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28 de outubro de 2016

Burocratizando a Vida Cristã


"Eu lhes afirmo que está chegando a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e aqueles que a ouvirem, viverão." João 5.25

Data de protocolo, formulário a ser preenchido com letra de forma e sem rasuras, entregar em três vias, anexar foto 3x4, assinar três vezes e apor a impressão digital do polegar direito... Todo mundo já está bem familiarizado com repartições públicas, concursos, editais, inscrições ou qualquer outra coisa que demanda burocracia. Alguns são tão viciados nesse tipo de coisa que têm até a sua própria forma burocrática de ver o cristianismo e a vida cristã.

Quando você se converteu? Quando você se batizou? Quem são seus pais na fé? Você é membro de uma igreja que batiza por aspersão ou por imersão? Quem assinou seu certificado de batismo? ... Espere aí, isso é uma entrevista para emprego? Para um visto de permanência em país estrangeiro?

Já ouvi muita gente que consegue fazer um histórico detalhado de sua própria vida cristã. E talvez porque muitos consigam lembrar detalhes dessas coisas e os mencionam sempre que falam de si, eu cheguei a pensar que eu precisava mesmo detalhar toda a minha história, registrar todas as datas para que eu pudesse gozar da certeza de ser convertido. Às vezes o convívio com pessoas mais aparentemente seguras cria em nós esta mentalidade meticulosa. E nossos pecados sucessivos pioram as nossas dúvidas. Se realmente me converti, por que não lembro a data especificamente? Isso me afligiu por um tempo.

Eu já passei por crises de identidade assim. Eu não sei em que dia eu me converti de verdade porque para mim isto foi um longo processo. Não me converti num sistema de reação instantânea em cadeia do tipo: “pecador-inconsciente-sai-de-casa-um-dia; culto-com-louvorzão; pregação-emocional; apelo-pelo-amor-de-Deus-alguém-aqui-aceita-Jesus!; levanta-a-mão-visitante!; olha-ele-igreja!; palmas-glória-a-Deus!; oração-perdoa-ele!; ele-está-salvo!; pecador-remido-em-casa”.

Pelo contrário. Eu levei anos observando, questionando e refletindo. Mas lembro que, na minha inocência, eu achava que levantar a mão e ir à frente numa igreja para dizer que "aceitei Jesus" era a segunda parte da burocracia necessária para a salvação que eu achava que havia em Romanos 10.9-10:

"Se você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo. Pois com o coração se crê para justiça, e com a boca se confessa para salvação."

Tanto que cheguei até a combinar com amigos crentes para ir aceitar Jesus na igreja deles, muito embora até hoje eu não saiba se a primeira parte (crer) ocorreu antes ou após o evento (mas meu palpite é que tenha sido bem antes, né?). De uma coisa eu sou bem certo, apesar das minhas mancadas e pecados, eu sou cristão.

Alguns pensam que a conversão precisa ser feita num templo só porque aparentemente a maioria das conversões se dá em cultos públicos. Mas não podemos conhecer corações de pessoas só porque elas vão à frente, dão testemunho, se batizam ou atendem a um apelo evangelístico. E isto justamente porque a conversão é um ato invisível: é uma ação vivificadora do Espírito Santo na vida de uma pessoa que estava morta em delitos e pecados, e que estava em franca rebelião contra Deus e sob a ira d'Ele*

"Mas quando se manifestaram a bondade e o amor pelos homens da parte de Deus, nosso Salvador, não por causa de atos de justiça por nós praticados, mas devido à sua misericórdia, ele nos salvou pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós generosamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador." Tito 3.4-6

É difícil para algumas pessoas se lembrarem de quando e como isso aconteceu porque muitas vezes a conversão, como no meu caso, é um processo difícil de pontuar no tempo. Uma progressiva mudança de mente, uma crescente atração por Deus, um desapego de tudo por algo maior e inexplicável. Como podemos sondar o Espírito de Deus e medir seus misteriosos caminhos em nós?

O fato é que estávamos mortos, e Deus nos fez acordar para a vida. Simples. De repente começamos a produzir frutos divinos, mas não sabemos quando eles nasceram ou amadureceram pela primeira vez. Assim, não importa quando nascemos de novo, pois, sendo a salvação eterna, sua data se perderá no tempo. Que bom que muitas pessoas conseguem se lembrar do dia em que ouviram a voz do Mestre pela primeira vez! Eu não. O que sei, com toda certeza, é que eu estava morto, e Sua voz me trouxe vida; e que eu já não consigo mais imaginar a vida sem essa voz tão doce.

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* Outros detalhes sobre isso podem ser encontrados na Epístola aos Efésios, capítulo 2.

24 de agosto de 2015

Reencontro

Tem uma musica com uma letra um tanto questionável que vez ou outra me faz refletir sobre Deus ("One of Us", Joan Osborne). E se Deus se mostrasse a você? E se ele se mostrasse de um modo diferente do que você espera?

Várias vezes nas Escrituras, o temível Deus que envia raios e fala nas chamas com voz de trovão, Aquele que vestiu-se de carne e nasceu, mesmo tendo sempre existido e sido o mesmo, surpreendeu até mesmo aqueles que viviam em sua intimidade (João 1.18).


E se Deus fosse como um de nós ao encontrar você? Você o reconheceria? Eu me pego a pensar sobre isso de vez em quando. Não que eu espere ver o rosto do Todo-Poderoso "Eu Sou" pelas ruas da cidade, gritando alto no meu ouvido para se sobrepor ao som do tráfego intenso.

Mas surpreende-me pensar que o profeta Elias encontrou o dono do céu e da terra, o Senhor dos reis da terra, na porta de uma caverna do deserto, diferentemente do que ele esperava, num sussurro ao vento.

Espanta-me que Maria Madalena, no jardim onde antes estava sepultado Jesus, aquele que é a Vida e que venceu o poder da morte, tenha tomado Este, a quem tanto amava, por quem derramava lágrimas entre soluços de aflição, pelo coveiro que cuidava dos sepulcros.

Como os discípulos que retornavam desconsolados para Emaús, pensando no Profeta que fora morto, Aquele em quem haviam posto sua esperança, cuja doce voz os guiara por muito tempo, cujo pão saciou muitas vezes não apenas o vazio de seus estômagos mas também o de seus corações... Como puderam não reconhecê-lO enquanto lhes falava uma vez mais, conversando pelo caminho na volta para casa? (Lc 24.13-35)

Como eu me sentiria na pele de Filipe se, depois de três anos seguindo Aquele que um dia me chamou, tão humilde que sua simplicidade ocultava toda a sua glória divina... Como me sentiria diante de sua resposta ao meu pedido "mostra-nos o Pai"... Naquele momento, ao ouvir Aquele cujos passos se juntavam aos meus nas empoeiradas ruas de Israel, me responder que eu já havia contemplado e conhecido o Pai todas as vezes que olhei para o Seu próprio rosto? (João 14.1-9)

"E nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido", mestre, "glutão e bebedor de vinho", hippie, comunista, revolucionário do amor... "filho do carpinteiro", "salvador do mundo", quebrador do sábado, louco... Enfim, se no Servo não havia beleza que nos atraísse, se Ele era tudo o que nós não esperávamos, não admira que Jesus tenha nos ensinado que todas as nossas atitudes para com o menor de seus pequeninos eram contadas como feitas a Ele mesmo. Admira, sim, que não aprendamos essa lição! Que uma música não cristã despretensiosa possa levar-me a pensar sobre esse ensino do Mestre. "Deus está, mas não apenas, nos detalhes", como diria um amigo meu. (Isaías 53; Mateus 11.19; Marcos 6.3; João 4.42 ... Mateus 25.40)

A intimidade com Deus sempre surpreende.

Já pensou, entre as nuvens do céu, quando nada mais importa, nenhuma distração pode lhe assaltar, quando luz alguma pode atrapalhar sua clara visão nem barulho ensurdecê-lo, como na tranquilidade de um mergulho iluminado, você de repente contemplá-lO e dizer: "Já nos vimos antes, não?"; E Ele lhe responder, "Não diria que uma vez apenas. Mas sempre fiquei feliz quando nos encontramos. Mesmo no ônibus lotado na volta para casa."?

