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28 de outubro de 2016

Burocratizando a Vida Cristã


"Eu lhes afirmo que está chegando a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e aqueles que a ouvirem, viverão." João 5.25

Data de protocolo, formulário a ser preenchido com letra de forma e sem rasuras, entregar em três vias, anexar foto 3x4, assinar três vezes e apor a impressão digital do polegar direito... Todo mundo já está bem familiarizado com repartições públicas, concursos, editais, inscrições ou qualquer outra coisa que demanda burocracia. Alguns são tão viciados nesse tipo de coisa que têm até a sua própria forma burocrática de ver o cristianismo e a vida cristã.

Quando você se converteu? Quando você se batizou? Quem são seus pais na fé? Você é membro de uma igreja que batiza por aspersão ou por imersão? Quem assinou seu certificado de batismo? ... Espere aí, isso é uma entrevista para emprego? Para um visto de permanência em país estrangeiro?

Já ouvi muita gente que consegue fazer um histórico detalhado de sua própria vida cristã. E talvez porque muitos consigam lembrar detalhes dessas coisas e os mencionam sempre que falam de si, eu cheguei a pensar que eu precisava mesmo detalhar toda a minha história, registrar todas as datas para que eu pudesse gozar da certeza de ser convertido. Às vezes o convívio com pessoas mais aparentemente seguras cria em nós esta mentalidade meticulosa. E nossos pecados sucessivos pioram as nossas dúvidas. Se realmente me converti, por que não lembro a data especificamente? Isso me afligiu por um tempo.

Eu já passei por crises de identidade assim. Eu não sei em que dia eu me converti de verdade porque para mim isto foi um longo processo. Não me converti num sistema de reação instantânea em cadeia do tipo: “pecador-inconsciente-sai-de-casa-um-dia; culto-com-louvorzão; pregação-emocional; apelo-pelo-amor-de-Deus-alguém-aqui-aceita-Jesus!; levanta-a-mão-visitante!; olha-ele-igreja!; palmas-glória-a-Deus!; oração-perdoa-ele!; ele-está-salvo!; pecador-remido-em-casa”.

Pelo contrário. Eu levei anos observando, questionando e refletindo. Mas lembro que, na minha inocência, eu achava que levantar a mão e ir à frente numa igreja para dizer que "aceitei Jesus" era a segunda parte da burocracia necessária para a salvação que eu achava que havia em Romanos 10.9-10:

"Se você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo. Pois com o coração se crê para justiça, e com a boca se confessa para salvação."

Tanto que cheguei até a combinar com amigos crentes para ir aceitar Jesus na igreja deles, muito embora até hoje eu não saiba se a primeira parte (crer) ocorreu antes ou após o evento (mas meu palpite é que tenha sido bem antes, né?). De uma coisa eu sou bem certo, apesar das minhas mancadas e pecados, eu sou cristão.

Alguns pensam que a conversão precisa ser feita num templo só porque aparentemente a maioria das conversões se dá em cultos públicos. Mas não podemos conhecer corações de pessoas só porque elas vão à frente, dão testemunho, se batizam ou atendem a um apelo evangelístico. E isto justamente porque a conversão é um ato invisível: é uma ação vivificadora do Espírito Santo na vida de uma pessoa que estava morta em delitos e pecados, e que estava em franca rebelião contra Deus e sob a ira d'Ele*

"Mas quando se manifestaram a bondade e o amor pelos homens da parte de Deus, nosso Salvador, não por causa de atos de justiça por nós praticados, mas devido à sua misericórdia, ele nos salvou pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós generosamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador." Tito 3.4-6

É difícil para algumas pessoas se lembrarem de quando e como isso aconteceu porque muitas vezes a conversão, como no meu caso, é um processo difícil de pontuar no tempo. Uma progressiva mudança de mente, uma crescente atração por Deus, um desapego de tudo por algo maior e inexplicável. Como podemos sondar o Espírito de Deus e medir seus misteriosos caminhos em nós?

O fato é que estávamos mortos, e Deus nos fez acordar para a vida. Simples. De repente começamos a produzir frutos divinos, mas não sabemos quando eles nasceram ou amadureceram pela primeira vez. Assim, não importa quando nascemos de novo, pois, sendo a salvação eterna, sua data se perderá no tempo. Que bom que muitas pessoas conseguem se lembrar do dia em que ouviram a voz do Mestre pela primeira vez! Eu não. O que sei, com toda certeza, é que eu estava morto, e Sua voz me trouxe vida; e que eu já não consigo mais imaginar a vida sem essa voz tão doce.

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* Outros detalhes sobre isso podem ser encontrados na Epístola aos Efésios, capítulo 2.

12 de novembro de 2013

Adeus, baleia!

"O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende." - Isaías 1.3

Recentemente o ENEM (como sempre!) foi foco das notícias na internet. Esse exame nacional que objetiva avaliar o nível do estudante de ensino médio no Brasil, pode ser aproveitado como complemento ou substituto do vestibular para ingresso nas universidades brasileiras. Por isso, muitos correm a prestá-lo, na esperança de realizar seu sonho de atingir o diploma de nível superior de um bom curso universitário.

Este ano, muitas pessoas deram a prova de sua incapacidade e imaturidade no ENEM, infringindo normas simples previstas no edital, de maneira extremamente digna de pena, como, por exemplo, por postar fotos da prova durante a realização delas nas redes sociais, portar e utilizar equipamentos eletrônicos não permitidos e, até mesmo, deixar o local de prova antes do horário permitido: demonstrações da falta de mera leitura e do conhecimento mínimo das regras da avaliação.

Na minha adolescência, quando me converti, muitas pessoas que se chatearam com esse fato tentaram me convencer do meu "erro" de me tornar "crente". Até mesmo alguns "ex-crentes" me vieram tentar convencer de que sua igreja atual era "a certa", apresentando-me vários argumentos tortos. Na época, eu simplesmente ouvia os argumentos, não discutia. Minha conversão era a Cristo, não a uma igreja ou religião, como muitos pensavam.

Como eu podia discutir com pessoas que supostamente entendiam a Bíblia mais do que eu se eu não a conhecia por inteiro? O mais prudente nesses casos é calar, ao invés de dizer besteiras. Calado, você até se passa por sábio, mas, abrindo a boca para falar do que não sabe... Mas uma testemunha de Jesus não pode viver calada, porque até a sua vida fala.

Bom, eu precisava mesmo, como crente, ler a Bíblia. Já que digo que minha fé e minha vida devem se basear nela, como posso ignorar seu fundamento? Ser crente e não conhecer a palavra de Deus é como construir e morar numa casa sem alicerce, ignorar que um prédio não pode ser construído de cima para baixo ou sobre um vácuo. Isso explica o fato de existirem vários ex-membros de igrejas evangélicas, que vez por outra encontramos, dando testemunhos que apenas demonstram que tudo em sua vida foi fruto de má-compreensão, insegurança, erro, engano, emocionalismo e falta de compromisso com Deus.

