3 de setembro de 2009

Teologia da libertação: "Deus me livre"

Há algum tempo, comprei uma Bíblia católica para poder ler os livros apócrifos (minha mãe tinha uma bíblia que era um alfarrábio, mas eu não tenho habilitação para dirigir guindaste para transportá-la para onde eu quiser), afinal, quando eu pretendesse discuti-los com alguém, seria natural ser perguntado sobre se já os li, e eu não podia dar a gafe de dizer que nunca os li, como faz muita gente “intelectual” que nunca leu a Bíblia e discorda dela. Então comprei a Edição Pastoral da Editora Paulus.

Antes de comprá-la numa loja de paróquia, não pesquisei sobre a tradução e o conteúdo das notas. Olhei criteriosamente apenas a capa, azul, minha cor predileta, com desenhos amarelos. Eu achei-a bem bonitinha, pois as ilustrações rústicas remetiam a pinturas e mosaicos bizantinos em que todos os santos têm os olhos grandes e a cabeça bem redonda ou oval com uma auréola ainda mais redonda em torno dela. Ademais, por ser azul, a Bíblia combina com todo o meu guarda-roupa, pois minha mãe diz que eu só visto azul. Não deu outra: levei essa mesmo (e o preço também estava bom!).

Ao chegar em casa, percebi duas coisas: a) a linguagem da Bíblia é muito gostosa de ler, fácil de entender; é uma Bíblia realmente voltada para o povo, talvez por isso a capa também lembre literatura de cordel. b) as notas e comentários são capazes de levantar suas sobrancelhas às vezes – sabe aquela sensação de que o PSTU e o PT estão ensinado exegese bíblica para você e que você já leu a Bíblia muitas vezes e “não sabe de nada”? Pois é. Muito Teologia da Libertação, capaz de trazer um desafio e inclusive uma certa descontração no final do seu devocional.

Achei algumas anotações estranhas em relação ao texto e outras até muito à frente do Vaticano, e os livros vêm com subtítulos, alguns inusitados, que fazem você pensar nos comentaristas pelo excesso de criatividade e imaginação que desvelam (De onde os caras tiraram que a intenção do texto era essa? – perguntei-me várias vezes lendo as notas). Eles escreveriam blogs muito maneiros, mas estão se desperdiçando com tanta criatividade nas interpretações figurativas que alguns textos não oferecem.

Alguns subtítulos curiosos:

Josué: a terra é dom e conquista
Juízes: a dinâmica do processo histórico
Rute: a luta dos pobres pelo seu direito
Judite: a invencível força dos fracos (a mulher jejuava demais, acho eu que é por isso...)
2º Macabeus: a fé leva ao heroísmo
Eclesiastes: felicidade é viver o presente
Eclesiástico: a preservação da identidade do povo
Lamentações: o povo humilhado



Eu podia comparar essa Bíblia a uma conversa entre duas pessoas. Uma delas quer pregar a mensagem do evangelho para salvar sua alma, mas pensa em você, às vezes, como uma comunidade. A outra parece que quer mostrar para você que a Bíblia defende um governo de esquerda e que você é uma coletividade numa luta de classes, que inclui reforma agrária.

Ontem à noite, antes de dormir, eu li o trecho das Bodas de Caná. Mas, como não poderia deixar de ser, aproveitei para ler a nota esperando dar uma risadinha. Veja só o que ela dizia:

“[...] João relata este episódio por causa do seu aspecto simbólico: o casamento é o símbolo da união de Deus com a humanidade, realizada de maneira definitiva na pessoa de Jesus, Deus-e-Homem. Sem Jesus a humanidade vive numa festa de casamento sem vinho. Maria, aliviando a situação constrangedora, simboliza a comunidade que nasce da fé em Jesus...” – É o típico momento “nonsense”, digno de um "Dã!"

Dá até para tirar várias lições práticas e reflexões interessantes aqui e acolá, mas o problema dos comentários é que às vezes trazem um sentido bastante diferente do que o autor do texto realmente pretende. No caso, o próprio João escreve no evangelho que confeccionou seu relato da vida de Jesus para que as pessoas creiam neste como o Filho de Deus, e, para que, pela fé neste Nome, tenham a vida eterna.


Sabedor disto, eu imagino um leitor da Bíblia acrítico, formado exclusivamente por comentários assim, viajando na maionese com interpretações simbólicas, algo que definitivamente não estava nos planos dos autores bíblicos quando quiseram apenas transmitir o testemunho de Jesus Cristo para a igreja (Jo 17.17; Hb 4.12; 2Tm 3.16-17; 2Pe 19-22).