25 de maio de 2015

Por que não sinto o sabor do mel?

"O mandamento do SENHOR é puro e ilumina os olhos". (Salmo 19.14)

Quando refaço minha leitura bíblica total (eu nem chamo mais de leitura bíblica "anual", porque nunca consigo fazê-la coincidir com um ano!), tenho dificuldades com a fluência da leitura do Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia, escritos por Moisés, conhecidos como "a Lei".

E por vários motivos: as repetições, o excesso de descrições - gosto  mais de narrativas e poesias; as genealogias, as medidas em padrões que não são os nossos, os recenseamentos; as coisas que simplesmente não entendo por diferenças culturais ou porque não consigo encontrar a razão de certos mandamentos... Bem, sei que não sou o único, e que muitos desanimam e desistem diante de alguns desses ligeiros obstáculos.

A Lei de Moisés pode desanimar mesmo. Principalmente leitores de primeira viagem, que não estão familiarizados com seu estilo e que não entendem o propósito de vários trechos estarem lá. É importante saber que muito da Lei ficou obsoleto e desnecessário porque, simbolizando o futuro sacrifício de Cristo na cruz pelos nossos pecados, já foi cumprido de uma vez por todas. Certas coisas, como os sacrifícios, o tabernáculo, o sacerdócio levítico, as ordens acerca da pureza e impureza cerimonial anunciam o sacrifício perfeito de Cristo e o nosso relacionamento com Deus na pessoa de Jesus, que aconteceu na "plenitude dos tempos" (Gálatas 4.3-4).

Todo rei de Israel deveria possuir uma cópia da Lei, lê-la e meditar nela diariamente, para aprender como obedecer à vontade de Deus (Deuteronômio 17.18 e seguintes). Assim, lendo o Salmo 19, cântico composto pelo rei Davi, podemos contemplar o entusiasmo dele em afirmar que "a lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma (...) Os preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração" (v. 7-8).

Mas se Davi tinha somente a Torá para ler ("perfeita", como ele declara no Salmo) com todos aqueles pedaços que achamos "cansativos", nos quais somos rápidos em apontar "falhas" que nos desanimam de ler, como Davi poderia cantar alegremente que as palavras que lá estão são "mais desejáveis que o ouro ... mais doces do que o mel que goteja dos favos" (Salmo 19.10)?

Certamente, para muitos de nós, agradaria um texto de pronta e clara aplicação, resumido... Quem sabe até esquematizado, com gráficos, figuras e tabelas? Como poderia Davi encontrar prazer em genealogias e descrições, projetos de mobília e cifras, detalhes sobre a lepra e algumas narrações da história de Israel? Como poderiam tais coisas levá-lo a cantar e não a dormir?

Davi encontrava em seu amor a Deus a bênção e a motivação de ver além das letras, de meditar para descobrir a vontade divina, os princípios pelos quais deveria guiar a si mesmo e à sua nação. Ele sabia que viver uma vida ao lado de Deus pode abrir nossos olhos para os nossos pecados, nos levar à integridade, contando com a graça e o perdão do Senhor.

Agora vamos revolucionar a pergunta e fazer alguns questionamentos: Se Davi, que tinha apenas a Torá (uma revelação ainda muito incompleta de Deus para nós à vista de tudo que ele ainda iria nos revelar, principalmente na pessoa de Jesus - Hebreus 1.1-2), tinha tanta alegria e prazer em meditar na palavra de Deus; e se ele encontrava nisso uma explosão de louvor e de motivação para servi-lo, por que isso também não acontece conosco? 

Por que a palavra de Deus não atinge os nossos corações da mesma forma? Onde está nossa paixão? Será que a nossa preguiça em ler e meditar na Bíblia não revela que na verdade não estamos dispostos a passar um tempo com Deus e nos empenhar para conhecer a vontade dele e servi-lo? Será que não estamos apenas levando a vida cristã "empurrando com a barriga"?

Quantas vezes na semana você já correu para a Bíblia para consultar algo, tirar uma dúvida ou estudar uma passagem? Quantos amigos você tem com quem, no meio de uma conversa, você possa refletir junto sobre algum ensinamento bíblico ou alguma dificuldade de entendimento? (Isso ajuda bastante na motivação!) Quantas vezes você saboreia a palavra de Deus em sua mente durante o dia ou a semana? Quanto você tem cultivado em sua vida coisas que têm lhe afastado da Palavra de Deus? Você abandonou sua instrução espiritual, de leitura e meditação nas Escrituras, e passou a depender apenas do sermão de domingo na igreja?

Que possamos, como Davi, encontrar a Deus e a alegria de servi-lo; esperança, louvor e consolo nas páginas das Sagradas Escrituras!

15 de maio de 2014

Novo Testamento em áudio para download gratuito

Sei que tem gente que tem uma preguiça enorme de ler a Bíblia. Mas que tal ouvi-la? Não sei se vocês já ouviram falar no projeto "A Fé vem pelo Ouvir" (a Bíblia em áudio) e do Filme Jesus, que é muito usado para evangelizar pessoas de outros países (pois conta a história de Jesus exatamente como está na Bíblia, e já foi traduzido e dublado para dezenas de línguas).

Pois bem, o site www.bible.is está disponibilizando, gratuitamente, além da Bíblia em várias línguas para ler online, a Bíblia em áudio para fazer download para o seu computador - e o melhor: nas traduções Almeida Revista e Corrigida e Nova Tradução na Linguagem de Hoje.

Essas versões são dramatizadas, ou seja, várias vozes interpretam os diferentes personagens, o que torna a audição mais empolgante. Fiz um "test drive" aqui da versão Corrigida (ouvi Lucas 2 e Apocalipse 2) e achei fantástico. Vale lembrar que há o áudio apenas do Novo Testamento em português. Mas você também pode encontrar o áudio de outras línguas - em inglês, por exemplo, você encontra o do Antigo Testamento também. 

Na página do Bible.is você assiste à Bíblia em linguagem de sinais de outros países, porém, ainda não tem em LIBRAS - infelizmente. E o Filme Jesus de que eu falei no início também parece estar disponível para o aplicativo deles (Android e iOS).

De qualquer forma, fica a recomendação da página com esses recursos e um pedido de que compartilhem isso, pois pode ser muito útil para pessoas que têm dificuldade, impossibilidade (ou preguiça...!) de ler, e para pessoas que não têm acesso à internet, já que pode ser compartilhada por pendrive, né?

Deixo bem claro que ler a Bíblia ao invés de apenas ouvi-la ajuda muito mais na aprendizagem e na meditação, pois possibilita o estudo do texto. Se puder, não fique só no áudio. 

24 de fevereiro de 2014

Uma crítica à crítica

Final de 2013, como se não bastasse a agitação típica de fim de ano, junte a isso o stress das apresentações de monografias, e a ansiedade das últimas semanas para o fim de quatro anos de curso. Foi nesse clima tenso que uma polêmica mobilizou toda a comunidade acadêmica, e só foi solucionada graças à capacidade conciliadora do diálogo. Sem entrar aqui em detalhes, o que importa é que ao final este episódio trouxe um grande aprendizado pra mim: o exercício da crítica é essencial para melhorar como pessoa.

Sim, isso mesmo. Em meio a tanta discussão, foi o comentário de um professor que trouxe lucidez àquele polêmico debate (não foram estas as palavras exatas que ele usou, mas a ideia é a mesma): “A universidade é o ambiente por excelência da crítica. Não podemos simplesmente parar de criticar por qualquer que seja o motivo, porque é a partir da crítica que se desenvolve o conhecimento humano. Sem crítica a universidade não tem razão de existir.”