Podem reparar que a maior parte deles sublinha em seus testemunhos, mesmo que implicitamente, que mudaram de igreja, que encontraram a igreja certa, a religião certa etc. Nunca Deus ou Jesus Cristo é o centro do testemunho, mas uma trivialidade qualquer que glorifica não a Deus, mas ao homem ou às instituições deste.

Bom, a vida não é um ENEM, mas é cheia de questionamentos. E, voltando ao início, mesmo depois de algum tempo de convertido, eu percebia que minha necessidade de conhecer as Escrituras era real. Mas sempre dava uma desculpa para não ler a Bíblia toda (e na época, tudo que eu tinha era um Novo Testamento daqueles distribuídos nas escolas pelos Gideões)... Até que um dia algo engraçado fez dedicar-me à leitura...

Estava na sala de estar do dentista, esperando minha vez de ser atendido, e vi uma menininha alegre brincando com seu pai. Ouvi quando mencionaram a história de Jonas e a "baleia" e pensei: "que vergonha, até essa menininha sabe quem são Jonas e a baleia... e eu nem sei quem são! Preciso criar vergonha na cara e começar a ler a Bíblia de vez".

Chegando em casa, comecei. Levei três dias para ler Gênesis, na bibliazona católica que temos em casa. Em pouco mais de cinco meses, li a Bíblia inteira (nesse ínterim, consegui comprar minha primeira Bíblia, e terminei a leitura nela!).

O fato é que todos nós somos desafiados pelos "ENEMs" da vida diariamente. Temos de nos posicionar e de opinar, defendendo a palavra de Deus diante de uma cultura cada vez mais distante e contrária ao cristianismo. Temos de responder aos questionamentos de outras religiões e filosofias, que buscam substituir a necessidade da fé exclusivamente em Jesus Cristo para chegar-se a Deus por qualquer outra coisa que diminua ou exclua a soberania e singularidade dele nesse assunto. A falta desse conhecimento é a grande causa da fraqueza da igreja atual, fazendo com que muitos se enganem quanto à fé ou se desviem dela. 

Tenho visto que muitos dos "ex-crentes" que conversaram comigo sobre a razão de estarem "desviados" ou de terem deixado a fé não entenderam o evangelho com clareza, mesmo tendo ocupado postos de ensino nas igrejas ou agremiações onde estiveram. Outros simplesmente decidiram ceder a seus impulsos e vontades e deram as costas para o discipulado de Cristo conscientemente. O assunto é sério. Não basta apenas ler a Bíblia, lógico. Deve-se estudá-la e praticá-la - coisas que muitos não estão dispostos a fazer.

Depois de ler a Bíblia e estudá-la, tendo segurança para falar, vi que muitos argumentos que outras pessoas puseram diante de mim contra ser "crente" não passavam de tolices e preconceitos vindos de pessoas que se banharam de religião: palavreado, práticas, emoções e sentimentalismo, mas que não nasceram de novo. Viviam em volta de Cristo, mas Cristo não vivia nelas. E isso ficou bem mais claro para mim.

Hoje, sei que a "baleia" não era mesmo uma baleia... Mas Jesus é o mesmo, ontem, hoje e sempre. E sua palavra é eterna, um convite aberto ao amor de Deus, que fica mais brilhante a cada dia. Saia da baleia e leia a Bíblia você também!


"...as ovelhas ouvem a sua voz [o pastor, simbolizando Jesus]. Ele chama as suas ovelhas pelo nome e as leva para fora. Depois de conduzir para fora todas as suas ovelhas, vai adiante delas, e estas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas nunca seguirão um estranho; na verdade, fugirão dele, porque não reconhecem a voz de estranhos" - João 10:3-5

