7 de outubro de 2009

A Coca-Cola do Google

[Imagem: urso com olhar hipnótico e sorriso de Monalisa da "Pepsi" e suas crias sendo envene... digo, participando da propaganda do câncer de mama ursulino, que o Orkut está promovendo subliminarmente.]


Era uma vez o Orkut, o ilustre desconhecido por mim ignorado e que já estampava a capa da revista Superinteressante. Pois bem, naquela época eu era dos reles plebeus que não haviam recebido convite e tampouco tinha interesse algum em saber que diabos era aquilo. Ao mesmo tempo havia um amigo meu, colega de trabalho, que vivia implorando a todos os que estivessem na rede, ou que tivessem um amigo que estivesse, que mandassem um convite para que ele pudesse entrar.

Dias depois ele chega festejando no trabalho:

- Entrei no Orkut!

Mais alguns dias depois, a gente conversava e eu lhe perguntei o que estava achando da rede. Com cara de decepcionado, ele me respondeu:

- Eu saí. Não entro naquilo ali nunca mais.

Imaginei o monstro que deveria ser esse Orkut. O que teria lançado em poucos dias meu colega tão ansioso e empolgado, quase de quarentena no Nirvana, naquele poço Renato-Rússico de decepção.


Deixe estar. Meses depois, eu, relutantemente, recebi um convite e entrei para o Orkut. Meu perfil não tinha foto, então eu pus a foto de uma coruja. Eu gosto de corujas, elas parecem bonitas, modernas e inteligentes. E algum tempo depois pus minha foto. Um dos primeiros recados que eu recebi era de que a foto da coruja estava melhor, o que certamente foi retribuído com piadinhas posteriores e um “vá pentear macaco” de minha parte.

Enfim, naquela época era tempo de curtir o brinquedo novo, e, como todo mundo, adicionar pessoas, xeretar perfis (que retribuiriam a xeretada também), e entrar naquelas quinhentas comunidades que se entra para se parecer descolado, antenado e divertido. E a gente sempre olhava os amigos online naquele perfil multicolorido em que você preferia se esconder para não ter que dar uma desculpa de por que não respondeu os recados estando online.

Mas o Orkut também tem suas tosqueiras porque “de perto ninguém é normal”. E zigue-zagueando pelos perfis, facilmente você encontra "pérolas" como patricinhas, mauricinhos e emos que participam de comunidades tipo “Eu leio Nietzsche” e “Marx”, que jamais leram qualquer livro deles, estando nelas apenas para parecerem inteligentes e revolucionários contra a sociedade judaico-cristã capitalista e ocidental pós-moderna anti-imperialista.

O orkut é um fanfarrão, não é? Certamente você já deve ter feito o joguinho do “aposto que não tem uma comunidade sobre isto” e – Pimba! – você se depara com uma comunidade dessa coisa “with lasers”.

Dercy Gonçalves, coitada, já morreu, mas ainda deve ter perfil e postar em algumas comunidades, tamanha a invasão dos fakes desde que o Orkut escancarou-se e abriu-se para todo mundo sem convite. Você lembra os sites que distribuíam convites para entrar? O Orkut acabou com os atravessadores.

O Orkut é uma coisa psicotrópica para alguns. Para outros é uma piscina. Para outros é mais uma das artimanhas d'O Grande Irmão. Ele faz as pessoas se desperdiçarem, se exporem, perderem a noção, esquecerem-se do tempo, adoecerem e convalescerem diante de uma telinha de aspecto retrô que as mantém na existência virtual em contato com os outros, trocando recadinhos ou informação.

Um amigo concurseiro me disse há dias que um edital de concurso público colocou na lista de bibliografia a Wikipédia. "Em breve será o Orkut" - disse eu. Não entendo porque se o negócio era avacalhar o azulzinho não saiu na frente. Afinal, o Orkut deveria ter a primazia da avacalhação e da criminalidade – sempre. Afinal ele não é tão Facebook ou My Space, também não é miúdo e sem graça como o Twitter, mas é uma Coca-Cola!

Voltando às marmotas do Orkut: O pobrezinho, junto com o seu comparsa MSN, é um dos indiciados no inquérito educacional de "lusicídio": o assassinato da língua portuguesa. E não faltam evidências. Quer desaprender a escrever? Dê um passeio nas comunidades orkutianas. A criminalidade linguística é tão aterrorizante que os professores de português mais fortes chegam a sentir dúvidas quanto a tudo o que aprenderam. Você já faz "login" abaixado, para não ser atingido de cheio por uma palavra perdida e precisar ser socorrido por uma nebulização de dicionário ou uma internação na ala de Terapia de Gramática Intensiva.

Na minha opinião, deveriam criar um sistema de segurança interna para garantir a idoneidade da língua naquele ambiente bélico, sob pena de termos aumento vertiginoso de flagrantes de lusicídio em blogs do tipo "FAIL", "Owned"... perpetrados pelos gendarmes de plantão.