De fato, a crítica é uma atividade essencial na universidade e em todos os âmbitos da vida humana, mas que infelizmente tem sido negligenciada e até mesmo condenada. Chega a ser algo paradoxo que a crítica seja assim tão criticada. Dedico este texto a trazer um olhar crítico sobre as principais críticas contra a crítica, e alternativas aos argumentos incoerentes. É uma forma também de desabafo, por muitas vezes ter sido desencorajada a exercer o pensamento crítico, principalmente no ambiente da igreja.

1.    “Não critique se você não pode fazer algo melhor.” Sincero, mas errado. Imagine só, se ninguém pudesse criticar um filme, um livro, uma música ou qualquer coisa, só porque não sabe fazer algo melhor! Claro que o ideal seria que o ato de criticar nos levasse sempre a um futuro melhor que o presente. Mas a incapacidade de melhorar algo não diminui a relevância da crítica feita. Pelo contrário, a crítica se torna ainda mais efetiva, pois atinge tanto o criticado como também o crítico, ambos são levados a fazer uma autocrítica e melhorarem no que for necessário. Em vez disso eu diria: “Tem o direito de criticar aquele que quer ajudar a construir algo melhor.”

2.    “Quem é você pra criticar?” Esse argumento é usado para destruir a autoridade do crítico. Como se a permissão para exercer a crítica só fosse dada àqueles que tivessem uma vida moralmente correta em todos os aspectos (perfeita), sob o risco de sua crítica se tornar hipocrisia. Ora, isso é impossível! Quem é que nunca errou, e assim tornou-se também passível de críticas? Não ser perfeito não me impede de criticar o erro. Muitos usam até aquele versículo, totalmente fora de contexto: "Não julguem, para que vocês não sejam julgados.” (Mt 7:1) Mas esquecem da segunda parte: “Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados.” (Mt 7:2) Ou seja, não há aqui uma proibição à crítica, mas apenas um alerta: “Você pode criticar desde que esteja também aberto a receber críticas.”

3.    “Quem critica é porque não faz nada.” Imagino um crítico de cinema, economia ou política, uma pessoa que por muitos anos investiu tempo, dinheiro e inteligência para que pudesse exercer com credibilidade e responsabilidade sua profissão de “formador de opinião”, sendo acusado de vagabundo e desocupado! É cômico, para não dizer trágico. É um exemplo extremo, mas o que percebo é que este comentário tem sido usado repetida e levianamente. Não estou negando que há realmente pessoas que acham confortável ficarem sentadas e ditando ordens, corrigindo no trabalho alheio problemas que não existiriam se elas estivessem ali também cooperando. Mas há muitas situações em que o erro se tornou tão normal, que já não é mais facilmente corrigível, por mais esforço que se possa empregar. E nem por isso se deve ficar calado assistindo o desastre. “Quando não há nada que você possa fazer para ajudar a mudar, sua crítica já é um importante passo para a mudança.”

4.    “Quem critica é porque se acha superior.” Essa é clássica. E sempre vem acompanhada de uma expressão de orgulho ferido, que apenas demonstra que às vezes há na verdade é um senso de inferioridade no sujeito criticado, que por não saber receber ou responder uma crítica já assume o papel de coitado. É óbvio que o crítico também pode vir a ser orgulhoso e arrogante, mas nem sempre. O que estou dizendo aqui é que a soberba e a superioridade residem não na crítica em si, mas muito mais na forma de criticar ou de acolher a crítica. A crítica saudável deve ser realizada (e recepcionada) com discrição (Mt 18:15), santidade (Mt 7:1-5), humildade e submissão (Fp 2:3), mansidão e autoavaliação (Gl 6:1) e respeito (1 Pe 3:15)“Tanto o crítico como o criticado devem ter humildade e amor para reconhecerem mutuamente seus defeitos e qualidades.”

5.     “A crítica destrói relacionamentos e traz desunião.” Certa vez, após eu ter discordado de um assunto na igreja, me entristeci ao ouvir o seguinte comentário: “Quem questiona está sendo usado pelo diabo para implantar divisão no meio do povo de Deus.” Ao contrário do que esta pessoa pensava, a união verdadeira não suplanta as individualidades. O divergir, o criticar e o questionar apenas revelam que a igreja é uma comunidade de pessoas com opiniões diferentes, mas todas unidas por um mesmo propósito. E graças a Deus por isso! Que monótona seria uma igreja, uma universidade, uma família, uma empresa, enfim, um mundo onde todos pensassem do mesmo jeito. Indo na mesma linha do argumento anterior, podemos perceber que, na verdade: “A crítica quando bem feita e bem recebida tem a capacidade de melhorar os relacionamentos.”

6.    “A ideia da crítica é somente desconstruir.” Sim e não. ‘Sim’, porque a crítica realmente desfaz pensamentos, quebra paradigmas e analisa argumentos. Neste sentido, a crítica é negativa, porque é a negação de uma ideia. ‘Não’, porque a crítica também pode (e deve) ser positiva, quando bem utilizada. Quem já estudou dialética sabe o que é tese, antítese e síntese. Este é o modelo da crítica ideal: avaliar a tese (construção), desenvolver uma antítese (descontrução) e produzir uma síntese (reconstrução). Não é errado ‘desconstruir’. Errado é ‘destruir’. Ou seja, a crítica não é um fim em si mesma, não se pode criticar por criticar. É preciso criticar e propor algo melhor. “A ideia da crítica é que toda desconstrução seja (re)construtiva.”

7.     “Existem algumas verdades que não precisam ser criticadas.” Sim, eu acredito em verdades absolutas. Mas o fato de serem absolutas não quer dizer que não devam jamais ser criticadas. Alguém certa vez me disse: “Você não deve criticar aquilo em que acredita. Quem acredita não questiona, apenas aceita.” É isso mesmo, produção? Primeiro: isso é totalmente irracional. Se algo é absolutamente verdade, então se manterá firme não importa quantas críticas lhe sejam feitas. Claro que nunca encontraremos respostas para tudo. Mas podemos encontrar um sistema de ideias (cosmovisão) que explique de maneira mais coerente o maior número de questionamentos. E eu já encontrei essa cosmovisão: para mim é o cristianismo bíblico. Segundo: isso é totalmente antibíblico. Não podemos dividir o mundo em verdades sagradas e intocáveis de um lado e ideias profanas e questionáveis de outro, baseados puramente em critérios subjetivos e imperfeitos. A Bíblia nos recomenda, ao contrário, julgar todas as coisas e reter o que é bom. (I Ts 5:21) “Tenha sempre uma atitude de crítica positiva e construtiva em relação a tudo.”

8.    “Existem algumas pessoas que não devem ser criticadas.” Essa parece ser a mais absurda, mas infelizmente é uma das mais usadas. O erro do culto à personalidade é observado no mundo lá fora (ídolos, astros, ditadores, intelectuais, cientistas) e aqui dentro das igrejas, (apóstolos, bispos, pastores, levitas, papas). “Não critique o ungido do Senhor” (Sl 105:15) é o grito de muitas pessoas. Mas na verdade todos são imperfeitos e estão igualmente sujeitos a críticas. Sem falar que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.” Jesus é um exemplo para nós, pois mesmo sendo o único ser humano perfeito que já existiu, foi também alvo de críticas e jamais se esquivou delas, antes respondeu todas sempre de modo adequado.“Todas as pessoas são passíveis de crítica, até mesmo os críticos, pois ninguém é perfeito.”

9.     “A crítica é um mal que surge nas universidades e os jovens querem implantar na igreja.” Essa eu ouvi na escola dominical e foi de cortar o coração. Sim, há muitas coisas prejudiciais no ambiente universitário, das quais os jovens devem se proteger e se preparar para combater. Mas definitivamente o pensamento crítico não é uma delas. Até porque a crítica não surge na universidade (pelo contrário, é bem anterior a esta), o que acontece é que infelizmente muitos só têm o primeiro contato com ela quando ingressam no ensino superior. Não estou defendendo aqui o método histórico-crítico, o relativismo, o desconstrucionismo e todas essas outras baboseiras filosóficas que impregnam as universidades e insistem em tentar provar que o cristianismo é frágil à critica. Todos estes erraram, não pelo método errado, mas pelo pressuposto errado. Partiram da ideia de que crítica positiva é apenas aquela que no fim propõe algo novo. Não, a crítica deve propor o que é melhor. E se após ter passado pelo teste da crítica, for comprovado que o melhor é o que já existe, é com este que devemos ficar, mesmo que seja antigo, histórico e tradicional (como a Bíblia), mas é comprovadamente o mais confiável. “A crítica deve ser estimulada na igreja da mesma forma que o é na universidade, mas agora corretamente direcionada.”