25 de abril de 2013

O Mito do Legalismo


Autor: Thomas Schirrmacher
Originalmente publicado em Monergismo

Proposição: Paulo, ao advertir contra o legalismo, não combate o guardar os mandamentos de Deus em fé, mas sim o considerá-los equivocadamente como um caminho para salvação, forçando os crentes gentios a guardar a lei cerimonial, ou tentar guardar a Lei independentemente de Cristo.
“Legalismo” está se tornando rapidamente um slogan usado para reprovar alguém que apela à Lei Bíblica. O termo é bíblico? A Escritura expressa tal crítica? Visto que a palavra em si – isto é, uma palavra grega ou hebraica correspondente – não ocorre na Bíblia, aqueles que usam-na como um termo de reprovação deveriam definir sua substância bíblica.
Embora preferisse eliminar completamente a expressão do nosso vocabulário, eu poderia concordar em limitá-la ao significado dado pelos Pais da Igreja: “o esforço para alcançar a justificação pelas obras da lei”. Isso, no entanto, não é o que normalmente se quer dizer, nem é adequado.
Gordon H. Clark assume que “Legalismo” na história da igreja sempre significou a expectação de que o homem poderia ganhar a salvação guardando a Lei. [1] O oposto seria a justificação pela fé, que leva à correta obediência da Lei. Clark continua:
No presente século, a expressão “legalismo” tomou um novo significado. A ética situacional despreza regras e regulamentos. Qualquer pessoa que obedeça conscientemente às leis de Deus é chamada de legalista. Por essa razão, Joseph Fletcher aprova a quebra de qualquer um dos Dez Mandamentos, e dessa forma transfere o significado negativo do “Legalismo” para o ética histórica do Protestantismo. [1]
É triste que isso não seja verdade apenas sobre a ética situacional, mas também dos fundamentalistas que creem que a Lei foi abolida e que então declaram qualquer sistema ético construído sobre a Lei como sendo legalista. Contudo, o legalismo não pode ser substituído pela ilegalidade. Greg L. Bahnsen escreve:
A resposta ao legalismo não é a crença fácil, o evangelismo sem a necessidade de arrependimento, a busca de uma segunda bênção mística do Espírito, ou uma vida cristã destituída de instrução e orientação corretas. O legalismo deve ser combatido com um entendimento bíblico da verdadeira ‘vida no Espírito’. Em tal viver, o Espírito de Deus é o autor gracioso da nova vida, que nos convence do nosso pecado e da miséria contra a lei violada de Deus, que nos une a Cristo na salvação para que possamos participar de Sua vida santa, que nos capacita a entender a orientação dada pela palavra de Deus, e que nos faz crescer pela graça de Deus, tornando-nos pessoas que obedecem aos mandamentos de Deus. [2]
 O Novo Testamento descreve cinco maneiras de usar incorretamente a Lei:
1. Guardando a Lei para ser justificado e salvo. (Veja Rm 3.21-4:25, Ef 2.9-10)
2. Impondo a lei cerimonial sobre os outros. (Gl 4.9-11, Cl 2.16-17, o Livro de Hebreus)
3. Adicionando regras e tradições humanas à Lei divina. (Mc 7.1-15, Mt 15.1-9)
4. Esquecendo-se de coisas essenciais em favor de questões menores. (Mt 23.23)
5. Estando preocupado somente com a obediência externa à Lei de Deus. (Mc 7.18-23, Mt 15.15-20, Mt 23.27-28)
O Novo Testamento não condena o seguinte:
1. Assumir que a lei moral de Deus é incomparavelmente boa, justa santa e espiritual. (Rm 7.12, 14, 1Tm 1.8. Compare Salmos 19, 8-12 e Salmos 119)
2. Desejar guardar os mandamentos morais de Deus num espírito de filiação (não de escravidão) e no poder do Espírito Santo. (Rm 8.2-4, 3.31)
3. Admoestar os outros sobre a base da Lei divina, quando isso é feito com a atitude correta. (Ef 6.1-4)
4. Apelando à Lei moral de Deus. (Tiago 2.6-12, Rm 13.8-10)
5. Exercendo disciplina eclesiástica. (Gl 5.18-23; 1Tm 1.5-11)
Alfred de Quervain escreve de maneira similar:
Tem sido dito que restringir nossas ações à Escritura cria legalismo, que o homem está livre do legalismo somente quando ele mesmo mesmo determina a lei. Na verdade, aquele que em seu orgulho usa a Lei de acordo com sua própria opinião, age legalisticamente. Esse é o caso, quer ele pretenda guardar a letra da lei ou abandonar a lei escrita e inventar a sua própria lei. [3]
A Escritura nunca é legalista. Ninguém que deriva os seus valores da Palavra de Deus pode ser considerado legalista. Emil Brunner expressou isso bem, sem, contudo, aplicar o princípio em seu próprio sistema ético. [4]
Assim como a Escritura sem o Espírito é Ortodoxia, o Espírito sem a Escritura é falso Antinomianismo e fanatismo.[5]
O legalismo nunca deveria ser usado como slogan contra aqueles que se referem aos mandamentos de Deus, mas deve ser definido de acordo com a Bíblia e então rejeitado com base nela. Se alguém interpretar legalismo como significando o mau uso da Lei, então tal pessoa deve esclarecer a partir da Escritura o que o mau uso implica e como a Lei deve ser corretamente usada. A lista mencionada acima fornece cinco formas de legalismo e cinco usos apropriados da Lei. [6]
Neste contexto, Eduard Böhl, o professor vienense de Dogmática, enfatiza a importância de Lei de Deus para os cristãos, pois somente a Lei de Deus dá uma orientação para identificar leis e tradições falsas:
Não podemos banir a Lei do relacionamento que existe em Cristo entre Deus e o crente: não podemos buscar novos regulamentos para a nossas ações ou, de fato, elevar o nosso capricho próprio ao status de lei. Não fomos redimidos para viver de acordo com regras éticas particulares ou doutrinas de perfeição, mas para cumprir a Lei de Deus (1Co 7.19, Gl 5.6, Rom. 8:4, 13:10). A Escritura ensina claramente que o crente deve ser mantido nos caminhos da santificação pelo Espírito Santo, mas Ele usa a Palavra de Deus, particularmente os Dez Mandamentos como a norma e o governo das nossas vidas. [7]
Böhl também critica o Pietismo por sua tendência a formular novas leis piedosas no lugar da lei bíblica que ele rejeita:
O Pietismo foi apanhado neste temor, quando fez da justificação o requerimento para a santificação; a santificação parecia portanto ser uma continuação da justificação, que deveria ser provada na santificação. Essa atestação da fé pelas boas obras levou a um conjunto de expressões e características da fé da pessoa bem diferente daquele conjunto da lei divina. A genuinidade da justificação era testada por outro patrão que não a Lei de Deus. O homem criou um tipo de nova lex (nova lei), uma para o crente verdadeiro. [8]

[1] Gordon H. Clark, “Legalism”, Baker’s Dictionary of Christian Ethics. ed. Carl F. Henry (Grand Rapids, Mich.: Baker Book House,1973) p. 385; reimpresso em Gordon H. Clark, Essays on Ethics and Politics(Jefferson, MD: Trinity Foundation, 1992) p. 150.
[2] Ibid.
[3] Greg L. Bahnsen, By This Standard: The Authority of God’s Law Today (Tyler, Tex.: ICE, 1985) pp. 67-68.
[4] Alfred de Quervain, Die Heiligung, Ethik, Part 1 (Zollikon: Evangelischer Verlag, 1946) p. 259.
[4] Schirrmacher, Ethik, Vol. 1, pp. 297-304 sobre Brunner (pp. 292-306); Thomas Schirrmacher, Das Mißverständinis des Emil Brunner: Emil Brunner’s Bibliologie als Ursache für das Scheitern seiner Ekklesiologie, Theologische Untersuchungen zu Weltmission und Gemeindebau, ed. Hans-Georg Wünch und Thomas Schirrmacher (Lörrach, ermany: Arbeitsgemeinschaft für Weltmission und Gemeindebau, 1982); Thomas Schirrmacher, “Das Mißverständnis der Kirche und das Mißverständnis des Emil Brunner”,Bibel und Gemeinde 89 (1989), pp. 279-311.
[5] Emil Brunner, Das Gebot und die Ordnungen (Zürich: Zwingli Verlag, 1939) p. 79.
[6] Veja também Robertson McQuillkin, An Introduction to Biblical Ethics (Wheaton, Ill.: Tyndale House Publ., 1989); David Chilton, Productive Christiians in an Age of Guilt – Manipulators, op. cit., pp. 22-25, lista quatro formas de legalismo; 1. Justificação pelas obras; 2. Tornar a lei cerimonial obrigatória; 3. Tornar leis humanas obrigatórias; 4. A confusão de pecado com crimes processados pelo Estado.
[7] Eduard Böhl, Dogmatik: Darstellung der christlichen Glaubenslehre auf reformiert – kirchlicher Grundlage (Amsterdam: Scheffer, 1887), p. 515.
[8] Ibid., note 1, p. 515

3 de novembro de 2012

Pedras falando e pedras rolando


"Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome. Nesse tempo muitos serão escandalizados, e trair-se-ão uns aos outros, e uns aos outros se odiarão. E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos. E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará." 
Mateus 24:9-12
"Tenho-vos dito estas coisas para que vos não escandalizeis. Expulsar-vos-ão das sinagogas; vem mesmo a hora em que qualquer que vos matar cuidará fazer um serviço a Deus. E isto vos farão, porque não conheceram ao Pai nem a mim. Mas tenho-vos dito isto, a fim de que, quando chegar aquela hora, vos lembreis de que já vo-lo tinha dito. E eu não vos disse isto desde o princípio, porque estava convosco."  
João 16:1-4
"E disseram-lhe [a Jesus] de entre a multidão alguns dos fariseus: Mestre, repreende os teus discípulos. E, respondendo ele, disse-lhes: Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão."
Lucas 19:39-40 


Os brasileiros estão cultivando o evangelho que merecem. Por isso não vemos conversões legítimas e impactantes proporcionais à taxa de crescimento dos evangélicos. Quando os ateus nos criticam dizendo que se tivermos um governo evangélico teremos uma ditadura sem liberdades, eu devo concordar. Nosso problema é tão sério que até as pedras estão clamando; porque, quando os de dentro falam, logo o povo gado evangélico os trata da mesma forma que o povo de Israel, distante de Deus, tratava seus profetas: pedradas, ofensas, ameaças e [só falta isto:] morte. E isto não me surpreende nem um pouco, pois quem segue a Cristo deve saber que estar aqui por Jesus é estar aqui para isso.