As Escrituras não provém de particular interpretação, mas da inspiração do Espírito Santo; e é nesse prisma e sob a direção desse Autor e Intérprete que devem ser vistas. Portanto, ao ler comentários e notas de rodapé tenha muito cuidado. Busque sempre escutar o Mestre:

“Então Jesus disse a eles: ‘Como vocês custam para entender, e como demoram para acreditar em tudo o que os profetas falaram! Será que o Messias não devia sofrer tudo isso, para entrar na sua glória?’ Então, começando por Moisés e continuando por todos os Profetas, Jesus explicava para os discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele.”


[...]

“’São estas as palavras que eu lhes falei, quando ainda estava com vocês: é preciso que se cumpra tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.’ Então Jesus abriu a mente deles para entenderem as Escrituras.”
– Jo 24.25-27 e 44-45. Bíblia Edição Pastoral - Paulus.

11 comentários:

Meire disse...

Irmão Avelar, Graça e Paz.
Nasci em berço católico, e ainda conservo minhas bíblias católicas, mas sinto em confirmar que você comprou a pior tradução da ICAR.
Já ouvi o falecido padre Leo, (se vc tiver oportunidade ouça alguma pregação dele e me diga o que achou), falar duramente contra essa tradução e justamente pelo fato de pintar um Jesus que veio apenas para livrar o pobre trabalhador da exploração capitalista.Essa bíblia é realmente um manual da Teologia da Libertação.
Gosto mais da tradução da CNBB, mas também a Bílbia de Jerusalém.
Exite uma outra tradução, que não lembro o nome, mais antiga que é bem fraquinha, mas tem em seu favor informar que o livro de Tobias é apenas um conto e portanto não narra algum acontecimento real.

Pedro, Débora e Patrick disse...

kkkkkkkkkkk
Vc, hein, Avelar... Sempre surpreendendo a gente!

Eu faço Ensino Médio e estou estudando a Reforma Agrária na matéria de Geografia (inclusive tenho prova na próxima semana!). E, em meio aos estudos, achei incrível como muitos ramos da Igreja Católica (e.g. A Pastoral da Terra da CNBB) se intrometem nessas questões defendendo a “Teologia da Libertação”.

Pior que isso é a Igreja, além de desvirtuar seu real sentido, ainda querer contaminar a Bíblia com pontos de vista humanos. Gosto muito de comentários bíblicos, pois nos ajudam a entender assuntos teológicos difíceis. Mas daí a o autor dos comentários querer aproveitar o espaço para “puxar a brasa pra sua sardinha” e defender seus interesses usando as Palavras de Deus... Isso é anátema!

O verdadeiro propósito da Bíblia não é conduzir o homem a ter terra pra morar e plantar, não é promover a igualdade social, o fim do preconceito e nem defender os direitos da humanidade. Longe disso, a Bíblia foi feita pra mostrar ao homem o seu pecado e a salvação através de Jesus Cristo. Nossos tesouros não estão aqui nesta terra, são tesouros celestiais.

O verdadeiro propósito da Igreja de Deus é agradar a Deus, servi-lO, submeter-se a Ele e fazer todas as coisas com o propósito de glorificá-lO. Não sei onde é que promover a Reforma Agrária vai glorificar (diretamente) a Deus. A Igreja não foi feita para fazer a vontade dos homens ou suprir suas necessidades. É bom refletirmos sempre nisso.

Em Cristo,
Débora Silva Costa
http://ferazao-bang.blogspot.com/

Cristina Danuta disse...

As notas de rodapé de muitas Bíblias "evangélicas" não ficam muito longe nos besteiróis também. Comprei, há um tempinho, a Bíblia de Jerusalém, recomendada por uma antiga professora (na época - em 2003 - ela, inclusive, me disse que era a versão em lingua portuguesa mais próxima do original. Não sei se ainda é). É muito interessante, mas não estamos livres de, uma hora ou outra, encontrar algo , digamos, "estranho". Façamos como Paulo nos recomendou. Vamos reter aquilo que é bom. Abraços.

Emília disse...

Oi Avelar, é a primeira vez que passo por aqui. Gostei muito do seu blog! Vou vir sempre.

Abs,

Avelar Jr. disse...

Meire,

Eu tenho outras traduções católicas, como a da CNBB (não li ainda), a Ecumênica (li e não achei lá essas coisas) e um dia eu compro a Bílbia de Jerusalém (que é cara demais, volumosa e não tem versão popular).