10. “A Bíblia diz que é errado criticar.” Esta eu respondo usando as palavras do jornalista e teólogo Paulo Romeiro, extraídas do último capítulo do seu livro "Evangélicos em crise", com o tema “Discernir é preciso”:“Não é errado questionar. Quando Paulo chegou a Beréia, já possuía um currículo respeitado. (...) Nem por isso os crentes de Beréia foram ouvir o grande apóstolo pregar desprovidos de qualquer senso crítico. Mesmo tendo recebido a Palavra com avidez, na medida que Paulo e Silas ensinavam, eles examinavam as Escrituras para verificar se as informações eram corretas. E, ao invés de serem taxados de incrédulos ou duros de coração, Paulo disse que eles foram mais nobres do que os de Tessalônica (At 17.10-11). Que grande exemplo! (...) Está na hora de deixar de lado toda a ingenuidade e passar a desenvolver um ceticismo positivo e saudável. (...) O crescimento espiritual saudável depende do exercício constante do discernimento. O crente deve exercitar a sua consciência, os sentidos e a mente para saber a diferença entre a verdade e o erro.” “Criticar não é uma opção, mas um mandamento bíblico.”

Sei que não sou a pessoa mais indicada para falar sobre crítica. A verdade é que tenho dois grandes problemas relacionados a isto. Primeiro: excesso de crítica, vivo insatisfeita e procurando defeitos nas coisas, ideias e pessoas ao meu redor. O erro aí está na soberba. Segundo: medo de críticas, vivo insegura e me achando despreparada para responder com argumentos lógicos e coerentes, e por isso às vezes evito expor a minha opinião. Desta vez o erro é a omissão. Mas, como já foi exposto anteriormente, não ser perfeita não me impede de criticar, até porque também estou aqui fazendo uma autocrítica. Que Deus me ajude a exercer com responsabilidade e amor a sua ordem de discernir, bem como me dê humildade e força para receber os julgamentos.

Critiquem-me.

Por: Débora Silva Costa

21 de novembro de 2013

Direito e desrespeito.

Este texto foi escrito em outubro de 2009. Estou postando-o aqui, como forma de compilar alguns textos antigos que eu tinha postado em outros lugares. - Avelar Jr.

Esta semana, no “ROTA”, programa policial da TV Verde Vale de Juazeiro do Norte, foi noticiado um fato polêmico: a divulgação de uma fotografia em que a imagem de Padre Cícero Romão Batista aparece com batom e esmalte nas unhas. A fotografia apareceu no livreto de divulgação de uma exposição de arte LGBT, que estava ocorrendo em Barbalha.

Padre Cícero é uma figura religiosa do catolicismo caririense. Tido por santo porém ainda não canonizado, sua fama atrai romeiros e devotos de todo o país, que vêm a Juazeiro todos os anos em busca de proteção e em gratidão pelos milagres obtidos.

A polêmica envolvendo o desrespeito à imagem do santo está sendo amplamente debatida na região caririense, e a população tem se mostrado indignada com esta “manifestação artística” promovida pela GALOSC, entidade local do movimento LGBT.

A igreja católica manifestou-se contra o ocorrido, considerando um desrespeito ao sentimento religioso dos seus fiéis, mormente porque o ato foi feito por entidade que luta pelo respeito aos direitos de uma classe, ao mesmo tempo em que desrespeita o sentimento religioso e a própria imagem do Padre Cícero. A igreja não descarta a possibilidade de ação judicial em resposta.

Não é a primeira vez que algo assim ocorre. Recentemente, na Espanha, um calendário em que quadros de arte sacra conhecidos ganharam uma versão LGBT, com seus personagens representados por “drag queens”, travestis e transexuais, com roupas decoradas com preservativos e outros objetos, causaram revolta e críticas. 

Diante de fatos assim, pergunta-se: quais são os limites éticos para a luta por direitos num regime democrático, em que os direitos de todos devem ser igualmente preservados? A resposta é muito simples e até clichê: meu direito termina onde o dos outros começa.

A atitude passa a ser ainda mais condenável e ilógica no momento em que utiliza em seu favor a imagem de um ser humano de opinião presumivelmente contrária, falecido, e que é reverenciado e respeitado pela religiosidade popular (objeto de culto), ignorando a ofensa causada no íntimo dos detentores desta, que nada tinham a ver com o assunto. Como se pode exigir respeito quando não se respeita em primeiro lugar? Agindo assim, o movimento LGBT local terminou por dar um tiro no próprio pé.

Entendo que tal movimento, como qualquer outro, é formado por indivíduos bons e maus, éticos e antiéticos, porém jamais idênticos: opinião, bom-senso, respeito, princípios e ética variam de indivíduo para indivíduo, não havendo total uniformidade. Certamente, portanto, nem todo mundo que é LGBT compactuaria com o que foi feito para fins de arte e divulgação, vez que há formas civilizadas e respeitosas de se fazer qualquer tipo de obra, compatíveis com a convivência harmônica dos indivíduos de uma democracia como sujeitos de direito e sujeitos ao direito.

Não sou católico romano, mas, deixando minha opinião sobre o ocorrido, devo dizer que considero um ato reprovável, infeliz, abusivo e de extremo mau gosto, totalmente desnecessário. Há muitas maneiras legítimas e belas de se fazer arte e defender ideias, mas creio que, no mar do infinito de opções, mexer com o sentimento religioso do próximo e com seus direitos não é a melhor.

Eu jamais me sentiria confortável em me valer da imagem de algum ser humano de forma desrespeitosa e contrária à sua opinião. O que eu ganharia com isso? Respeito se conquista, se merece. Havendo como eticamente ganhar e merecer respeito, como posso agir de forma contrária e ofensiva e esperar compreensão e acatamento alheios?

Sinceramente, não creio que todos os homossexuais compactuem com atos assim, como também o povo não compactua com todos os atos de seus representantes eleitos, como grupos discordam de vez em quando de suas lideranças, portanto, não devem ser maltratados ou desprezados pelos erros de quem os afirma representar mas age mal.

O homem, segundo a Bíblia, foi feito à imagem de Deus. Assim, sua dignidade merece ser preservada; bem como seus valores, suas crenças, seus sentimentos, seu íntimo, sua liberdade. O Estado de direito exige para garantir que tais direitos sejam igualmente assegurados a todos. No momento em que atentamos contra a dignidade de alguém, mostramos que não lhes valorizamos como seres humanos. E se ao mesmo tempo em que dizemos que lutamos por dignidade e direitos, calcamos aos pés os dos outros, lutamos por que mesmo?

12 de novembro de 2013

Adeus, baleia!

"O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende." - Isaías 1.3

Recentemente o ENEM (como sempre!) foi foco das notícias na internet. Esse exame nacional que objetiva avaliar o nível do estudante de ensino médio no Brasil, pode ser aproveitado como complemento ou substituto do vestibular para ingresso nas universidades brasileiras. Por isso, muitos correm a prestá-lo, na esperança de realizar seu sonho de atingir o diploma de nível superior de um bom curso universitário.

Este ano, muitas pessoas deram a prova de sua incapacidade e imaturidade no ENEM, infringindo normas simples previstas no edital, de maneira extremamente digna de pena, como, por exemplo, por postar fotos da prova durante a realização delas nas redes sociais, portar e utilizar equipamentos eletrônicos não permitidos e, até mesmo, deixar o local de prova antes do horário permitido: demonstrações da falta de mera leitura e do conhecimento mínimo das regras da avaliação.