26 de setembro de 2012

Já não se fazem mais profetas como antigamente


“Sim, estou contra os que profetizam sonhos falsos", declara o Senhor. "Eles os relatam e com as suas mentiras irresponsáveis desviam o meu povo. Eu não os enviei nem lhes autorizei; e eles não trazem benefício algum a este povo", declara o Senhor.” – Jeremias 23:32

Dia desses conversamos na escola dominical sobre os problemas que os “profetas” atuais causam no meio cristão, considerando que o uso desse termo, todo revestido de autoridade, encontra-se bastante desgastado entre os evangélicos, levando a equívocos e desvios doutrinários.

Profeta Jeremias, de Michelângelo
Para começar, precisamos conceituar o que seria um “profeta”. Basicamente existem dois tipos: aqueles a quem a vontade de Deus era revelada, que foram guiados a serem suas testemunhas junto ao povo de Israel, transmitindo-lhes revelações, que incluíam alertas, condenações, encorajamento e previsões de acontecimentos futuros, que foram registrados na Bíblia. Também existem os profetas encarregados de falar em nome de Deus, como meras testemunhas, proclamadores da palavra que já foi revelada antes, sem nenhuma previsão futurista. Nesta acepção, todo crente nascido de novo é um “profeta”, pois deve testemunhar de Jesus, fazendo discípulos e transmitindo-lhes seus ensinos.

Hoje em dia, é comum demais falar-se em “profecias”, ainda que não haja nelas nada de relevante e verdadeiro a se comunicar. E, olhando de perto, várias delas falham em se ajustar aos padrões descritos nas Escrituras, em matéria de veracidade, doutrina e testemunho.

Na Bíblia, percebemos que os profetas nunca foram conhecidos ou julgados pelos bens materiais que possuíam. E, em geral, ao contrário dos muitos intitulados “profetas” de nossa época, que ostentam patrimônios bem superiores aos de seus correligionários, eram pessoas pobres, simples, trabalhadoras, que não detinham cargos elevados, eram submissos a lideranças, participavam ativamente dos eventos importantes do seu povo, não negociavam seus serviços, viviam em comunidades, alguns eram celibatários, não detinham legiões de admiradores e não se omitiam em condenar os erros cometidos por seus governantes – mesmo que isso pudesse lhes custar os bens, a reputação ou a vida, como fez Natã, Samuel e João Batista. Contrariamente, a geração “profética” de hoje usa seus talentos e oportunidades junto às autoridades do país, com as quais flertam, imiscuindo-se na política e no poder estatal, bajulando detentores de cargos públicos e pessoas famosas de seu interesse, com o intuito de ganhar reconhecimentos, honrarias ou algum lucro, como fez Geazi (2 Reis 5).

A coragem dos profetas de antigamente era tal que chegavam a encarar sua missão mesmo sabendo que ela não traria conversões em massa, como no caso de Jeremias, que foi testemunha em franca oposição ao povo ímpio de seu tempo, sendo alertado por Deus que este não iria se converter (Jeremias 7.27). Sendo assim, não podemos esperar que alguém fosse profeta por vontade própria ou, ainda, que fosse auferir lucros com sua atividade, quando esta era uma atividade que trazia antipatia da sociedade ao redor. O profeta exercia um ministério legítimo, decorrente da autoridade de Deus, da obediência à sua palavra, com o dever de proclamar a verdade desprezada pelas massas, tomando posição e sabendo que nem sempre trará números vistosos de pessoas aos apriscos celestiais.

Houve tempos em que Deus não levantou profetas, como antes do início do ministério de Samuel, onde a profecia era rara (1 Sm 3.1); e no período intertestamentário, conhecido como o período do “silêncio profético”, que se estendeu até a vinda de João Batista. Estes porta-vozes dos oráculos divinos sempre traziam consigo uma mensagem importante da parte de Deus para todo o povo, uma revelação da vontade divina.

Nem todos os profetas operavam milagres; João Batista, por exemplo, não realizou nenhum, mas foi considerado o maior dentre os nascidos de mulher, nas palavras de Jesus Cristo (Lucas 7.28). Daí percebemos que tampouco os milagres são fator determinante da importância de seu ofício.

Ninguém precisa vasculhar muito os vídeos postados na internet para comprovar que muitos “ministros” se utilizam de alegadas “revelações” dadas em causa própria, a fim de se defender de críticas fundadas aos seus “ministérios”—principalmente após condutas suas que escandalizam setores do povo de Deus que realmente se preocupam com o bom testemunho dos de fora, e com a imagem do evangelho (e que geralmente são tachados discriminatoriamente de “religiosos”, como se ser religioso fosse uma coisa desabonadora ou vexatória). Não contemplo, no entanto, os profetas de Deus nas Escrituras lamuriando-se como crianças mimadas ou utilizando-se de revelações com fim lucrativo direto ou indireto. Parece-me claro que as revelações eram dadas no interesse de Deus ou de Seu povo, não no interesse exclusivo do próprio profeta.

Se era tão difícil se levantar um profeta entre o povo de Deus que recebesse um oráculo divino na época do Velho Testamento, levando em conta a necessidade (porque a Bíblia não estava pronta e não tinha o formato atual, portanto, a palavra de Deus não era tão acessível ao povo como hoje) – e, mesmo no Novo Testamento, não se vê muito falar em profetas como pessoas tão extraordinárias... Por que hoje, com o pleno acesso que temos às Escrituras, que contêm toda a revelação necessária para o conhecimento do evangelho, da vontade de Deus e de como viver uma vida piedosa, Deus estaria levantando profetas para fazer o que vemos hoje?

E a que me refiro quando digo “o que vemos hoje”? Creio que nunca antes o ego humano conseguiu parir um enxame dessa magnitude, com tantas pessoas que se acham importantíssimas e “profetas” (algumas talvez se achem até essenciais ou messiânicas); que alegam ser detentoras de “revelações”; muitas das quais, quando não são coisas reveladas há séculos nas Escrituras, tratam-se de coisas óbvias, desimportantes, patéticas e descabidas.

Engraçado que, ao contrário do que acontece hoje, os profetas das Escrituras, parece-me, não viviam profetizando e recebendo oráculos vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana, despejando verborragias divinas. É o caso, por exemplo, de Jeremias, Ezequiel, Isaías e Daniel, os quais até registravam a data de algumas revelações ou visões recebidas, tipo: “nos dias do rei fulano de tal”, “no sétimo mês do ano tal”, “no décimo-terceiro ano do reinado de beltrano”...