Grande abraço!

Avelar Jr. disse...

Cristina,

É verdade, há muitas maluquices em notas de Bíblia evangélicas. Por isso é sempre recomendável ter muita cautela com todas, independentemente da religião de quem anota.

Felizmente tem aquelas que são óbvia e altamente desrecomendadas, como aquela "Bíblia da Ambição Financeira e Lutinhas com Demônios" que um certo mercen, digo, pastor anuncia na TV.

Avelar Jr. disse...

Emília,

Fico feliz que tenha gostado, volte sempre!

---

Débora,

Você é de casa já... :)
Já pode pôr os pés na mesinha de centro e abrir a geladeira.

Pedro, Débora e Patrick disse...

Ah, muito obrigada Avelar!!! Eu cheguei assim, de fininho, invadindo o seu cyberespaço...kkkkk Sinta-se da mesma forma também no meu blog!!!

Foi um prazer conhecê-lo na blogosfera e espero algum dia te conhecer pessoalmente, pra gente conversar o que passou em nossas vidas e juntos relebrarmos o amor de Deus por nós... kkkkk
Sou da 1ª igreja de Crato, do Pr. Ernandes. ;-)

Em Cristo,
Débora Silva Costa
http://ferazao-bang.blogspot.com/

Th disse...

Oi, tudo bem?

Sou recem convertido ao Catolicismo. Pode me recomendar um boa tadução? Sem teologia da empulhação?

Avelar Jr. disse...

Bom, eu não sou católico romano, então, eu teria reservas em indicar-lhe versões católicas romanas, pois estou mais acostumado com versões protestantes. Os livros a mais que a ICAR reinseriu no Concílio de Trento, que nós protestantes e também os judeus não aceitamos como inspirados por Deus são um contra.

Versões católicas que eu li de capa a capa, e tenho reservas para com elas são as seguintes:

Sobre a Versão Pastoral (da qual escrevi) saiba que há muitos católicos que não gostam das notas por algumas razões, entre as quais, a questão de marxismo teológico da teologia da libertação. Uma coisa boa dessa versão é a linguagem simples, que chega a ser útil demais. Entretanto, tem outros problemas de tradução tendenciosa. Ex.: sempre que Paulo se dirige aos crentes, pessoas comuns como nós, como "santos", eles traduzem "cristãos". O problema é que o termo "cristão" foi surgido de forma pejorativa contra os crentes em Cristo pelos opositores do cristianismo. Então, nenhum apóstolo o usaria. Quando Paulo nos chama de "santos" (e essa Bíblia omite isso), ele tem em mente que somos um povo "separado" do mundo, "consagrado", para servir a Deus. O problema é que o catolicismo popular (não o oficial) leva o conceito de que pessoas "santas" são pessoas mortas que estão no céu, que morreram martirizadas, que fazem milagres, que não têm pecados e que intercedem pelos vivos diante de Deus; e a elas atribuem-se "méritos", como se não necessitassem da graça de Deus. Isso não tem nada a ver com a Bíblia. Nada a ver mesmo. É simplesmente um conceito errado que se formou em torno de pessoas que viveram sua vida religiosamente, buscando servir a Deus. Acho que isso só coopera para que o conceito de "santo" nunca seja corrigido e entendido dentro do conceito popular.

A outra versão que li foi a Tradução Ecumênica da Bíblia. Eu não gostei dela por causa de algumas coisas. A primeira, o linguajar rebuscado; a segunda, os nomes meio "judaizados" (Isabel é Elizabete, mas esse não seria dos piores) que foge um pouco dos nomes já popularmente consagrados; terceiro, a ordem dos livros segue a da Bíblia judaica, não a grega, que conhecemos bem. Não gostei muito dela. Prós: tem algumas notas interessantes, os livros apócrifos estão separados do AT; tem muitas referências cruzadas.

Eu lhe recomendaria uma versão evangélica que é aprovada pelo Vaticano, se você é católico romano: a Bíblia Almeida Revista e Atualizada, 2a edição, da Sociedade Bíblica do Brasil. Porém, se você quiser uma com linguagem mais simples, a Bíblia Nova Versão Internacional ou a Almeida Século 21. Essas três são excelentes traduções, mas não têm os livros apócrifos, que no catolicismo romano chamam de "deuterocanônicos".

Ao seu dispor para mais perguntas, obrigado pelo comentário.
Grande abraço. :)

Th disse...

Obrigado, vou olhar as versões Avê Maria e a da CNBB então

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