Na minha adolescência, quando me converti, muitas pessoas que se chatearam com esse fato tentaram me convencer do meu "erro" de me tornar "crente". Até mesmo alguns "ex-crentes" me vieram tentar convencer de que sua igreja atual era "a certa", apresentando-me vários argumentos tortos. Na época, eu simplesmente ouvia os argumentos, não discutia. Minha conversão era a Cristo, não a uma igreja ou religião, como muitos pensavam.

Como eu podia discutir com pessoas que supostamente entendiam a Bíblia mais do que eu se eu não a conhecia por inteiro? O mais prudente nesses casos é calar, ao invés de dizer besteiras. Calado, você até se passa por sábio, mas, abrindo a boca para falar do que não sabe... Mas uma testemunha de Jesus não pode viver calada, porque até a sua vida fala.

Bom, eu precisava mesmo, como crente, ler a Bíblia. Já que digo que minha fé e minha vida devem se basear nela, como posso ignorar seu fundamento? Ser crente e não conhecer a palavra de Deus é como construir e morar numa casa sem alicerce, ignorar que um prédio não pode ser construído de cima para baixo ou sobre um vácuo. Isso explica o fato de existirem vários ex-membros de igrejas evangélicas, que vez por outra encontramos, dando testemunhos que apenas demonstram que tudo em sua vida foi fruto de má-compreensão, insegurança, erro, engano, emocionalismo e falta de compromisso com Deus.

Podem reparar que a maior parte deles sublinha em seus testemunhos, mesmo que implicitamente, que mudaram de igreja, que encontraram a igreja certa, a religião certa etc. Nunca Deus ou Jesus Cristo é o centro do testemunho, mas uma trivialidade qualquer que glorifica não a Deus, mas ao homem ou às instituições deste.

Bom, a vida não é um ENEM, mas é cheia de questionamentos. E, voltando ao início, mesmo depois de algum tempo de convertido, eu percebia que minha necessidade de conhecer as Escrituras era real. Mas sempre dava uma desculpa para não ler a Bíblia toda (e na época, tudo que eu tinha era um Novo Testamento daqueles distribuídos nas escolas pelos Gideões)... Até que um dia algo engraçado fez dedicar-me à leitura...

Estava na sala de estar do dentista, esperando minha vez de ser atendido, e vi uma menininha alegre brincando com seu pai. Ouvi quando mencionaram a história de Jonas e a "baleia" e pensei: "que vergonha, até essa menininha sabe quem são Jonas e a baleia... e eu nem sei quem são! Preciso criar vergonha na cara e começar a ler a Bíblia de vez".

Chegando em casa, comecei. Levei três dias para ler Gênesis, na bibliazona católica que temos em casa. Em pouco mais de cinco meses, li a Bíblia inteira (nesse ínterim, consegui comprar minha primeira Bíblia, e terminei a leitura nela!).

O fato é que todos nós somos desafiados pelos "ENEMs" da vida diariamente. Temos de nos posicionar e de opinar, defendendo a palavra de Deus diante de uma cultura cada vez mais distante e contrária ao cristianismo. Temos de responder aos questionamentos de outras religiões e filosofias, que buscam substituir a necessidade da fé exclusivamente em Jesus Cristo para chegar-se a Deus por qualquer outra coisa que diminua ou exclua a soberania e singularidade dele nesse assunto. A falta desse conhecimento é a grande causa da fraqueza da igreja atual, fazendo com que muitos se enganem quanto à fé ou se desviem dela. 

Tenho visto que muitos dos "ex-crentes" que conversaram comigo sobre a razão de estarem "desviados" ou de terem deixado a fé não entenderam o evangelho com clareza, mesmo tendo ocupado postos de ensino nas igrejas ou agremiações onde estiveram. Outros simplesmente decidiram ceder a seus impulsos e vontades e deram as costas para o discipulado de Cristo conscientemente. O assunto é sério. Não basta apenas ler a Bíblia, lógico. Deve-se estudá-la e praticá-la - coisas que muitos não estão dispostos a fazer.

Depois de ler a Bíblia e estudá-la, tendo segurança para falar, vi que muitos argumentos que outras pessoas puseram diante de mim contra ser "crente" não passavam de tolices e preconceitos vindos de pessoas que se banharam de religião: palavreado, práticas, emoções e sentimentalismo, mas que não nasceram de novo. Viviam em volta de Cristo, mas Cristo não vivia nelas. E isso ficou bem mais claro para mim.

Hoje, sei que a "baleia" não era mesmo uma baleia... Mas Jesus é o mesmo, ontem, hoje e sempre. E sua palavra é eterna, um convite aberto ao amor de Deus, que fica mais brilhante a cada dia. Saia da baleia e leia a Bíblia você também!


"...as ovelhas ouvem a sua voz [o pastor, simbolizando Jesus]. Ele chama as suas ovelhas pelo nome e as leva para fora. Depois de conduzir para fora todas as suas ovelhas, vai adiante delas, e estas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas nunca seguirão um estranho; na verdade, fugirão dele, porque não reconhecem a voz de estranhos" - João 10:3-5