Há pretensos ministros hoje que se gabam de ter revelações enquanto tomam banho, lavam o cachorro, jogam o lixo fora, enquanto, sei lá, fazem as necessidades... dizem que o “Espírito Santo” vive cochichando no ouvido... quase de cinco em cinco minutos! É tanta revelação se atropelando e caindo por cima uma das outras, que é quase como se tais profetas chegassem ao cúmulo de se ter de organizar os momentos “revelacionais” por ordem de chegada: “Dona Visão, aguarde aí só um minutinho na linha 2, é que estou ocupado recebendo a Senhora Revelação agora. Por gentileza, peço que aguarde, pois seu contato é muito importante para todos nós; e, em seguida, queira, por favor, avaliar a qualidade do nosso atendimento...”. Eu imagino a abundante maturidade de alguém que depende de revelações a cada minuto para poder viver a vida... E para guiar outras vidas?

E o pior é que os conteúdos são tão superficiais e sem substância para a vida prática da igreja cristã, do país... que eu não consigo associar tais coisas com pessoas sérias (imagine eu acreditar que vêm de Deus!). Essas “pérolas” oscilam entre coisas como “com que bota eu vou”, “que demônio vamos expulsar”, “onde a gente unge a calçada”, coisas incompletas... Não raramente, além do ridículo, vêm as heresias e os escândalos causados, que dividem opiniões dentro da igreja desnecessariamente... E quem lucra com coisa assim?

Penso, ainda, que alguns ministros evangélicos que alardeiam suas composições como “reveladas por Deus” pretendem, muitas vezes, criar certa aura de incontestabilidade, de inquestionabilidade, louvor que não é fruto de mérito, para evitar que suas canções, apresentações, letras, melodias ou ensinos, por vezes medíocres, sejam alvos de avaliações desfavoráveis por parte de quem encontre nelas algum desvio doutrinário, ou mesmo de quem não considere sua obra algo recomendável. Nesse caso, a alegada “inspiração divina” não passa de meio ardiloso para encobrir falhas e incompetência. Pois quem ousaria questionar uma coisa "vinda de Deus”? Na certa, a razão de quem segue estilo de vida assim se encontre no amor próprio, não na espiritualidade cristã; pois esta busca a sabedoria e a correção, a fim de alcançar a maturidade plena e a glória de Deus, encontrando no temor do Senhor o princípio da sabedoria.

Convém ressaltar, inclusive, que alguns defendem a autoridade de supostos profetas apenas pelo fato de que falam em nome de Deus. Mas este não é um critério suficiente. Deus, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, é claro em afirmar que as profecias devem ser provadas, oferecendo-nos alguns critérios; Jesus adverte que muitos virão em seu nome; Paulo diz que lobos vorazes sairiam do nosso meio (do meio da igreja). Logicamente um desses critérios de avaliação é o de que Deus não pode se contradizer. É um critério lógico. Ou Deus negaria a Si mesmo. Logo, é responsabilidade de todos nós conhecermos as Escrituras, que testemunham de Jesus e trazem as ferramentas necessárias para que sejamos obreiros perfeitos, aprovados por Deus, para que possamos julgar as profecias, obedecendo a Ele. (Também vale a pena ver alguns critérios para conferir a verdade de um profeta ou profecia em Deuteronômio caps. 18 e 13).

Algo que também precisa ser dito é que alguns crentes baseiam sua fé no princípio errôneo de que os fins justificam os meios. Ou seja: deu certo ou parece certo o que disse alguém, tal pessoa é, de fato, de Deus. Para exemplificar, lembro-me de que uma vez discutindo com um irmãozinho raivoso em uma comunidade no Orkut, ele me disse que apenas pessoas de Deus poderiam profetizar em nome dele. Mas ele nada disse depois que lhe mostrei que Balaão (que alude a um sinal do nascimento de Jesus, em Números 24.17) e Caifás (que profetizou a morte de Jesus pela nação dos judeus em João 11.49-51), os quais não eram pessoas que andavam segundo a vontade de Deus, profetizaram a respeito de planos d’Ele.

Algo que me assusta na avalanche de “profecias” que tenho visto é o excessivo otimismo que elas trazem e a ingenuidade com que contam para vingar. Sem contar a desconsideração pelos princípios mais basilares do evangelho, e a falta de resultados úteis e palpáveis também, como: 
  • as “profetadas” de várias celebridades gospel do fim do Carnaval (que, infelizmente, segue “bombando”); 
  • a veiculação de novelas gospel na TV (para entreter crentes empolgadinhos que pensam que as pessoas assistem a novelas para serem “evangelizadas”? Para massagear o ego dos crentes/denominações evangélicas, que podem se promover, vender sua marca institucional e lucrar com isso? Na maior parte do tempo a programação evangélica na TV tem sido vexatória, não mostrando de nada mais do que a mera exploração financeira de incautos.); 
  • oferecimento de mechas de cabelo como sacrifício pelos pecados, como se o sacrifício de Jesus na cruz não tivesse valido nada (e, não bastasse a bizarrice, de pecados de pessoas vivas e falecidas); 
  • a investida massiva da mídia pelos evangélicos (isso nem é profecia, é uma obviedade: se o número de evangélicos aumenta, a audiência segue, logo, seu tempo na TV acompanha o seu crescimento para poder atendê-los. E já faz tempo que existem horários comprados por igrejas na TV, que dão audiência. E alguém já contou quantas rádios evangélicas existem?); 
  • números exorbitantes de conversão a igrejas evangélicas por meio de... evangelização? Não, de “atos proféticos”! (“atos proféticos”, para quem não conhece o termo, é uma espécie de “simpatia”, “macumba gospel” – ver nota com algumas definições extraídas de um dicionário no final do texto – que, por mais que queiram definir com termos bíblicos e bonitinhos, não deixam de ser tentativas de influenciar Deus a mudar a realidade através de rituais simbólicos. Para acreditar nisso, você deve supor que Deus não acha suficiente que a gente ore e trabalhe para alcançar algo, que as pessoas se convertem pelo simples desempenho humano, que Deus é caprichoso, volúvel e influenciado a executar a própria vontade quando se praticam “atos proféticos”... Não vejo lógica alguma nisso hoje, pois torna o Deus soberano uma ferramenta eclesiástica. Já me mostraram supostos "exemplos bíblicos de atos proféticos", mas, ou eles são meras ocasiões em que alguém simplesmente obedece a uma ordem dada por Deus a fim de testemunhar simbolicamente algo que já está determinado para acontecer, ou outra coisa. Já disseram que a Santa Ceia é um exemplo de "ato profético", mas, na verdade, é uma "ordenança", um ritual; ela não transforma a realidade. Só seria "profética" no sentido de testemunhar a morte de Cristo; mas se fosse "profética" por ser assim, cultos, ordenanças, cantos, tudo viraria exemplo de "ato profético", difícil seria ter algo que não fosse um...); 
  • crentes urinando em postes e lugares estratégicos, como fazem os cachorros, ou ungindo-os, a fim de “demarcar território para Deus”; 
  • mudança dos elementos da ceia (que foram instituídos pelo próprio Cristo, e constam na Bíblia);
  • expulsão de entidades do candomblé de existência duvidosa (digo isto porque acredito que nem os próprios adeptos desta ou de outras religiões assemelhadas devam crer na existência de “entidades” que os crentes inventam e lhes atribuem, para poder anunciar que vão exorcizá-las)...