Outra coisa interessante do nosso Orkut é que eles puseram cadeado para as fotos. É uma boa porque poupa nossa intimidade, mas é mau porque tem muita coisa hilária por aí que a gente está perdendo, como aquelas fotos toscas de gente sentada na privada, supermaquiada ou mal-vestida fazendo caras e bicos para o espelhozinho do banheiro com uma câmera Brittania na mão, comprada em 10X sem juros no carnê da Insinuante.

E os perfis? 90% deles são basicamente a citação “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter...” ou compilações de versos, estrofes, frases feitas... Eu entendo, a criatividade simplesmente flui.

Eu entrei, faz tempo, numa comunidade sobre perfis originais, e tinha um tópico para dar notas a quem se candidatasse. Vi dois perfis e os avaliei com notas médias, porque o perfil exige uma descrição de quem você é, e num deles a menina desabafou suas amarguras e falou de um pé na bunda que tinha levado e das consequências para a sua vida (em "miguxês" e rosa-choque) – isso é o que fizeram com você e não quem você é, portanto, dei nota mais baixa. Depois a menina me avaliou de volta com uma nota baixa porque, segundo ela, eu só disse quem eu era e isso era "previsível demais". Eu não sabia que eu poderia pôr o resumo do Imposto de Renda ou a bula de um medicamento num espaço onde você deve decrever quem você é. Outra pessoa disse que meu perfil não era nada emotivo -- e me deu um 6! -- Eu não tinha reparado que era concurso de redações dramáticas, pensei que estava em avaliação a originalidade. Bom, era cultura demais para mim. Eu larguei mão daquilo.

Você lembra do "carma" (legal, confiável e sexy)? Pois é, quando eu entrei era mais supersexy que legal, o que me deixou confuso, mas o pastor da minha igreja era “0% sexy”, ou seja, respeito pastoral ainda existia. Mas muita gente besta e antipática que eu conhecia era mais legal que eu no carma. Eu não me conformava com isso. Mas o mundo muda. Eu dei a volta por cima e voltei a sorrir. Eu e meus amigos combinamos de votar nas pessoas mais feias que conhecíamos como supersexy. Peraí, agora juntando isso eu concluí que... Deixa para lá porque isso foi depois.

Enigmas orkutianos: Eu queria saber por que ele já passou pela fase alfa e estancou na beta, talvez beta seja o fim do alfabeto grego para o Google; por que só tem design modificado em carnaval e olimpíadas; por que não permite que você escolha a cor de seu perfil; por que as pessoas adicionam seres humanos com os quais não têm nem querem ter relação alguma; por que quando você conhece uma pessoa está mais interessado em conhecer o orkut dela que ela própria; por que o orkut não faz uma caça aos fakes, aos perfis de pessoas jurídicas e aos spammers...

Você lembra que, no começo, quando os recados eram abertos a todos a gente ficava juntando as conversas das pessoas e acompanhando os arranca-rabos e os diálogos? Não? Então era só eu? Er... Mudando de assunto...


[Imagem: uma quebra do terceiro mandamento combinada com blasfêmia, enlatada e com o uso de nome próprio iniciado com letra minúscula -- e ainda por cima com limão. É pecado e engorda. Repare: "guaraná" é escrito em letras garrafais, apesar de ser não ser numa garrafa; e "Jesus", em minúsculas, apesar de ser Deus.]

O Facebook é melhor em muitos aspectos e tem um monte de coisinhas legais que agora o Orkut também tem, mas, para mim, Facebook é uma gringolândia que eu “não curto”. Não é tão legal quanto o Orkut; e não é tão Britney Spears mascando Ploc quanto o Hi5; e, creio, não tem tanta popularidade no Brasil. É por isso que eu digo que o Orkut é uma Coca-Cola: podem inventar algo melhor ou igual, mas não vai levar a preferência nacional.

A Coca-Cola é gostosa mas também causa cáries e outros problemas. Assim, sendo o Orkut delicioso, não me maravilho de ver que alguns ainda o deixem com um sorriso amarelo e meia-dúzia de arrotos, enquanto meus megabytes ainda estão navegando na piscina azul e rosa retrô com cara de Guaraná Jesus do grupo Google.

4 comentários:

Ariovaldo Jr disse...

Fantástico hahaha... realmente muito bom e divertido o texto.

Pedro, Débora e Patrick disse...

KkKkKkKkKkKkKkKkKkKkKk
Avelar, you are CRAZY!!! Bem que me disseram...
But you are funny, too. ;-)
DelíriOoOo...

Débora Silva Costa :P
http://ferazao-bang.blogspot.com/

Avelar Jr. disse...

Legal!

Eu gosto de escrever comédia de vez em quando e fazer piada com alguma coisa, como também fico indignado com algumas ideologias e preciso me expressar. Daí às vezes fico no dilema entre escrever sobre religião ou escrever uma pauta humorística. O que vier primeiro vem pro blog. Ou os dois.

Obrigado a vocês!

Bruno Coniglio disse...

Realmente o ORKUT sempre será a preferencia nacional xD!
As comus do orkut são otimas!

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