25 de abril de 2013

O Mito do Legalismo


Autor: Thomas Schirrmacher
Originalmente publicado em Monergismo

Proposição: Paulo, ao advertir contra o legalismo, não combate o guardar os mandamentos de Deus em fé, mas sim o considerá-los equivocadamente como um caminho para salvação, forçando os crentes gentios a guardar a lei cerimonial, ou tentar guardar a Lei independentemente de Cristo.
“Legalismo” está se tornando rapidamente um slogan usado para reprovar alguém que apela à Lei Bíblica. O termo é bíblico? A Escritura expressa tal crítica? Visto que a palavra em si – isto é, uma palavra grega ou hebraica correspondente – não ocorre na Bíblia, aqueles que usam-na como um termo de reprovação deveriam definir sua substância bíblica.
Embora preferisse eliminar completamente a expressão do nosso vocabulário, eu poderia concordar em limitá-la ao significado dado pelos Pais da Igreja: “o esforço para alcançar a justificação pelas obras da lei”. Isso, no entanto, não é o que normalmente se quer dizer, nem é adequado.
Gordon H. Clark assume que “Legalismo” na história da igreja sempre significou a expectação de que o homem poderia ganhar a salvação guardando a Lei. [1] O oposto seria a justificação pela fé, que leva à correta obediência da Lei. Clark continua:
No presente século, a expressão “legalismo” tomou um novo significado. A ética situacional despreza regras e regulamentos. Qualquer pessoa que obedeça conscientemente às leis de Deus é chamada de legalista. Por essa razão, Joseph Fletcher aprova a quebra de qualquer um dos Dez Mandamentos, e dessa forma transfere o significado negativo do “Legalismo” para o ética histórica do Protestantismo. [1]
É triste que isso não seja verdade apenas sobre a ética situacional, mas também dos fundamentalistas que creem que a Lei foi abolida e que então declaram qualquer sistema ético construído sobre a Lei como sendo legalista. Contudo, o legalismo não pode ser substituído pela ilegalidade. Greg L. Bahnsen escreve:
A resposta ao legalismo não é a crença fácil, o evangelismo sem a necessidade de arrependimento, a busca de uma segunda bênção mística do Espírito, ou uma vida cristã destituída de instrução e orientação corretas. O legalismo deve ser combatido com um entendimento bíblico da verdadeira ‘vida no Espírito’. Em tal viver, o Espírito de Deus é o autor gracioso da nova vida, que nos convence do nosso pecado e da miséria contra a lei violada de Deus, que nos une a Cristo na salvação para que possamos participar de Sua vida santa, que nos capacita a entender a orientação dada pela palavra de Deus, e que nos faz crescer pela graça de Deus, tornando-nos pessoas que obedecem aos mandamentos de Deus. [2]
 O Novo Testamento descreve cinco maneiras de usar incorretamente a Lei:
1. Guardando a Lei para ser justificado e salvo. (Veja Rm 3.21-4:25, Ef 2.9-10)
2. Impondo a lei cerimonial sobre os outros. (Gl 4.9-11, Cl 2.16-17, o Livro de Hebreus)
3. Adicionando regras e tradições humanas à Lei divina. (Mc 7.1-15, Mt 15.1-9)
4. Esquecendo-se de coisas essenciais em favor de questões menores. (Mt 23.23)
5. Estando preocupado somente com a obediência externa à Lei de Deus. (Mc 7.18-23, Mt 15.15-20, Mt 23.27-28)
O Novo Testamento não condena o seguinte:
1. Assumir que a lei moral de Deus é incomparavelmente boa, justa santa e espiritual. (Rm 7.12, 14, 1Tm 1.8. Compare Salmos 19, 8-12 e Salmos 119)
2. Desejar guardar os mandamentos morais de Deus num espírito de filiação (não de escravidão) e no poder do Espírito Santo. (Rm 8.2-4, 3.31)
3. Admoestar os outros sobre a base da Lei divina, quando isso é feito com a atitude correta. (Ef 6.1-4)
4. Apelando à Lei moral de Deus. (Tiago 2.6-12, Rm 13.8-10)
5. Exercendo disciplina eclesiástica. (Gl 5.18-23; 1Tm 1.5-11)
Alfred de Quervain escreve de maneira similar:
Tem sido dito que restringir nossas ações à Escritura cria legalismo, que o homem está livre do legalismo somente quando ele mesmo mesmo determina a lei. Na verdade, aquele que em seu orgulho usa a Lei de acordo com sua própria opinião, age legalisticamente. Esse é o caso, quer ele pretenda guardar a letra da lei ou abandonar a lei escrita e inventar a sua própria lei. [3]
A Escritura nunca é legalista. Ninguém que deriva os seus valores da Palavra de Deus pode ser considerado legalista. Emil Brunner expressou isso bem, sem, contudo, aplicar o princípio em seu próprio sistema ético. [4]
Assim como a Escritura sem o Espírito é Ortodoxia, o Espírito sem a Escritura é falso Antinomianismo e fanatismo.[5]
O legalismo nunca deveria ser usado como slogan contra aqueles que se referem aos mandamentos de Deus, mas deve ser definido de acordo com a Bíblia e então rejeitado com base nela. Se alguém interpretar legalismo como significando o mau uso da Lei, então tal pessoa deve esclarecer a partir da Escritura o que o mau uso implica e como a Lei deve ser corretamente usada. A lista mencionada acima fornece cinco formas de legalismo e cinco usos apropriados da Lei. [6]
Neste contexto, Eduard Böhl, o professor vienense de Dogmática, enfatiza a importância de Lei de Deus para os cristãos, pois somente a Lei de Deus dá uma orientação para identificar leis e tradições falsas:
Não podemos banir a Lei do relacionamento que existe em Cristo entre Deus e o crente: não podemos buscar novos regulamentos para a nossas ações ou, de fato, elevar o nosso capricho próprio ao status de lei. Não fomos redimidos para viver de acordo com regras éticas particulares ou doutrinas de perfeição, mas para cumprir a Lei de Deus (1Co 7.19, Gl 5.6, Rom. 8:4, 13:10). A Escritura ensina claramente que o crente deve ser mantido nos caminhos da santificação pelo Espírito Santo, mas Ele usa a Palavra de Deus, particularmente os Dez Mandamentos como a norma e o governo das nossas vidas. [7]
Böhl também critica o Pietismo por sua tendência a formular novas leis piedosas no lugar da lei bíblica que ele rejeita:
O Pietismo foi apanhado neste temor, quando fez da justificação o requerimento para a santificação; a santificação parecia portanto ser uma continuação da justificação, que deveria ser provada na santificação. Essa atestação da fé pelas boas obras levou a um conjunto de expressões e características da fé da pessoa bem diferente daquele conjunto da lei divina. A genuinidade da justificação era testada por outro patrão que não a Lei de Deus. O homem criou um tipo de nova lex (nova lei), uma para o crente verdadeiro. [8]

[1] Gordon H. Clark, “Legalism”, Baker’s Dictionary of Christian Ethics. ed. Carl F. Henry (Grand Rapids, Mich.: Baker Book House,1973) p. 385; reimpresso em Gordon H. Clark, Essays on Ethics and Politics(Jefferson, MD: Trinity Foundation, 1992) p. 150.
[2] Ibid.
[3] Greg L. Bahnsen, By This Standard: The Authority of God’s Law Today (Tyler, Tex.: ICE, 1985) pp. 67-68.
[4] Alfred de Quervain, Die Heiligung, Ethik, Part 1 (Zollikon: Evangelischer Verlag, 1946) p. 259.
[4] Schirrmacher, Ethik, Vol. 1, pp. 297-304 sobre Brunner (pp. 292-306); Thomas Schirrmacher, Das Mißverständinis des Emil Brunner: Emil Brunner’s Bibliologie als Ursache für das Scheitern seiner Ekklesiologie, Theologische Untersuchungen zu Weltmission und Gemeindebau, ed. Hans-Georg Wünch und Thomas Schirrmacher (Lörrach, ermany: Arbeitsgemeinschaft für Weltmission und Gemeindebau, 1982); Thomas Schirrmacher, “Das Mißverständnis der Kirche und das Mißverständnis des Emil Brunner”,Bibel und Gemeinde 89 (1989), pp. 279-311.
[5] Emil Brunner, Das Gebot und die Ordnungen (Zürich: Zwingli Verlag, 1939) p. 79.
[6] Veja também Robertson McQuillkin, An Introduction to Biblical Ethics (Wheaton, Ill.: Tyndale House Publ., 1989); David Chilton, Productive Christiians in an Age of Guilt – Manipulators, op. cit., pp. 22-25, lista quatro formas de legalismo; 1. Justificação pelas obras; 2. Tornar a lei cerimonial obrigatória; 3. Tornar leis humanas obrigatórias; 4. A confusão de pecado com crimes processados pelo Estado.
[7] Eduard Böhl, Dogmatik: Darstellung der christlichen Glaubenslehre auf reformiert – kirchlicher Grundlage (Amsterdam: Scheffer, 1887), p. 515.
[8] Ibid., note 1, p. 515

3 de novembro de 2012

Pedras falando e pedras rolando


"Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome. Nesse tempo muitos serão escandalizados, e trair-se-ão uns aos outros, e uns aos outros se odiarão. E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos. E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará." 
Mateus 24:9-12
"Tenho-vos dito estas coisas para que vos não escandalizeis. Expulsar-vos-ão das sinagogas; vem mesmo a hora em que qualquer que vos matar cuidará fazer um serviço a Deus. E isto vos farão, porque não conheceram ao Pai nem a mim. Mas tenho-vos dito isto, a fim de que, quando chegar aquela hora, vos lembreis de que já vo-lo tinha dito. E eu não vos disse isto desde o princípio, porque estava convosco."  
João 16:1-4
"E disseram-lhe [a Jesus] de entre a multidão alguns dos fariseus: Mestre, repreende os teus discípulos. E, respondendo ele, disse-lhes: Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão."
Lucas 19:39-40 


Os brasileiros estão cultivando o evangelho que merecem. Por isso não vemos conversões legítimas e impactantes proporcionais à taxa de crescimento dos evangélicos. Quando os ateus nos criticam dizendo que se tivermos um governo evangélico teremos uma ditadura sem liberdades, eu devo concordar. Nosso problema é tão sério que até as pedras estão clamando; porque, quando os de dentro falam, logo o povo gado evangélico os trata da mesma forma que o povo de Israel, distante de Deus, tratava seus profetas: pedradas, ofensas, ameaças e [só falta isto:] morte. E isto não me surpreende nem um pouco, pois quem segue a Cristo deve saber que estar aqui por Jesus é estar aqui para isso.