Certamente haverá leitores ao ler esse texto e vão pensar “nossa, os crentes hoje estão assim?!” Não, caro leitor, claro que não! Acontece coisa assim no meio dos evangélicos, sim; porém, são eventos bastante isolados, que ganham repercussão na mídia por serem polêmicos e sensacionalistas. Nada dessas esquisitices tem a ver com o evangelho. Mesmo que usem termos e roupagem evangélica; mesmo que venham de pessoas que se digam evangélicas; mesmo que aconteça em templos e eventos que se digam evangélicos. Evangélico de verdade é quem vive o que Jesus ensinou, não todo aquele que sai dizendo que é; pois, quem tem boca diz o que quer. Estão aí os falsos profetas que não me deixam mentir. E os verdadeiros também.

Sim, retornando à pergunta que fiz anteriormente: “por que hoje, com o pleno acesso que temos às Escrituras, que contêm toda a revelação necessária para o conhecimento do evangelho, da vontade de Deus e de como viver uma vida piedosa, Deus estaria levantando profetas para fazer o que vemos hoje?” Deixo-lhes com duas passagens bíblicas:


“Em primeiro lugar, ouço que, quando vocês se reúnem como igreja, há divisões entre vocês, e até certo ponto eu o creio. Pois é necessário que haja divergências entre vocês, para que sejam conhecidos quais dentre vocês são aprovados.” – 1 Coríntios 11:18-19 NVI

“Se aparecer entre vocês um profeta ou alguém que faz predições por meio de sonhos e lhes anunciar um sinal miraculoso ou um prodígio, e se o sinal ou prodígio de que ele falou acontecer, e ele disser: "Vamos seguir outros deuses que vocês não conhecem e vamos adorá-los", não dêem ouvidos às palavras daquele profeta ou sonhador. O Senhor, o seu Deus, está pondo vocês à prova para ver se o amam de todo o coração e de toda a alma.” – Deuteronômio 13:1-3 NVI
___________________________________________________________

Extraídos do dicionário Míni HOUAISS:

Simpatia - B. prática supersticiosa us. como proteção ou para conseguir algo.

Magia - arte, ciência ou prática de produzir, por meios ocultos, fenômenos inexplicáveis ou que pareçam inexplicáveis; 2. p. ext. o efeito dessa arte ou prática;

Trabalho - 6. REL. em cultos afro-brasileiros, prática ritual que visa obter auxílio, proteção ou conquista de algum desejo.

25 de agosto de 2012

A sua mente está sendo controlada?


Embora as seitas sejam diferentes em seus sistemas de crença, todas elas usam as mesmas técnicas de controle mental. O propósito deste artigo é permitir-lhe testar a si mesmo para saber se você é uma vítima dessas conhecidas técnicas de alienação. Nas seguintes questões não tratamos de nenhum grupo religioso específico. Pelo contrário, as informações abaixo foram coletadas visando muitos grupos, todos conhecidos por usar técnicas de controle da mente em seus membros. Deve-se notar, ainda, que essas questões não estão limitadas simplesmente a grupos religiosos. Atualmente existem também muitos grupos políticos, de negócios e seculares, não-religiosos, que empregam técnicas de controle mental em seus participantes.

E então, o que você tem a perder? Quer fazer o teste?

Faça o Teste!

Por favor, responda as seguintes questões com honestidade:

  • Você se sente como se tudo que você faz de bom para o seu grupo, não importa o quanto você se esforce, nunca é o bastante? E como resultado disso, você costuma sentir culpa?
  • O que o motiva? É um genuíno amor por Deus, pelo seu grupo, etc., ou é medo de não atender aos padrões desejados?
  • Questionar o grupo ou os seus líderes é algo desencorajado ou mal visto?
  • O grupo ao qual você pertence acredita que é uma elite, uma organização exclusiva que detém, sozinha, “a verdade” e as respostas para as questões da vida?
  • O seu grupo ridiculariza, ataca ou caçoa de outras igrejas cristãs e de sua interpretação da Bíblia?
  • A leitura de literatura que critica o grupo é desencorajada? Muitas seitas advertirão os seus membros para não ler qualquer coisa que critique o grupo, especialmente se escrita por algum ex-membro (que recebe nomes como "apóstata", “endurecido” ou “do diabo”, etc.). Essa é uma técnica de controle bastante conhecida, que impede o membro de descobrir os erros claros e documentados da seita. Com isso a habilidade dos membros de pensar por si mesmos é totalmente anulada, e eles vão pensar cada vez mais como o restante do grupo.
  • Dê uma olhada na aparência e no modo de agir do grupo. Todos se vestem, agem, e falam, mais ou menos, do mesmo jeito? Certo observador, falando sobre seu particular envolvimento com uma seita, disse que o grupo encorajava os seus membros a "fazer tudo exatamente do mesmo modo - orar do mesmo jeito, parecer igual, falar do mesmo modo. Isso, em psicologia, é um clássico exemplo de conformidade grupal. Seu propósito é garantir que ninguém tente agir de modo diverso ou se torne dissidente, para que ninguém questione o status quo." (Andrew Hart, Jan. de 1999).
  • O grupo desencoraja a associação com não membros (exceto, talvez, se houver a possibilidade de convertê-los ao grupo)?
  • O grupo lhe dá respostas do tipo “preto ou branco”: aquilo com o que o grupo concorda é certo, e aquilo de que o grupo discorda é errado?
  • Todas as pessoas do grupo acreditam exatamente nas mesmas coisas (ou seja, no que os líderes do grupo mandam acreditar)? Não existe espaço para crenças individuais ou opiniões, mesmo em áreas de menos importância?
  • O grupo tem “duas caras”: por um lado, se mostra a possíveis convertidos e ao grande público como um grupo de pessoas que são como uma grande família, cheia de amor e igualdade, mas, na verdade, o grupo tem muitos membros que se sentem intimamente insatisfeitos e emocionalmente esgotados?
  • Você já tentou desativar a sua capacidade, dada por Deus, de pensar criticamente, deixando de lado várias dúvidas sobre o grupo, os ensinamentos dele, etc.?
  • Aqueles do grupo que não se conformam às exigências dos ensinos dele são tratados com suspeição, como se fossem membros de “segunda-classe”?
  • O grupo tende a ocultar certas informações a potenciais convertidos? As doutrinas menos comuns do grupo não são discutidas até que um indivíduo esteja mais profundamente envolvido no movimento?
  • Você sente medo de deixar o grupo? Muitas seitas usam táticas sutis de terror para impedir os seus membros de deixá-las. Por exemplo, o grupo pode dizer que aqueles que desertarem serão atacados pelo Diabo, sofrer um acidente terrível, ou, no mínimo, não vão prosperar, porque eles deixaram “a verdade”.
Se você respondeu SIM à maior parte das questões acima, o grupo em que você está engajado está certamente empregando técnicas de manipulação mental.

