... era nossa contadora de histórias. Ela nos deixava enfeitiçados por horas a fio com aventuras, mistérios e comédias.


Se eu quisesse saber alguma coisa sobre política, história ou ciência, ela sempre sabia as respostas sobre o passado, entendia o presente e até parecia poder prever o futuro!



Ela levou a minha família para o primeiro grande jogo da liga de futebol, fez-me rir e chorar... A estranha nunca parava de falar, mas meu pai não se importava.



Às vezes, mamãe acordava calmamente enquanto nós silenciávamos uns aos outros para ouvir o que a estranha tinha a dizer; e minha mãe ia à cozinha para ter paz e tranquilidade. (Agora pergunto-me se ela nunca rezou para a estranha ir embora.)



Papai governava nosso lar com certas convicções morais, mas a estranha nunca se sentiu obrigada a honrá-las. Palavrões, por exemplo, não eram permitidos em nossa casa: nem de nós, nem dos nossos amigos ou visitantes. Nossa antiga moradora, no entanto, saía com cada coisa que queimava meus ouvidos e fazia meu pai sobressaltar-se e minha mãe corar.



Meu pai não permitia o uso liberal de álcool, mas a estranha nos incentivava a experimentá-lo regularmente e fazia cigarros parecerem legais, charutos másculos e cachimbos requintados.



Ela falava livremente (livremente até demais!) sobre sexo. Seus comentários eram, por vezes, explícitos; outras vezes, sugestivos; e, geralmente, embaraçosos. Agora sei que meus primeiros conceitos sobre relacionamentos foram fortemente influenciados pela forasteira.


De vez em quando ela se opunha aos valores dos meus pais – e raramente era censurada... E nunca foi convidada a se retirar.



Mais de cinquenta anos se passaram desde que ela chegou ao nosso lar. Ela se adaptou perfeitamente mas não é mais tão fascinante quanto parecia logo que chegou.



Mesmo assim, se você der um pulinho na casa de meus pais hoje, você ainda irá encontrá-la assentada no seu canto, esperando alguém para ouvi-la falar e vê-la mostrar suas imagens. 


Ah, o nome dela? Nós a chamamos de “TV”.


E agora ela achou companhia, a quem chamamos de “Computador”.




Por Bobby.
"The Stranger", traduzido e adaptado por Avelar Jr.
Publicado originalmente no Blog Christian Humor

20 de outubro de 2009

N' Sei o quê, n' sei o quê lá...

Eu adoro assistir a esquetes e quadros humorísticos na televisão. Mas dificilmente eu acho algo realmente interessante, criativo ou engraçado na TV, eu sou mais YouTube. Um quadro de que eu gostava bastante retratava uma garota que conversava com a mãe sobre sua vida de adolescente com um vocabulário típico, repleto de gírias de rolar de rir.

Fato é que o quadro foi tão bem-sucedido que o linguajar da garota terminou por influenciar garotos um pouquinho grandes demais, e essa influência chegou a lugares inconvenientes e inusitados.

[Foto: Heloisa Perissé interpretando Tati, a adolescente bastante descolada que "estragou" o linguajar de muita gente séria e nos trouxe boas gargalhadas.]

Calor de matar. A sala e os bancos eram insuficientes para apertar duas turmas da faculdade na sala de vídeo do campus. A palestra, pelo menos, era interessante, na área de Direito Ambiental. A sala, com pouca luz, favorecia as conversas paralelas dos colegas, que nunca viam os que estudavam no outro turno e aproveitavam para pôr o papo em dia.

Palestra rolando, conversas por bilhetinhos e risadinhas paralelas: nada que pudesse se comparar a estranheza do debatedor que roubou a fala do palestrante para “traduzir” para o grupo de ouvintes de dezenove a cinquenta e tantos anos o que acabara de ser dito.

Esse cara beirava os quarenta anos, e, na expectativa, todos silenciaram, julgando que o que ele iria dizer seria mais importante. E ele começou: “Bom, galera, tipo assim: eu acho que cês tão pensando que biota, sabe, é uma coisa tipo sei o que sei o que lá, sei o que sei o que lá...” – Juro, foi difícil conter a gargalhada diante de uma palestra dessa para a universidade. No outro dia só se falava das expresões adolescentes do rapaz, tiradas da esquete da menina do Fantástico. E o pobrezinho, virou motivo de brincadeiras e piadas de corredor por semanas.