26 de setembro de 2012

Já não se fazem mais profetas como antigamente


“Sim, estou contra os que profetizam sonhos falsos", declara o Senhor. "Eles os relatam e com as suas mentiras irresponsáveis desviam o meu povo. Eu não os enviei nem lhes autorizei; e eles não trazem benefício algum a este povo", declara o Senhor.” – Jeremias 23:32

Dia desses conversamos na escola dominical sobre os problemas que os “profetas” atuais causam no meio cristão, considerando que o uso desse termo, todo revestido de autoridade, encontra-se bastante desgastado entre os evangélicos, levando a equívocos e desvios doutrinários.

Profeta Jeremias, de Michelângelo
Para começar, precisamos conceituar o que seria um “profeta”. Basicamente existem dois tipos: aqueles a quem a vontade de Deus era revelada, que foram guiados a serem suas testemunhas junto ao povo de Israel, transmitindo-lhes revelações, que incluíam alertas, condenações, encorajamento e previsões de acontecimentos futuros, que foram registrados na Bíblia. Também existem os profetas encarregados de falar em nome de Deus, como meras testemunhas, proclamadores da palavra que já foi revelada antes, sem nenhuma previsão futurista. Nesta acepção, todo crente nascido de novo é um “profeta”, pois deve testemunhar de Jesus, fazendo discípulos e transmitindo-lhes seus ensinos.

Hoje em dia, é comum demais falar-se em “profecias”, ainda que não haja nelas nada de relevante e verdadeiro a se comunicar. E, olhando de perto, várias delas falham em se ajustar aos padrões descritos nas Escrituras, em matéria de veracidade, doutrina e testemunho.

Na Bíblia, percebemos que os profetas nunca foram conhecidos ou julgados pelos bens materiais que possuíam. E, em geral, ao contrário dos muitos intitulados “profetas” de nossa época, que ostentam patrimônios bem superiores aos de seus correligionários, eram pessoas pobres, simples, trabalhadoras, que não detinham cargos elevados, eram submissos a lideranças, participavam ativamente dos eventos importantes do seu povo, não negociavam seus serviços, viviam em comunidades, alguns eram celibatários, não detinham legiões de admiradores e não se omitiam em condenar os erros cometidos por seus governantes – mesmo que isso pudesse lhes custar os bens, a reputação ou a vida, como fez Natã, Samuel e João Batista. Contrariamente, a geração “profética” de hoje usa seus talentos e oportunidades junto às autoridades do país, com as quais flertam, imiscuindo-se na política e no poder estatal, bajulando detentores de cargos públicos e pessoas famosas de seu interesse, com o intuito de ganhar reconhecimentos, honrarias ou algum lucro, como fez Geazi (2 Reis 5).

A coragem dos profetas de antigamente era tal que chegavam a encarar sua missão mesmo sabendo que ela não traria conversões em massa, como no caso de Jeremias, que foi testemunha em franca oposição ao povo ímpio de seu tempo, sendo alertado por Deus que este não iria se converter (Jeremias 7.27). Sendo assim, não podemos esperar que alguém fosse profeta por vontade própria ou, ainda, que fosse auferir lucros com sua atividade, quando esta era uma atividade que trazia antipatia da sociedade ao redor. O profeta exercia um ministério legítimo, decorrente da autoridade de Deus, da obediência à sua palavra, com o dever de proclamar a verdade desprezada pelas massas, tomando posição e sabendo que nem sempre trará números vistosos de pessoas aos apriscos celestiais.

Houve tempos em que Deus não levantou profetas, como antes do início do ministério de Samuel, onde a profecia era rara (1 Sm 3.1); e no período intertestamentário, conhecido como o período do “silêncio profético”, que se estendeu até a vinda de João Batista. Estes porta-vozes dos oráculos divinos sempre traziam consigo uma mensagem importante da parte de Deus para todo o povo, uma revelação da vontade divina.

Nem todos os profetas operavam milagres; João Batista, por exemplo, não realizou nenhum, mas foi considerado o maior dentre os nascidos de mulher, nas palavras de Jesus Cristo (Lucas 7.28). Daí percebemos que tampouco os milagres são fator determinante da importância de seu ofício.

Ninguém precisa vasculhar muito os vídeos postados na internet para comprovar que muitos “ministros” se utilizam de alegadas “revelações” dadas em causa própria, a fim de se defender de críticas fundadas aos seus “ministérios”—principalmente após condutas suas que escandalizam setores do povo de Deus que realmente se preocupam com o bom testemunho dos de fora, e com a imagem do evangelho (e que geralmente são tachados discriminatoriamente de “religiosos”, como se ser religioso fosse uma coisa desabonadora ou vexatória). Não contemplo, no entanto, os profetas de Deus nas Escrituras lamuriando-se como crianças mimadas ou utilizando-se de revelações com fim lucrativo direto ou indireto. Parece-me claro que as revelações eram dadas no interesse de Deus ou de Seu povo, não no interesse exclusivo do próprio profeta.

Se era tão difícil se levantar um profeta entre o povo de Deus que recebesse um oráculo divino na época do Velho Testamento, levando em conta a necessidade (porque a Bíblia não estava pronta e não tinha o formato atual, portanto, a palavra de Deus não era tão acessível ao povo como hoje) – e, mesmo no Novo Testamento, não se vê muito falar em profetas como pessoas tão extraordinárias... Por que hoje, com o pleno acesso que temos às Escrituras, que contêm toda a revelação necessária para o conhecimento do evangelho, da vontade de Deus e de como viver uma vida piedosa, Deus estaria levantando profetas para fazer o que vemos hoje?

E a que me refiro quando digo “o que vemos hoje”? Creio que nunca antes o ego humano conseguiu parir um enxame dessa magnitude, com tantas pessoas que se acham importantíssimas e “profetas” (algumas talvez se achem até essenciais ou messiânicas); que alegam ser detentoras de “revelações”; muitas das quais, quando não são coisas reveladas há séculos nas Escrituras, tratam-se de coisas óbvias, desimportantes, patéticas e descabidas.

Engraçado que, ao contrário do que acontece hoje, os profetas das Escrituras, parece-me, não viviam profetizando e recebendo oráculos vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana, despejando verborragias divinas. É o caso, por exemplo, de Jeremias, Ezequiel, Isaías e Daniel, os quais até registravam a data de algumas revelações ou visões recebidas, tipo: “nos dias do rei fulano de tal”, “no sétimo mês do ano tal”, “no décimo-terceiro ano do reinado de beltrano”...

Há pretensos ministros hoje que se gabam de ter revelações enquanto tomam banho, lavam o cachorro, jogam o lixo fora, enquanto, sei lá, fazem as necessidades... dizem que o “Espírito Santo” vive cochichando no ouvido... quase de cinco em cinco minutos! É tanta revelação se atropelando e caindo por cima uma das outras, que é quase como se tais profetas chegassem ao cúmulo de se ter de organizar os momentos “revelacionais” por ordem de chegada: “Dona Visão, aguarde aí só um minutinho na linha 2, é que estou ocupado recebendo a Senhora Revelação agora. Por gentileza, peço que aguarde, pois seu contato é muito importante para todos nós; e, em seguida, queira, por favor, avaliar a qualidade do nosso atendimento...”. Eu imagino a abundante maturidade de alguém que depende de revelações a cada minuto para poder viver a vida... E para guiar outras vidas?

E o pior é que os conteúdos são tão superficiais e sem substância para a vida prática da igreja cristã, do país... que eu não consigo associar tais coisas com pessoas sérias (imagine eu acreditar que vêm de Deus!). Essas “pérolas” oscilam entre coisas como “com que bota eu vou”, “que demônio vamos expulsar”, “onde a gente unge a calçada”, coisas incompletas... Não raramente, além do ridículo, vêm as heresias e os escândalos causados, que dividem opiniões dentro da igreja desnecessariamente... E quem lucra com coisa assim?