Agora que você sabe disso, o que fará?
  1. Você precisa perceber que, qualquer que seja o grupo de que você é parte, ele não tem o monopólio de Deus. Para muitos dos que estão em seitas que utilizam controle mental, deixar o movimento é geralmente considerado o mesmo que deixar o próprio Deus e perder a salvação. Porém, a verdade é que há cristãos em todas as denominações que encontraram a salvação em Cristo apenas, e não na igreja ou no grupo. Muitos que estão presos em um sistema religioso espiritualmente prejudicial sentem como se não tivessem nenhum outro lugar para ir, mesmo se eles realmente conseguirem se desvincular do grupo.

    A resposta se encontra no que Jesus disse no Evangelho de Mateus 11:28: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei."
  2. Você precisa deixar o grupo. Pode ser difícil, mas, se você continuar lá, só será prejudicado: mental e espiritualmente. Você também estará contribuindo com um sistema que, em seu coração, sabe estar errado. Não deixe o orgulho impedi-lo de deixá-lo.
  3. Não pense que você vai ficar sozinho quando decidir sair. Há muitas pessoas que passaram pela mesma situação. Elas vêm de vários grupos religiosos, mas foram todas vítimas da mesma dominação das técnicas de controle mental. Hoje, muitas delas estão vivendo vidas de liberdade, segurança e esperança. Para obter encorajamento, você poderá ler algumas das histórias disponíveis neste e em outros sites ligados a este.

Traduzido por Avelar Jr.
Link da postagem original.

9 de dezembro de 2011

Triste Futuro Presente

[ESCLARECIMENTO: O texto abaixo é um desabafo antigo, repescado dos tempos em que eu debatia nas comunidades do Orkut. Naquela vitusta época, eu me encontrava triste porque, sendo cristão, eu deveria ficar calado diante de irmãos extremamente amorosos e gentis, em nada fãs de bandas e de pastores de TV góspeis; irmãos justíssimos e esclarecidos, que estavam acima e além de qualquer comprometimento doutrinário ou idelógico, que apoiavam líderes que obravam coisas, digamos... "exóticas" dizendo estar "pregando o evangelho", diferente do que faziam Jesus, os apóstolos, os missionários e evangelistas de todos os tempos. 

Eu deveria mesmo ficar calado. Exceto se eu quisesse ser censurado pelos digníssimos irmãos que não julgam ninguém (ninguém que seja famoso e que esteja num palco ou num púlpito, enriquecendo em detrimento dos seus apoiadores e pregando coisas que eram agradáveis e vistosas a estes). Porque ver o evangelho sendo vituperado em público por pessoas que fazem parecer a neófitos e ignorantes que Deus quer que saiamos imitando animais quadrúpedes e irracionais, fazendo coisas sem proveito de edificação para o corpo de Cristo, derramando alimentos nas calçadas e sujando ruas de mel e leite seria justamente o que Jesus queria que fizéssemos, não é?

Bom, então, como essas coisas não acontecem mais na igreja de Cristo e, por isso, não nos fazem mais passar vergonha diante do mundo incrédulo, deixo-vos com o desabafo por razões históricas, já que os tempos agora são outros e que essas letras perderam a razão de ser:] 

O mundo gospel merece - com toda certeza - o nosso aplauso de pé, nossa admiração sincera e sublime reverência pela qualidade "animal" com que apresenta o nosso Salvador às pessoas que ainda não o conhecem.

Antes Jesus era nosso pastor e amigo; hoje ele é o nosso escravo, que faz tudo que queremos (Não, não pensem que é exagero meu! Eu já vi em momentos de oração pessoas tratando Deus pior do que se trata um animal, esquecendo-se de quem é o dono de quem).

Antes éramos conhecidos por sermos diferentes do mundo; hoje, nosso impacto é de ser as nulidades a quem os "pastores" enganam e roubam, burras a ponto de defender quem nos extorque e explora, gente sem identidade e relevância, apenas uma cifra nas estatísticas do IBGE que nada representa para a mudança desse país.

Antes artista cristão vivia, mormente, de ofertas voluntárias, servia ao corpo de Cristo, cantando a palavra de Deus, e edificando com seu exemplo simples; hoje, são ricos empresários que criam uma marca, enriquecem com toda uma sofisticada linha de produtos, e constróem um nome em cima de programas de TV e contratos com gravadoras, as quais lhes impõem como devem ser, vestir, fazer e o que falar, tudo sob os ditames do mercado consumidor - são meros apetrechos a serviço de "emprejas" que querem alavancar sua arrecadação de dízimos, inflar seu quadro de membros e fortalecer o impacto de sua marca institucional -- isso quando não são mercenários.

Antes a Bíblia alertava que viria a "apostasia"; hoje isso foi deixado de lado, e temos "profetas" por aí alardeando novidades e que estamos vivendo uma "renovação apostólica", um "avivamento profético", onde o que vemos, na verdade, são pomposos líderes dando à igreja testemunho uns das supostas "autoridades" dos outros, outorgando-se altos títulos, mas sem ter a mínima noção do que seja um rebanho, um ministério e seguir a Cristo, sem conhecer de fato quais são as marcas de um apostolado, de um discipulado, e da grandeza de ser servo de todos, como Cristo nos mostrou em seu ministério terreno.

Antes as ovelhas conheciam o pastor, e este as conhecia todas, existia um relacionamento contínuo  e dedicado, comunhão de vida; hoje, as ovelhas nem sabem quem realmente são seus pastores, que nem sabem quem são suas ovelhas... ou fregueses, contribintes, usuários, fãs, público... Hoje existe a figura do "pastor-conferencista", que peregrina de igreja em igreja, levando pregações e palestras pontuais sobre um tema específico (e, dependendo da figura, sobre coisa alguma), sem  se dedicar ao cuidado de um rebanho específico. Se pastor é quem cuida de um rebanho que lhe foi confiado pelo Senhor, alimentando-o, protegendo-o, investindo sua vida e seu tempo no crescimento e bem-estar dele (sendo este um excelente ministério, conforme as Escrituras), pelo menos no meu entender, pastor-conferencista é apenas "conferencista", não "pastor".

Antes a Bíblia dizia que nos últimos dias os jovens teriam visões e alertava para os falsos mestres que surgiriam de dentro da igreja para devorar o rebanho sem dó; hoje a igreja só lembra da primeira dessas profecias, convenientemente. E o pior é que parece viver muito bem ignorando isso, ignorando tudo. E acolhendo somente o que sustenta a base de sua zona de conforto. Como é ruim ter amnésia e ser cego ao mesmo tempo! 

[Atualizado e modificado na mesma data.]