Outro dia, lembro-me de que estávamos na calçada do fórum quando um colega meu estava dando explicações sobre a decisão de um juiz dentro de um processo para pessoas notoriamente rurais. Ele dizia que “a fim de que o réu não fosse lesado, o juiz...” Nesse instante, eu percebi, pela fisionomia, que o rapaz não entendeu a frase (ele estava rindo), e interrompi meu colega para explicar, “ele quis dizer, que, para não prejudicar a outra parte... ‘Lesado’ aí não quer dizer ‘abestado’, quer dizer ‘prejudicado’”. Meu amigo me agradeceu, pediu desculpas ao rapaz, percebeu que tinha que evitar termos usuais do foro com os leigos e todos saímos felizes porque houve comunicação efetiva e no mesmo nível.

Também lembro-me de que estávamos numa assembleia ordinária, certa vez, decidindo um assunto simples mas que causou divergências. E um irmão, descontente porque sua proposta não foi endossada por várias pessoas, irado, desferiu um “Vocês não concordam porque vocês são uns hereges!” Nisso, todos começaram a olhar uns para os outros sem entender o que ele quis dizer, e riram, visto que o assunto não era doutrinário. Então, um dos jovens lhe replicou: “Olha, irmão, não venha chamar os outros de hereges, não! Porque você nem sabe o que isso significa!” Ao que ele rebateu, para a gargalhada geral: “Sei, sim! Herege é quem vai pela cabeça dos outros!” – Novamente foram semanas de brincadeiras entre os jovens: “Homem, você é um herege... Porque vai pela cabeça dos outros”...

Esse texto é apenas para chamar a atenção para algo simples e muito importante: comunique, não apenas fale.

Nós temos uma mensagem para comunicar: o evangelho da salvação; temos um interlocutor: toda criatura; temos um local de trabalho: o mundo; temos uma missão: fazer discípulos e ensiná-los a guardar tudo o que Jesus nos tem ensinado; temos um Senhor, que está sempre conosco e nos ajuda em nossa incumbência: Jesus Cristo. - Mateus 28. 18-20

Devemos fazer com que essa mensagem chegue a todos, e, para tanto, vamos transmiti-la de modo claro, simples, para que o nosso ouvinte possa compreendê-la perfeitamente. Evite “jargões gospel” vazios e desnecessários, que podem atrapalhar ou fazer com que as pessoas se sintam excluídas, menosprezadas ou confusas. Vamos falar a língua dos outros, mas sem tratá-los como retardados ou inferiores. E nunca nos esqueçamos de usar um linguajar sadio, de usar palavras cujo significado seja conhecido por nós e pelos nossos interlocutores. É importante também conhecermos o peso e conveniência que as palavras têm em determinados contextos e estarmos preparados para questionamentos eventuais.

A falha em ser um cristão autêntico pode fazer com que sua mensagem caia em ouvidos moucos e com que a mensagem da cruz seja blasfemada, pois o que você fala deve estar em perfeito compasso com o que você pratica, e em sintonia com a palavra de Deus. Seja sua vida – e não apenas suas palavras – a mensagem.

Não me lembro de nada do conteúdo da palestra sobre Direito Ambiental daquela tarde, só das gírias engraçadas e dispensáveis. Mas, com aquele rapaz, aprendi algo bastante útil: adapte seu vocabulário a quem você está falando na medida da necessidade e no contexto correto. E não subestime seu interlocutor, caso contrário o tonto imaginário pode ser você - e isto, tipo assim... ninguém merece!

Se pluga! ;)


Passagens bíblicas úteis:

Mt 28. 18-20;
Atos 2.6;
1Co 14.19;
Ef 4.29;
Cl 3.8;
1 Tm 4.12;
Tt 2.7-8;
Tg 1.19;
1Pe 4.11.

[Atualizado em 20/06/2011 para correções]

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