Penso, ainda, que alguns ministros evangélicos que alardeiam suas composições como “reveladas por Deus” pretendem, muitas vezes, criar certa aura de incontestabilidade, de inquestionabilidade, louvor que não é fruto de mérito, para evitar que suas canções, apresentações, letras, melodias ou ensinos, por vezes medíocres, sejam alvos de avaliações desfavoráveis por parte de quem encontre nelas algum desvio doutrinário, ou mesmo de quem não considere sua obra algo recomendável. Nesse caso, a alegada “inspiração divina” não passa de meio ardiloso para encobrir falhas e incompetência. Pois quem ousaria questionar uma coisa "vinda de Deus”? Na certa, a razão de quem segue estilo de vida assim se encontre no amor próprio, não na espiritualidade cristã; pois esta busca a sabedoria e a correção, a fim de alcançar a maturidade plena e a glória de Deus, encontrando no temor do Senhor o princípio da sabedoria.

Convém ressaltar, inclusive, que alguns defendem a autoridade de supostos profetas apenas pelo fato de que falam em nome de Deus. Mas este não é um critério suficiente. Deus, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, é claro em afirmar que as profecias devem ser provadas, oferecendo-nos alguns critérios; Jesus adverte que muitos virão em seu nome; Paulo diz que lobos vorazes sairiam do nosso meio (do meio da igreja). Logicamente um desses critérios de avaliação é o de que Deus não pode se contradizer. É um critério lógico. Ou Deus negaria a Si mesmo. Logo, é responsabilidade de todos nós conhecermos as Escrituras, que testemunham de Jesus e trazem as ferramentas necessárias para que sejamos obreiros perfeitos, aprovados por Deus, para que possamos julgar as profecias, obedecendo a Ele. (Também vale a pena ver alguns critérios para conferir a verdade de um profeta ou profecia em Deuteronômio caps. 18 e 13).

Algo que também precisa ser dito é que alguns crentes baseiam sua fé no princípio errôneo de que os fins justificam os meios. Ou seja: deu certo ou parece certo o que disse alguém, tal pessoa é, de fato, de Deus. Para exemplificar, lembro-me de que uma vez discutindo com um irmãozinho raivoso em uma comunidade no Orkut, ele me disse que apenas pessoas de Deus poderiam profetizar em nome dele. Mas ele nada disse depois que lhe mostrei que Balaão (que alude a um sinal do nascimento de Jesus, em Números 24.17) e Caifás (que profetizou a morte de Jesus pela nação dos judeus em João 11.49-51), os quais não eram pessoas que andavam segundo a vontade de Deus, profetizaram a respeito de planos d’Ele.

Algo que me assusta na avalanche de “profecias” que tenho visto é o excessivo otimismo que elas trazem e a ingenuidade com que contam para vingar. Sem contar a desconsideração pelos princípios mais basilares do evangelho, e a falta de resultados úteis e palpáveis também, como: 
  • as “profetadas” de várias celebridades gospel do fim do Carnaval (que, infelizmente, segue “bombando”); 
  • a veiculação de novelas gospel na TV (para entreter crentes empolgadinhos que pensam que as pessoas assistem a novelas para serem “evangelizadas”? Para massagear o ego dos crentes/denominações evangélicas, que podem se promover, vender sua marca institucional e lucrar com isso? Na maior parte do tempo a programação evangélica na TV tem sido vexatória, não mostrando de nada mais do que a mera exploração financeira de incautos.); 
  • oferecimento de mechas de cabelo como sacrifício pelos pecados, como se o sacrifício de Jesus na cruz não tivesse valido nada (e, não bastasse a bizarrice, de pecados de pessoas vivas e falecidas); 
  • a investida massiva da mídia pelos evangélicos (isso nem é profecia, é uma obviedade: se o número de evangélicos aumenta, a audiência segue, logo, seu tempo na TV acompanha o seu crescimento para poder atendê-los. E já faz tempo que existem horários comprados por igrejas na TV, que dão audiência. E alguém já contou quantas rádios evangélicas existem?); 
  • números exorbitantes de conversão a igrejas evangélicas por meio de... evangelização? Não, de “atos proféticos”! (“atos proféticos”, para quem não conhece o termo, é uma espécie de “simpatia”, “macumba gospel” – ver nota com algumas definições extraídas de um dicionário no final do texto – que, por mais que queiram definir com termos bíblicos e bonitinhos, não deixam de ser tentativas de influenciar Deus a mudar a realidade através de rituais simbólicos. Para acreditar nisso, você deve supor que Deus não acha suficiente que a gente ore e trabalhe para alcançar algo, que as pessoas se convertem pelo simples desempenho humano, que Deus é caprichoso, volúvel e influenciado a executar a própria vontade quando se praticam “atos proféticos”... Não vejo lógica alguma nisso hoje, pois torna o Deus soberano uma ferramenta eclesiástica. Já me mostraram supostos "exemplos bíblicos de atos proféticos", mas, ou eles são meras ocasiões em que alguém simplesmente obedece a uma ordem dada por Deus a fim de testemunhar simbolicamente algo que já está determinado para acontecer, ou outra coisa. Já disseram que a Santa Ceia é um exemplo de "ato profético", mas, na verdade, é uma "ordenança", um ritual; ela não transforma a realidade. Só seria "profética" no sentido de testemunhar a morte de Cristo; mas se fosse "profética" por ser assim, cultos, ordenanças, cantos, tudo viraria exemplo de "ato profético", difícil seria ter algo que não fosse um...); 
  • crentes urinando em postes e lugares estratégicos, como fazem os cachorros, ou ungindo-os, a fim de “demarcar território para Deus”; 
  • mudança dos elementos da ceia (que foram instituídos pelo próprio Cristo, e constam na Bíblia);
  • expulsão de entidades do candomblé de existência duvidosa (digo isto porque acredito que nem os próprios adeptos desta ou de outras religiões assemelhadas devam crer na existência de “entidades” que os crentes inventam e lhes atribuem, para poder anunciar que vão exorcizá-las)...

Certamente haverá leitores ao ler esse texto e vão pensar “nossa, os crentes hoje estão assim?!” Não, caro leitor, claro que não! Acontece coisa assim no meio dos evangélicos, sim; porém, são eventos bastante isolados, que ganham repercussão na mídia por serem polêmicos e sensacionalistas. Nada dessas esquisitices tem a ver com o evangelho. Mesmo que usem termos e roupagem evangélica; mesmo que venham de pessoas que se digam evangélicas; mesmo que aconteça em templos e eventos que se digam evangélicos. Evangélico de verdade é quem vive o que Jesus ensinou, não todo aquele que sai dizendo que é; pois, quem tem boca diz o que quer. Estão aí os falsos profetas que não me deixam mentir. E os verdadeiros também.

Sim, retornando à pergunta que fiz anteriormente: “por que hoje, com o pleno acesso que temos às Escrituras, que contêm toda a revelação necessária para o conhecimento do evangelho, da vontade de Deus e de como viver uma vida piedosa, Deus estaria levantando profetas para fazer o que vemos hoje?” Deixo-lhes com duas passagens bíblicas:


“Em primeiro lugar, ouço que, quando vocês se reúnem como igreja, há divisões entre vocês, e até certo ponto eu o creio. Pois é necessário que haja divergências entre vocês, para que sejam conhecidos quais dentre vocês são aprovados.” – 1 Coríntios 11:18-19 NVI

“Se aparecer entre vocês um profeta ou alguém que faz predições por meio de sonhos e lhes anunciar um sinal miraculoso ou um prodígio, e se o sinal ou prodígio de que ele falou acontecer, e ele disser: "Vamos seguir outros deuses que vocês não conhecem e vamos adorá-los", não dêem ouvidos às palavras daquele profeta ou sonhador. O Senhor, o seu Deus, está pondo vocês à prova para ver se o amam de todo o coração e de toda a alma.” – Deuteronômio 13:1-3 NVI
___________________________________________________________

Extraídos do dicionário Míni HOUAISS:

Simpatia - B. prática supersticiosa us. como proteção ou para conseguir algo.

Magia - arte, ciência ou prática de produzir, por meios ocultos, fenômenos inexplicáveis ou que pareçam inexplicáveis; 2. p. ext. o efeito dessa arte ou prática;

Trabalho - 6. REL. em cultos afro-brasileiros, prática ritual que visa obter auxílio, proteção ou conquista de algum desejo.

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