10 de outubro de 2011

Neofilia: de bueiro em bueiro e rumo ao sumidouro

"Jesus perguntou, então, aos seus discípulos:
 —Vocês entenderam as coisas que eu acabei de dizer?
E eles responderam:
—Sim, entendemos.
E Jesus lhes disse:
—É por isso que todo professor da lei, quando aprende a respeito do reino do céu, se torna semelhante a um pai de família que tira de seu depósito tanto coisas novas como coisas velhas." -- Mateus 13.51-52, Versão Fácil de Ler.

Tenho um grande amigo aqui perto, e nos vemos sempre. Às vezes nos vemos online ou pessoalmente, mas nos vemos tanto que, ao perguntar pelas novas, sempre me dá suas velhas respostas-bordão, como "Nada é tão novo... nada é tão antigo", "As novas já estão todas velhas"... Eu prefiro dizer que estou sem novidades mesmo. Isso só ocorre porque sempre lhe pergunto pelas novidades, mesmo que o tenha visto há três dias. Às vezes eu acho que eu pergunto só para tentar adivinhar qual dos bordões ele vai usar em cada resposta... Amigos de muito tempo sempre têm diálogos recorrentes.

Enfim, estar em dia, quem não quer, não é? Meu navegador de internet, por exemplo, já abre no Google Notícias para, se eu quiser, acompanhar as últimas. Como em todo o mundo, a igreja também tem gente assim - e muita. Por vezes, parece até que só tem mesmo gente assim. Obviamente, alguns sabem tirar proveito dessa atitude no meio eclesiástico, que muitas vezes é igual ao dos atenienses: ócio constante, inclinação ao ego e busca das últimas novidades, sensações e emoções.

Escrevo isto porque fiquei estarrecido ao ler alguns artigos na internet noticiando que um tal ministro evangélico estrangeiro veio ao Brasil, patrocinado e anunciado por uma agremiação evangélica chique, para comunicar aos "brothers & sisters" daqui produtos supostamente sobrenaturais e vanguardistas, como "ativação profética", "liberação de destino", "novas unções": sobrenaturalezas e espiritualices mais.

Impressiona-me ver que, na busca por atrair público - e obviamente agregar um pouquinho de fama, poder, influência e alguns contos no bolso, alguém se dê ao trabalho de, usando Jesus como garoto-propaganda, inventar um monte de coisas que não existem, que nunca fizeram falta e que não têm utilidade alguma - nem teórica e nem prática, levando em conta que o apelo do novo mexe com a vaidade e a cobiça das pessoas, seja porque elas querem levar alguma vantagem sobre os outros, receber alguma informação privilegiada ou por outro motivo qualquer.

O apelo ao novo é algo tão explorado e fácil de fazer que vi algo assim, ontem mesmo: enquanto eu organizava uns livros na minha estante, ouvia representantes de um grupo religioso, num programa de televisão local, anunciando um evento (não reparei se era evangélico ou não. Embora eu creia que não; já que nem se falou do evangelho, e com muito custo se mencionou metade de um versículo. E eu não estava no mesmo cômodo em que a televisão para ver a imagem). Eles pareciam que realmente não tinham nada de importante a dizer ou a testemunhar com aquele evento. Repetiam sem parar as mesmas falas, e perdoem-me reproduzir a repetitividade deles aqui, porque estou apenas participando-lhes o que eles disseram: que "porque os jovens gostam de novidades...", "porque os jovens querem novidades...", "porque os jovens curtem novas sensações...", "porque os jovens querem vida..." Um milhão de vezes mencionaram as palavras "jovens", "novo", "sensações", "novas", "experiências", "novidades"... O engraçado é que era notório que a extrema falta de conteúdo dos religiosos combinava perfeitamente com a absurda falta de ter o que passar do programa televisivo. Sobrava tempo e faltava assunto (Ou eles pagaram por tempo de mais na TV para assunto de menos?). O que ficou da "mensagem", para mim, é que "se você é jovem e gosta de ficar sentindo coisas novas, aquele evento é um 'must' para você! Você vai sentir várias coisas! E o mais importante: são coisas novas! Ah... elas também são de 'Deus'".

Enfim, creio que isso apenas ilustra mais uma vez o que se vê naqueles cartazes vãos de anúncios de programações de igrejas que aparentemente deixaram, como propósito de sua existência, o testemunho do evangelho de Jesus Cristo (digo "aparentemente" porque creio que, em muitas dessas instituições, ainda há gente de Deus, mesmo que não fique evidente; e, porque, amiúde, o que mais avulta é o que há de pior, e o que causa mais impacto). 

Igrejas que deixam o evangelho para viver de novidades, como não têm mais razão de existir, subsistem apenas para atender à vontade das pessoas vazias que sustentam seu funcionamento. Pessoas estas que, como não têm no evangelho e no senhorio de Cristo uma âncora segura, uma Rocha e um Norte para a vida, seguem arrastadas pela correnteza da modernidade cada vez que um bueiro diferente é aberto; almas que têm, como filosofia e propósito, o frescor das emoções, das sensações e das informações que as vão tragando num sumidouro atraente, porém, fatal.

Curioso que o velho apóstolo Paulo, em epístola escrita aos cristãos da região da Galácia (porque eles estavam deixando a mensagem do evangelho da salvação - que é o poder e sabedoria de Deus manifestados na pessoa e na obra de Cristo na cruz - por obras da Lei de Moisés, que não podiam salvar), censurou-os mais ou menos assim: "Gálatas, seus malucos! Quem foi que enfeitiçou vocês?" [Gálatas 3.1]... Agora me sinto como ele parece ter se sentido ao escrever aquilo, com um misto de espanto e urgência sem tamanho, ao olhar para a igreja evangélica. Para a qual, simplesmente ouvir o evangelho, que nunca deveria deixar de ter sido sua essência, hoje realmente soaria como algo inédito: a grande novidade das velhas "boas-novas"!

E se sobram ministros malucos que não pregam o evangelho por amor a Deus - e já que nem mesmo o amor de Cristo os comove a fazer tal - que pelo menos o fizessem, não por amor ao dinheiro ou às pessoas, mas por amor... ao novo! Se eles não quiserem fazê-lo mesmo assim, queiramos nós! Não temos opção. Pois, como repetia o velho Seu Barriga vestido de garçom num episódio de Chapolim, em que levou muitas pancadas: "Estamos aqui pra isso!". E, como dizia um bom e sábio apóstolo, de quem sinto saudade tendo-o conhecido apenas de ouvir falar, o qual agora está descansando no andar de cima, depois de uma vida terrena marcada pela fidelidade exemplar, pelo fervor pelas imutáveis palavras da vida eterna e pela renúncia a tudo pelo Salvador e Senhor que o amou e que deu a  Sua própria vida por ele: "o amor de Cristo nos constrange".

Que o amor de Cristo, de fato, tome conta de nossas vidas e nos faça prosseguir, a todos, para vivermos e testemunharmos o indispensável e eterno evangelho, seja ele novo, seja ele velho!

"Pois o amor de Cristo nos constrange, porque estamos convencidos de que um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos para que aqueles que vivem já não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou." - 2 Coríntios 5.14-15, NVI

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